Pontes, feriados e tolerância de ponto: quanto custa ao país um dia parado? – Tyilenga Tyokuehandja
Pontes, feriados e tolerância de ponto: quanto custa ao país um dia parado? - Tyilenga Tyokuehandja
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Em Angola, a discussão sobre feriados prolongados, pontes e tolerância de ponto costuma ser tratada como um assunto meramente administrativo ou social. Decide-se fechar serviços, concede-se tolerância, e a vida segue.

No entanto, por detrás dessa aparente normalidade, esconde-se uma questão muito mais profunda: cada dia útil parado tem um custo económico real para o país — um custo que todos acabam por pagar, direta ou indiretamente.

O tempo também é economia

Numa economia moderna, o tempo de trabalho é um ativo económico escasso. Cada dia útil representa produção, circulação de bens, prestação de serviços, arrecadação fiscal e funcionamento do Estado.

Quando esse dia é interrompido por uma ponte associada a tolerância de ponto, não se perde apenas “um dia de trabalho”: perde-se valor económico.

Estima-se que a economia angolana gere, em média, centenas de milhões de dólares por dia. É evidente que nem toda a economia pára quando há tolerância de ponto — setores como petróleo, energia, saúde e segurança continuam a funcionar.

Ainda assim, uma parte significativa da economia formal urbana, especialmente a ligada à administração pública, banca, comércio, transportes e serviços, sofre uma paralisação direta ou indireta.

Perda que não se recupera totalmente

Muitas vezes argumenta-se que “o trabalho será recuperado depois”. A experiência económica mostra que isso raramente acontece por completo.

Parte da produção pode ser compensada com horas extra ou reprogramação, mas outra parte perde-se definitivamente: negócios adiados que não se concretizam, processos administrativos que se acumulam, mercadorias que chegam tarde, investimentos que aguardam assinaturas e licenças.

Cálculos prudentes indicam que um único dia de ponte pode custar ao país entre 50 e 170 milhões de dólares, dependendo do grau de paralisação e da capacidade de recuperação posterior.

Quando esses dias se repetem ao longo do ano, o impacto acumulado pode atingir centenas de milhões ou mesmo ultrapassar mil milhões de dólares.

O custo invisível para o cidadão

Estas perdas não são abstratas. Elas refletem-se:
em menos receitas fiscais, que poderiam financiar escolas, hospitais e estradas;
em atrasos nos pagamentos do Estado a empresas e trabalhadores;
em ineficiência administrativa, que encarece serviços e desincentiva o investimento;
e numa menor confiança dos agentes económicos no funcionamento regular das instituições.

Em termos simples: quando o Estado e a economia param sem critério, o cidadão paga a fatura, seja através de menos serviços públicos, mais impostos no futuro ou menos oportunidades de emprego.

Decisão económica, não apenas administrativa

Isto não significa que os feriados ou a tolerância de ponto devam ser abolidos. O descanso, a coesão social e determinadas circunstâncias excecionais são legítimos.

O problema surge quando essas decisões são tomadas sem avaliação económica, sem previsibilidade e sem mecanismos de mitigação.

A tolerância de ponto deve ser encarada como uma decisão económica e orçamental, e não apenas administrativa. Tal como qualquer outra política pública, deve obedecer a critérios claros, ser anunciada com antecedência, preservar serviços críticos e, sempre que possível, evitar a paralisação total e simultânea da economia.

Uma escolha de país

Num momento em que Angola procura diversificar a economia, aumentar a produtividade e usar melhor os recursos públicos, a forma como se gere o tempo económico torna-se crucial.

Um dia de ponte pode parecer pouco, mas, somado ao longo do ano, representa escolas que não se constroem, centros de saúde que não se equipam e investimentos que não avançam.

No fundo, a pergunta que se impõe é simples: podemos continuar a tratar dias úteis como se fossem gratuitos, quando o seu custo é pago por todos nós?

*Economista

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