
Vinte e quatro horas após o memorando de entendimento entre o Governo e as Centrais Sindicais, que pôs fim definitivo à terceira fase da greve geral, muitos trabalhadores da função pública – incluindo técnicos de empresas públicas, professores, médicos e enfermeiros – manifestaram profundo descontentamento e distanciamento em relação ao acordo finalizado na terça-feira, dia 28.
Segundo uma nota recebida pela redação do Imparcial Press, muitos trabalhadores filiados aos sindicatos que integram as centrais sindicais sentem-se traídos pelos seus representantes. Este sentimento de traição decorre do facto de que, conforme a nota, os salários não sofreram as mudanças imediatas necessárias, num país onde o custo de vida aumenta diariamente.
Além da nota, a redação do Imparcial Press verificou na manhã desta quarta-feira, dia 29, em quase todas as redes sociais, uma onda de tristeza e desapontamento por parte de muitos funcionários públicos. Através de comentários em diversas publicações, estes trabalhadores expressaram seu descontentamento e “ódio” pelas centrais sindicais, que consideram terem feito pouco ou nada em seu benefício.
Por exemplo, a senhora Maria, funcionária pública no sector da Educação, escreveu num comentário no Facebook acusando, com excepção do SINPROF, outros organismos de pressão social – como a UNTA, CGSILA e FSA – de serem cúmplices na situação atual dos funcionários públicos.
“Tirando o SINPROF, esses sindicatos todos são do sistema, vieram só atrapalhar a luta do SINPROF”, afirmou ela.
Agostinho da Silva, funcionário do MINSA, expressou que estava preparado para a terceira fase da greve e acusou os sindicatos presentes no memorando de entendimento de venderem as esperanças dos trabalhadores.
“Nós estávamos dispostos e prontos para a terceira fase da greve, os sindicatos foram vender as nossas esperanças. Amanhã, quando me chamarem para a greve, vão ver bem”, lamentou.
Os sindicatos terão sido, supostamente, ameaçados pelo governo – descrito como um carrasco que complica a já difícil vida do cidadão angolano – na opinião de Lufuankenda Gaspar, profissional do sector público da justiça. Ele acusa os sindicatos de venderem o tão desejado sonho de milhares de trabalhadores.
“Sindicatos fracos. Foram ameaçados que essa reunião seria o desfecho e ficaram logo atrapalhados. Assinar um acordo sem aumento salarial, nada fizeram, traíram-nos”, acusou ele.
Andreia Bernardo, funcionária pública há mais de 12 anos, aproveitou a ocasião para apelar aos responsáveis dos professores e dos médicos para que, no futuro, procurem reivindicar os seus direitos independentemente dos outros sindicatos, sob pena de enfrentar situações semelhantes.
“Na minha opinião, o SINPROF e o Sindicato dos Médicos têm que começar a fazer reivindicações sozinhos, esses outros sindicatos são do regime”, sugeriu ela.
Dois funcionários públicos no sector das pescas, Josefa Alberto e André Matuidi, mais do que se sentirem traídos pelas Centrais Sindicais, questionaram sobre o destino do dinheiro descontado nas primeiras e segundas fases da greve.
“E o dinheiro que nos descontaram na primeira e segunda fase fica só assim? Não ganhámos nada”, questionaram, afirmando ainda que “Nesse acordo só tem ideias do Governo. 2025 é longe, a fome é agora”, concluíram.
O Imparcial Press tentou, sem sucesso, ouvir os representantes dos trabalhadores que participaram do memorando de entendimento com o governo, na terça-feira, numa das salas do MAPTESS.
Vale recordar que as Centrais Sindicais e o Governo chegaram a um acordo ontem, terça-feira, após 8 horas de negociações, sobre os principais pontos do caderno reivindicativo. Apesar do entendimento e do consequente cancelamento da terceira fase da greve geral na função pública, muitos trabalhadores, especialmente os insatisfeitos com as decisões tomadas, garantem que não participarão em futuras greves convocadas pelas centrais sindicais.
Por: Ngola Ntuady Kimbanda Nvita