O significado da Independência – Adebayo Vunge
O significado da Independência - Adebayo Vunge
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Todos e cada um de nós vive marcado – ou deveria? – de forma indelével pelo que nos trouxe a independência. Nestes 49 anos de Independencia, vale sempre a pena olharmo-nos no espelho para tentar perceber como estamos, onde estamos, o que queremos de nós ou para onde queremos, realmente, ir.

Essa reflexão é tanto mais profunda, necessária e pertinente quando olhamos a nossa realidade, mas principalmente quando vemos os ventos do mundo, ou principalmente os ventos do que se passa em países próximos como é o caso de Moçambique, que se abeira do caos uma vez que pouco trabalhou a questão de base: as pessoas!

“Nós somos especiais”, nos auto-classificamos, mas não somos alheios e indiferentes ao mundo ao redor. De resto, a própria luta pela Independência foi, ela própria, produto destas influências, para além dos próprios factores internos ou, se quisermos, endógenos que nos levaram à luta.

É por isso que à situação social, política e económica hoje merece uma resposta acutilante de todas as forças. Merece uma abordagem inclusiva e integradora sob a liderança do poder político, mas não sob a sua responsabilidade ou participação exclusiva.

Não podemos falar orgulhosamente da Independência num cenário em que vemos alguns dos nossos compatriotas a lutar para sobreviver com restos de comida putreda no lixo.

Parafraseando Lula da Silva, a fome não espera. E daí a urgência de um esforço emergência do Executivo para conseguir resolver o tema da fome, da pobreza e da segurança alimentar, com medidas que me parecem urgentes no curto prazo:

1 – Alimentação (apoiar medidas para a redução dos preços, em toda linha, da cesta básica, o que passa pelas medidas tributárias, mas também no fomento ao crédito incondicional para a produção e a comercialização, as cadeias logísticas e a pequena agro-indústria. Algumas restrições à importação iriam, certamente, sacudir e forçar a inversão do quadro);

2 – Emprego (é verdade que é consequência do crescimento económico, mas num cenário como o nosso onde o petróleo continua a jorrar, tem ainda muito peso e para mais sem conteúdo local, então é urgente criar condições para empregabilidade massiva dos jovens, em termos profissionalizantes, mas também com um ensino que ajude a criar uma consciência mais construtiva, libertadora e menos dependentes em tudo do Estado. Em suma, o emprego está a depender da economia e da educação, de que falarei mais a frente, bem como do incentivo e outros benefícios para os jovens trabalharem na agricultura e na indústria extractiva de modo estrutural e formal).

3 – Habitação (é urgente organizar e harmonizar as nossas cidades ao mesmo tempo que precisamos de continuar a prestar atenção à massificação da construção de casas, apartamentos e outras tipologias para a classe média baixa prestando sempre atenção aos nossos indicadores demográficos que se mostram insuportáveis).

4 – Formalização do comércio/negócio informal (apoio institucional e financiamento)

Ao falar da Independência, sob várias perspectivas, muito poderia ser dito e dar mesmo lugar a um manifesto, uma vez que me questiono sobre a independência de Angola e a realidade actual, com os seus desafios económicos e sociais pós-independência: reflectir sobre os progressos feitos desde 1975, mas também sobre as dificuldades que o país ainda enfrentou ou enfrenta, como a guerra civil, a corrupção generalizada, as desigualdades sociais e a forte de necessidade de acelerarmos a diversificação económica, além de coragem para implementar reformas políticas (falo das autarquias, por exemplo) e económicas urgentes (como o fim dos subsídios aos combustíveis, com os seus impactos orçamentais e sociais escondidos ao povo ou beneficiando os que dele menos precisam e distorcendo a economia).

É mesmo, para mim, curioso perceber como as jovens gerações, nós os nascidos depois da Independência, mas principalmente os nascidos depois de 2002, vêem o país e o legado da luta pela liberdade?

É também curioso perceber o quanto de simbolismo e significado conseguimos dar ao⁠ 11 de Novembro. Falo nisso comparando ao que se vê no 4 de Julho dos Estados Unidos da América, no 14 de Julho da França ou ainda no 10 de Junho de Portugal. São datas que merecem orgulho, criam o ideal nacional.

Podemos nós, cerca de meio século depois admitir uma Independência em termos culturais? Ou dito doutro modo, o quanto nós nos assumimos como africanos? O quanto nós valorizamos a nossa identidade africana?

Mas não, e isso não é nenhum insulto somos completamente europeizados e continuamos sob esse ponto de vista nas amarras dum certo neo-colonialismo e falta alcançar a Independência também aqui.

Nada disso valerá se não percebermos o quanto é urgente fazermos um choque geral sobre a Educação. Sim, investirmos de forma massiva e gerarmos uma nova abordagem sobre a educação.

De nada nos valem estradas, corredores, aeroportos, poços, minas, hospitais, centros comerciais, fundos e mais fundos, se não tivermos uma população educada, emancipada e consciente do que é o seu papel.

Precisamos de perceber que a Independência só valerá a pena se as meninas poderem ir a escola e não sofrerem limitações por conta da distância, da mentalidade dos pais que as deixam estar em casa à espera dum homem que as salve com uns tantos filhos; mas a Independência só poderá ser alcançada quando aqueles que vão a escola poderem sair de lá verdadeiramente educados, formados, capacitados.

A Independência só valerá se a escola for o centro da nossa vida familiar, social e nacional. A Independência só valerá se formos capazes de dar um ensino de qualidade, com os melhores professores e isso não seria dificil olhando para o manancial de gente ociosa, desde reformados aos montes de consultores, as forças armadas, os novos licenciados para além duns tantos voluntários que possam dotar os petizes de conteúdos e referências de vida.

Quem pela escola passou jamais se esquece dos seus professores. Isso sim é a independência.

*Jornalista

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