A “indigestão política” da liderança da UNITA causada pela Fundação Jonas Savimbi – Carlos Joaquim
A "indigestão política" da liderança da UNITA causada pela Fundação Jonas Savimbi – Carlos Joaquim
Ana Savimbi

“A razão é comum a todos, mas as pessoas agem como se tivessem uma razão privada” – Heráclito.

Somos políticos, mas sobretudo somos seres gregários, seres sociáveis. O zoon politikon (animal político) na acepção politológica de Aristóteles também qualifica o homem (Animal Político) como homem civilizado.

A política não é para o “selvagem” (“homem bom”) na acepção antropológica de Jean-Jacques Rousseau e, nem é para os “bárbaros”, na perspectiva etnocentrista ou antropológica. A política diz respeito aos homens civilizados, aos políticos civilizados.

Qualquer partido político que enfrenta crise de liderança política, sobretudo por falta de capital político do seu líder, para congregar seus correligionários, tende a fazer recurso ou apegar-se aos próceres históricos da sua organização política, cujo capital político continua sendo o sustentáculo de tal organização.

Embora existam notáveis diferenças entre o objecto social ou vocação dos partidos políticos e, o objecto social ou vocação das fundações, se não haver fiscalização nos seus actos e relações, elas podem ser usadas em benefícios de partidos políticos.

Se por um lado os partidos políticos disputam o poder político, por outro lado, as fundações prosseguem objectivos de carácter filantrópico e social (pela sua natureza, não têm nada a ver com interesses ou dividendos políticos dos partidos políticos).

Pensamos que depois de longos anos, nos quais o nome de Jonas Savimbi era associado a “todos os males de Angola independente” (desde a guerra civil, a destruição de infra-estruturas sociais de todo tipo, bem como o atraso económico e social do país), chegou a hora e a oportunidade de se “lavar” o nome e a honra de um dos três protagonistas da luta de libertação nacional, a luta que conduziu-nos à independência nacional.

A actual liderança da UNITA devia saudar a oportunidade da criação e aprovação da Fundação Jonas Savimbi, porquanto espera-se que, com as acções filantrópicas e sociais a serem desenvolvidas por essa fundação, doravante possam associar o nome, a imagem e a honra de Jonas Savimbi à causas boas, longe do espectro da guerra, mortes e destruição – até então associadas a ele.

Embora a vida e obra de Jonas Savimbi confunde-se com a fundação, a trajectória e o propósito político da UNITA, o certo é que a fundação com o seu nome não deve ser considerada como um segmento politico ou social da UNITA enquanto partido político.

Tal como as Organizações da Sociedade Civil, as (ONG’s e as Igrejas), as fundações são parceiras sociais do Estado e, não podem ser vistas como satélites políticos do Estado ou de partidos políticos, pois, sua vocação é filantrópica e social, e a sua posição deve ser apolítica.

A Fundação Jonas Savimbi, enquanto ente não governamental e apolítico, diz mais respeito a sua família restrita e a toda sociedade angolana – sua liderança não deve estar vinculada a nenhum partido político, mas nada o impedirá de realizar suas acções em parceria com o Estado angolano.

Por alguma razão os filhos de Jonas Savimbi quiseram que o mais velho Isaias Ngola Samakuva fosse o Coordenador Geral dessa fundação. Isaias Samakuva é a individualidade mais idónea para estar a frente da Fundação Jonas Savimbi – pela sua idade social, política e diplomática, bem como pela sua capacidade de liderança, tolerância e de conseguir consensos, Isaias Samakuva é sem dúvidas a pessoa ideal para coordenar e dirigir essa fundação.

Não há democracia pluralista sem oposição política, mas essa oposição não precisa ser feita com homens selvagens ou bárbaros – a rivalidade política entre oponentes políticos não pode ser igual a rivalidade mortal como a que existe na selva entre os animais ferozes. Precisamos de políticos mais moderados, mais congregadores, em suma, precisamos políticos racionais, políticos civilizados.

Falamos em paz, tolerância e reconciliação nacional, mas continuamos a ver os nossos adversários políticos como inimigos de guerra ou inimigos mortais!

Embora tenhamos filiações político-partidárias diferentes, simpatias políticas distintas, somos todos irmãos obrigados ao convívio na diferença. Hoje já não há UNITA da mata e UNITA da cidade, ou MPLA da mata e MPLA da cidade, hoje não temos partidos políticos inimigos, hoje só precisamos compreender as nossas diferenças políticas e sujeita-las ao nosso convívio enquanto angolanos – mas para isso, precisamos pensar e agir como pessoas civilizadas, como políticos civilizados.

As intrigas, as desconfianças constantes, as perseguições, o ódio, as inimizades, a exclusão social e política, só nos tornam mais distantes uns dos outros e, nisso continuamos a emperrar o desenvolvimento económico e social do país, que tanto almejamos, porque o merecemos.

*Doutorando em Ciências Sociais na Especialidade de Ciência Política; Mestre em Ciência Política e Administração Pública; Pós-graduado em Políticas Públicas e Governação Local; Pós-graduado em Administração Autárquica; Pós-graduado em Direitos Humanos e Cidadania, e Docente universitário

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