Velha guarda do jornalismo entre a crítica e o rancor ao Estado angolano – Yara Simão
Velha guarda do jornalismo entre a crítica e o rancor ao Estado angolano - Yara Simão
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É urgente chamar a atenção para um fenómeno preocupante no jornalismo angolano. Muitos profissionais da velha guarda, movidos por ressentimentos ou frustrações pessoais em relação ao Estado, têm produzido artigos críticos que vão além da análise, fomentando sentimentos de impotência política e social.

Instilam desconfiança generalizada e deixam um legado negativo para as novas gerações de jornalistas. Esse comportamento não é apenas contraproducente; é uma ameaça à credibilidade da profissão e ao desenvolvimento de uma consciência cívica sólida.

Há leituras que não passam apenas pelos olhos, atravessam a consciência e se instalam no silêncio inquieto da reflexão. É assim que me sinto sempre que leio certos textos de colegas da velha guarda do jornalismo angolano. Não é desrespeito, é inquietação. Não é afronta, é necessidade de compreender. Porque o jornalismo, mais do que profissão, é missão. E toda missão carrega responsabilidade histórica, principalmente para quem veio antes de nós.

Nasci em 1982, num país que cresceu entre desafios, reconstruções e expectativas. A independência aprendi nos livros e nas narrativas que moldaram a nossa identidade colectiva. Cresci a ouvir histórias de sacrifício, de superação e de esperança. Histórias que exigiam de cada cidadão, sobretudo dos jornalistas, responsabilidade no uso da palavra. Informar nunca foi apenas relatar; sempre foi formar consciências. E isso exige equilíbrio.

O jornalismo angolano construiu-se com vozes fortes, com profissionais que abriram caminhos em tempos difíceis. Essa herança não pode ser ignorada. Mas herdar não é apenas receber, é também preservar e honrar. Honrar implica coerência entre aquilo que se escreve e aquilo que se pratica. O público não consome apenas informação, observa comportamentos. É aí que nascem as referências.

Hoje, o que se observa em alguns discursos é uma crítica constante, muitas vezes carregada de emoção negativa. Um tom que rejeita, quase por princípio, qualquer acção do Executivo. Como se nada estivesse certo, como se tudo fosse erro.

A crítica é essencial em qualquer sociedade democrática. Mas quando perde o equilíbrio, deixa de esclarecer e passa a confundir. O jornalismo não pode ser instrumento de desorientação.

Durante muito tempo, criou-se a ideia de que o Estado era um verdadeiro “fontanário”. Sempre que surgia uma necessidade, bastava recorrer a uma figura do Executivo. Era o tempo do “liga ao ministro X”, como solução imediata para problemas pessoais.

Esse hábito criou dependências e distorceu a relação entre jornalista e poder. Hoje, as consequências dessa cultura começam a revelar-se.

Com as mudanças políticas que se seguiram à saída do ex-Presidente José Eduardo dos Santos, o ambiente alterou-se. O acesso deixou de ser o mesmo, as facilidades reduziram e, com isso, aumentaram também as vozes críticas.

Mas é importante questionar, trata-se de uma consciência crítica amadurecida ou de uma reacção à perda de privilégios? Nem toda crítica nasce da verdade; algumas nascem da frustração, do ressentimento e, ouso dizer, do rancor acumulado há décadas.

Mais inquietante ainda é a contradição nos bastidores. São os mesmos que criticam duramente nos artigos e redes sociais que, em momentos de dificuldade, continuam a procurar o apoio do Executivo.

Pedem ajuda para resolver questões pessoais, familiares e profissionais. Não se condena a necessidade humana, mas questiona-se a coerência. O discurso público deve reflectir integridade.

Esse comportamento, ainda que não generalizado, empobrece a profissão. Enfraquece o valor da palavra e compromete a credibilidade de quem escreve. Serve de exemplo negativo para as novas gerações. Os jovens aprendem com o que veem. E o que veem, muitas vezes, é uma prática distante da ética que se defende no papel.

Há também uma tendência preocupante de transferir responsabilidades individuais para o Estado. Profissionais que, ao longo da vida, fizeram escolhas pessoais questionáveis, hoje apontam o dedo ao Executivo como culpado pelas suas dificuldades. Mas nem toda falha pessoal é responsabilidade do Estado. Cada um escolhe os caminhos que trilha.

É paradoxal observar que alguns desses profissionais não conseguiram garantir estabilidade básica, como uma habitação própria, mas optaram por estilos de vida que multiplicaram responsabilidades pessoais, mantendo mais de uma família. Ainda assim, a culpa recai sobre o Estado. Esta inversão de responsabilidades precisa ser questionada com seriedade e honestidade.

Outro aspecto preocupante é o impacto deste tipo de discurso na sociedade. Opiniões carregadas de negatividade, ódio disfarçado em críticas, quando veiculadas por jornalistas renomados, têm efeito amplificado. Criam-se ambientes de desconfiança, revolta e até ódio colectivo. O cidadão comum tende a acreditar que tudo está perdido. Isso fragiliza a nação.

O jornalismo crítico é indispensável, mas deve ser construtivo, responsável e fundamentado. Criticar por criticar, sem apresentar caminhos, não eleva o debate público; empobrece-o. O país precisa de vozes que questionem, sim, mas que também proponham. Que denunciem, mas também orientem. O papel do jornalista não é incendiar; é iluminar.

Aos veteranos, o país deve respeito. Mas o respeito não impede a reflexão crítica; pelo contrário, exige-a. Quem abriu caminhos também tem o dever de os preservar e garantir que as novas gerações recebam não apenas experiência, mas também exemplo. Experiência sem coerência perde valor.

Este é, portanto, um apelo sereno, mas firme.

Um convite à introspecção. Um chamado à responsabilidade ética e profissional. Não se trata de apontar dedos, mas de levantar consciências. A credibilidade do jornalismo angolano dependerá sempre da integridade de quem o exerce. E a carapuça servirá apenas a quem souber que a veste.

*Jornalista

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