
Há 35 anos, no dia 9 de Novembro de 1989, caiu o muro que dividia a Alemanha em duas. Após meses de revolução pacífica na então República Democrática Alemã, a fronteira entre a Alemanha Oriental e a Alemanha Ocidental foi aberta em 9 de Novembro de 1989.
As pessoas da Alemanha de Leste, que na sua maioria não estavam autorizadas a viajar para a Alemanha Ocidental, para a Europa Ocidental ou para a América, passaram a poder viajar livremente. Cerca de 11 meses mais tarde, a 3 de Outubro de 1990, a Alemanha foi reunificada.
Muitos angolanos vieram para a Alemanha de Leste para estudar ou como trabalhadores contratados. Também viveram a queda do Muro. Partilharam a esperança e a alegria de uma Alemanha unida, mas também viveram as convulsões e as dificuldades que a reunificação trouxe consigo.
A reunificação provocou perturbações na Alemanha de Leste. A economia planificada teve de ser reestruturada, muitas pessoas perderam os seus empregos e tiveram de se reorientar profissionalmente.
Ao mesmo tempo, investiu-se muito em infraestruturas no Leste, foram construídas novas linhas de caminho de ferro e estradas para equilibrar as desigualdades entre o Leste e o Oeste.
Muitos angolanos também já viviam na Alemanha Ocidental antes da queda do Muro. Eles presenciaram como esta parte da Alemanha também mudou. Por exemplo, a capital foi transferida de Bona, no Ocidente, para Berlim, a cidade dividida no Leste. Na nova República Federal unificada, juntaram-se de repente alemães que estavam familiarizados com dois sistemas políticos, económicos e sociais diferentes.
Os alemães ocidentais e orientais tiveram de aprender a ver-se novamente como um só alemão. O hino nacional angolano diz “um só povo, uma só nação”.
Desde a reunificação, este foi e continua a ser o nosso grande desafio na Alemanha: criar uma nação a partir de um país cujo povo esteve dividido por um muro e uma vedação fronteiriça até há 35 anos. É claro que, para além dos alemães do leste, oeste, sul e norte, a Alemanha também inclui aqueles que foram para a Alemanha, apoiar o país, trabalhar lá e a constituírem família. Incluindo os angolanos.
Actualmente, o Leste e o Oeste já não representam modos de vida opostos, mas sim uma grande diversidade. Apesar de todas as diferenças políticas, sociais e regionais, a Alemanha é um país unido na liberdade.
A sua localização no centro da Europa desempenha um papel importante neste país unido. A cooperação com os nossos países vizinhos no âmbito da União Europeia não só faz parte da Constituição alemã, como também está firmemente enraizada na consciência das pessoas.
Como maior financiador da UE, a Alemanha está, assim, envolvida em actividades da “Equipa Europa” em todo o mundo – e também em Angola, onde consta a UE, a Alemanha está sempre incluída. Isto aplica-se a um grande número de projectos em áreas como formação profissional, agricultura, luta contra o branqueamento de capitais, e infraestrutura, para os quais a UE forneceu e continua a fornecer financiamento total de 275 milhões de euros.
Em termos de investimentos totais, foram investidos em Angola 21,7 mil milhões de euros provenientes da Europa no ano passado. Isto significa que a UE e os seus Estados-Membros são, de longe, o maior doador de Angola.
A cooperação multilateral é extremamente importante tanto para a Alemanha como para Angola. É evidente que cada um de nós tem experiências históricas diferentes, mas, com base nelas, estamos conjuntamente empenhados no multilateralismo e na reforma do sistema das Nações Unidas.
É importante para a Alemanha trabalhar em conjunto com parceiros africanos – a qualidade e o sucesso desta abordagem conjunta foi demonstrada em Setembro de 2024 com a Cimeira do Futuro em Nova Iorque, que preparámos em conjunto com a Namíbia.
Como terceira maior potência económica do mundo, a Alemanha quer assumir mais responsabilidades no âmbito da ONU, por exemplo com a nossa candidatura a um assento permanente no Conselho de Segurança, e precisa de parceiros fortes como Angola, com o seu papel muito empenhado de mediador nos conflitos africanos.
Estamos também em constante comunicação sobre questões importantes como os direitos humanos e a protecção das mulheres e das crianças.
As relações bilaterais entre a Alemanha e Angola também são muito boas, sobretudo no domínio económico. No âmbito de uma parceria energética em vigor desde 2011, a Alemanha apoia Angola, em particular, no desenvolvimento de energias renováveis através de grandes projectos de centrais hidroeléctricas e de centrais solares.
O objectivo é tanto de promover a indústria nacional e permitir a exportação para os países vizinhos, bem como assegurar o abastecimento de electricidade a uma parte cada vez maior da população, incluindo nas províncias.
Um projecto específico de energias renováveis é o desenvolvimento da produção de hidrogénio verde em Angola. Para este fim foi criado o Gabinete Alemão-Angolano de Hidrogénio em 2022.
Actualmente, está a ser implementado um projecto-piloto conjunto entre a Sonangol e as empresas alemãs Gauff e Conjunta para produzir até 400.000 toneladas de amoníaco verde por ano. Isto poderá fazer de Angola um pioneiro na produção de hidrogénio ecológico, e não apenas em África.
Numerosas empresas alemãs – grandes empresas como a Siemens, a DHL, a Hapag Lloyd e a Lufthansa, mas também empresas familiares como a Bosch, a C.Woermann e a Voith – estão activas em Angola nos domínios das infraestruturas energéticas, dos transportes e da logística, no sector da saúde, com a construção de hospitais e centros de diálise, e na engenharia mecânica e de instalações, por exemplo, para equipar minas e instalações portuárias.
Angola tem um enorme potencial económico, e não apenas no sector da energia. O Corredor do Lobito, que a União Europeia e a Alemanha estão a ajudar a expandir, é um projecto fundamental para o desenvolvimento do crescimento económico em toda a região da África Austral.
O Governo alemão também promove o intercâmbio pessoal entre Angola e a Alemanha. Os programas de bolsas de estudo e as parcerias com universidades também permitiram que, nos últimos anos, estudantes angolanos recebessem uma bolsa para estudar na Alemanha. Mantemos contactos regulares com alguns deles.
Há 15 anos que temos um centro cultural e de língua alemã em Luanda: o Goethe Institut Angola. Através de cursos de línguas, intercâmbios culturais, concertos, festivais e exposições na Alemanha e em Angola, construímos pontes para as pessoas dos nossos dois países.
Este ano, por exemplo, arquitectos, jornalistas, diplomatas e dançarinos angolanos estiveram na Alemanha para residências, workshops e exposições – e vice-versa, recebemos músicos, escritores e jornalistas alemães em Angola. Os intercâmbios têm sempre como objectivo aprender uns com os outros – e isso só é possível se nos conhecermos mutuamente.
Alemanha e Angola: isto é parceria nos negócios, na política e na cultura mas também numerosas amizades que surgem como resultado disso. A queda do Muro, há 35 anos, foi um marco de grande importância para esta parceria alemã-angolana.
*Embaixador da Alemanha em Angola