Resposta necessária às declarações de André Ventura – Arsénio Bumba
Resposta necessária às declarações de André Ventura - Arsénio Bumba
Arsénio Bumba

A celebração dos 50 anos da Independência Nacional de Angola voltou a recordar, como é natural e legítimo, a longa e dolorosa história de subjugação que o povo angolano viveu sob o colonialismo português.

No seu discurso de 11 de Novembro, o Presidente da República, João Lourenço, exerceu plenamente o seu direito — e o seu dever — de reafirmar a verdade histórica que molda a identidade nacional, lembrando as consequências profundas da dominação colonial que privou gerações de angolanos de autonomia, liberdade e soberania.

As palavras do Chefe de Estado não constituíram um ataque a Portugal, mas sim um apelo maduro à memória colectiva e ao respeito mútuo, fundamentos indispensáveis para relações bilaterais de futuro, assentes na transparência e no reconhecimento dos factos.

Por isso, causou surpresa — e justa indignação — a reação precipitada, politicamente calculada e profundamente desrespeitosa do político português André Ventura.

Ao instrumentalizar o discurso do Presidente João Lourenço para fins de disputa eleitoral interna, Ventura não apenas distorceu o conteúdo da mensagem, como recorreu a ataques gratuitos contra o MPLA e o Governo Angolano.

A tentativa de transformar uma reflexão histórica legítima em arma de retórica populista revela uma profunda irresponsabilidade política e um claro desinteresse pela estabilidade das relações entre os dois países.

A verdade precisa de ser reafirmada: não compete a nenhum político português — sobretudo aqueles movidos pela necessidade de ganhar protagonismo — ditar como Angola se deve lembrar do seu passado ou construir o seu presente.

As declarações de Ventura foram dirigidas não apenas a um Presidente eleito, mas ao próprio Estado angolano e à dignidade do povo angolano. Importa esclarecer que o discurso do Presidente João Lourenço não alterou em nada o excelente momento das relações diplomáticas, económicas e culturais entre Angola e Portugal, que têm sido fortalecidas por ambas as nações com maturidade institucional e visão estratégica.

O que André Ventura disse não representa Portugal, não representa o seu governo, não representa o seu povo — representa apenas um projecto político radical que alimenta divisões e procura lucros eleitorais através da provocação.

A história do colonialismo não pode ser apagada, reescrita ou silenciada para agradar sensibilidades políticas momentâneas em Lisboa.

Angola tem o direito soberano de narrar a sua história tal como a viveu: uma história marcada por trabalho forçado, discriminação racial, destruição de comunidades, expropriação económica e negação sistemática de humanidade a milhões de angolanos.

Qualquer tentativa de deslegitimar essa narrativa é, no mínimo, uma afronta à memória dos que resistiram e dos que tombaram pela liberdade conquistada em 1975. É também um insulto à diplomacia entre nações que desejam construir um futuro baseado no respeito mútuo e não em paternalismos do passado.

Se Angola hoje fala com Portugal em pé de igualdade, é porque percorreu um longo caminho de construção de um Estado soberano, de desenvolvimento institucional e de pacificação nacional.

O Governo Angolano, liderado pelo Presidente João Lourenço, tem demonstrado compromisso com reformas económicas profundas, combate à corrupção, modernização da administração pública e reposicionamento internacional do país.

O Estado angolano, através do Governo, tem o dever histórico de preservar a soberania conquistada e defender Angola contra qualquer tentativa de desvalorização da sua história. E é isso que está aqui em causa: o respeito.

A reação de Ventura não fere apenas o Governo Angolano; fere a dignidade de todos os angolanos que reconhecem o peso do seu passado e os desafios do seu presente.

Felizmente, Portugal oficial — o Portugal institucional, democrático, moderado e responsável — tem sabido construir com Angola uma relação de cooperação sólida, madura e orientada para o futuro.

E é justamente por isso que posições extremistas e isoladas devem ser enquadradas no seu devido lugar: ruído político que não altera a trajetória estratégica entre os dois países.

Angola continuará a defender a verdade sobre a sua história e a exigir respeito pela sua soberania. Não permitirá que discursos populistas, vindos de quem desconhece ou distorce os factos, tentem manchar a relação fraterna entre dois povos unidos por laços profundos, complexos e inquebráveis.

O Presidente João Lourenço fez o que se espera de um Chefe de Estado responsável: honrou a memória nacional e reforçou a consciência histórica de um povo que continua a construir o seu destino com firmeza, dignidade e visão.

A Angola de hoje é adulta, soberana e plenamente consciente do seu valor. Não se deixará intimidar por ataques oportunistas. Continuaremos a caminhar com Portugal e com o mundo, mas sempre com a cabeça erguida, defendendo a nossa história e o nosso futuro.

A crítica irresponsável de André Ventura já está a ser julgada pela opinião pública lúcida de ambos os países — e o veredito é claro: quem tenta dividir nunca estará à altura de quem trabalha para unir.

*Economista

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