Crónica de um progresso adiado nas terras do Cubango – Vulika
Crónica de um progresso adiado nas terras do Cubango – Vulika
GPCubango

Nas terras vastas do Cubango, o tempo parece correr a um ritmo diferente. Não é o ritmo do relógio ou das estações, mas o ritmo da espera. É uma cadência marcada pelo eco de promessas que se perdem no vento e pela poeira das obras que nunca terminam, uma sinfonia de um futuro que teima em não chegar.

A melodia da desilusão toca mais alto nas margens do rio Talama, no município do Chinguanja. Ali, a promessa do governador de erguer uma ponte metálica soou como um hino de esperança. Seria a ligação, o progresso, o fim do isolamento.

Hoje, no lugar do metal e da engenharia, há apenas o vazio. A promessa, como tantas outras, tornou-se uma miragem sobre as águas do rio, e a população continua a olhar para a outra margem como quem olha para um sonho distante.

O cenário repete-se em Cuchi. O hospital municipal, que deveria ser um santuário de cura e alívio, é hoje um esqueleto de betão, um monumento à inércia. As obras, paradas no tempo, não têm data de conclusão à vista.

Para o povo, a saúde não é um direito garantido, mas uma outra promessa em lista de espera, enquanto a doença e a necessidade não se compadecem com os atrasos burocráticos.

E o que dizer do diálogo? No recente “Jango dos Camaradas”, esperava-se que as palavras construíssem pontes, tal como a que falta no Talama. Em vez disso, o que se ouviu foi o som estridente das ofensas e o eco vazio de mais promessas. Um diálogo de surdos, onde a verdadeira necessidade da população ficou esquecida debaixo da troca de acusações.

A política, que devia servir, parece apenas dividir. Prova disso é a relação tensa de José Martins, que anda de costas viradas com as autoridades tradicionais do Cuchi, Cutato e Chinguanja, fraturando a liderança onde a união era mais precisa.

A educação, pilar de qualquer sociedade, também padece. Enquanto mães e encarregados de educação se desdobram para “levantar e comprar” comidas para as maratonas e eventos, um esforço louvável da comunidade, as obras das escolas nos bairros Saúde, Pandera, Tomás, entre outros, continuam inacabadas.

É um paradoxo doloroso: investe-se em eventos pontuais, mas a infraestrutura fundamental para o futuro das crianças permanece em ruínas.

A mobilidade, outro setor crucial, está igualmente estagnada. Compram-se pneus para uma frota de automóveis que parece inexistente ou inoperante, enquanto as estradas intermunicipais e as ruas não só da cidade de Menongue, mas de toda a periferia, nunca conheceram o alcatrão.

A poeira, a lama e os buracos são o “tapete asfáltico” diário, dificultando o escoamento de produtos, o acesso a serviços e a própria dignidade de quem vive nestas zonas.

Começa-se com obras que nunca se concluem, deixando um rasto de canteiros abandonados e esperanças frustradas.

Com este panorama, que marca deixará o governador José Martins depois de terminar o seu mandato, ou quando for exonerado?

A questão paira no ar como a poeira das estradas não asfaltadas. Será a marca das promessas quebradas, das obras inacabadas, ou da província que poderia ter sido e não foi?

Neste Cubango de contradições, fala-se abertamente de nepotismo e abuso de poder que, alegadamente, fazem morada nestas paragens. Sussurra-se sobre peculato e outros crimes conexos, erodindo a confiança e a esperança num futuro de governação transparente e justa.

O que têm outros governadores que fazem brilhar as suas províncias, que o Cubango não tem? Será liderança, visão, ou simplesmente a capacidade de concretizar?

Talvez seja tempo de pedir conselhos aos que sabem como as coisas andam, aos que conseguem transformar promessas em realidade. Ou será que o Cubango já se tornou uma carta fora do baralho, condenado a uma espera eterna?

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