Aldina da Lomba: uma bandida santa – Pinheiro Chagas
Aldina da Lomba: uma bandida santa - Pinheiro Chagas
Alomba

Em Angola, a política tem produzido fenómenos curiosos. Um deles é a facilidade com que certas figuras públicas, depois de passarem por cargos de poder marcados por controvérsias, reaparecem no espaço público revestidas de autoridade moral, muitas vezes através do discurso religioso.

O mais recente exemplo é o de Aldina Matilde da Lomba Catembo, antiga governadora da província de Cabinda entre 2013 e 2017, que actualmente surge como representante da área feminina da Liga Ecuménica de Igrejas de Angola (LEIA).

Nesta qualidade, apelou às mulheres para participarem de forma massiva num culto ecuménico organizado pelo Conselho de Igrejas Cristãs em Angola, em parceria com o Ministério da Acção Social, Família e Promoção da Mulher, no âmbito do Dia Internacional da Mulher.

O discurso apresentado é, à primeira vista, irrepreensível. Fala-se da luta histórica das mulheres por melhores condições de trabalho, da necessidade de combater a discriminação de género, de promover a paz, proteger a família e moralizar a sociedade. São bandeiras legítimas e causas que merecem ser defendidas.

Mas quando certas mensagens são transmitidas por determinadas figuras públicas, a memória colectiva tem o direito – e até o dever – de fazer perguntas.

A carreira de Aldina da Lomba foi construída no aparelho político do Estado. Licenciada em Relações Económicas Internacionais, passou pela Organização da Mulher Angolana (OMA), onde foi secretária provincial durante mais de uma década, dirigiu estruturas no Ministério da Assistência e Reinserção Social e acabou por assumir a governação de Cabinda.

Foi nesse período que a sua gestão passou a ser alvo de fortes críticas e denúncias. Diversos sectores da sociedade civil apontaram problemas de má gestão, práticas de nepotismo e suspeitas de utilização indevida de recursos públicos.

Contudo, como tantas outras histórias na política angolana, as acusações nunca chegaram a produzir consequências judiciais.

E é precisamente aqui que reside o problema estrutural do país: a falta de responsabilização.

Em Angola, a justiça raramente acompanha o volume das denúncias públicas. Muitos processos desaparecem antes de nascer, outros perdem-se no silêncio burocrático e, no fim, os protagonistas reaparecem em novas funções, muitas vezes como se nada tivesse acontecido.

Quando isto se repete, a mensagem que chega à sociedade é devastadora e clara: não importa o que se fez no exercício do poder, porque dificilmente haverá consequências.

Neste contexto, a migração de antigos dirigentes para espaços religiosos ou moralizadores levanta inevitáveis questões. Não porque a fé deva ser questionada – a espiritualidade é um direito íntimo de cada cidadão -, mas porque o uso da linguagem religiosa pode facilmente transformar-se num escudo simbólico para proteger reputações políticas fragilizadas.

Invocar Deus, falar de moralidade ou promover cultos ecuménicos não apaga o passado político de ninguém. Tampouco substitui aquilo que deveria ser o verdadeiro mecanismo de limpeza da vida pública: a responsabilização institucional.

A luta pelos direitos das mulheres, a defesa da família ou o combate à violência doméstica são causas demasiado sérias para serem instrumentalizadas por discursos que ignoram a necessidade de coerência entre palavra e trajectória.

Angola precisa, mais do que nunca, de lideranças morais credíveis. E essa credibilidade não se constrói com discursos piedosos, mas com integridade demonstrada ao longo da vida pública.

No final, a questão não é religiosa nem política. É uma questão de coerência. Porque uma sociedade que perde a capacidade de distinguir entre discurso moral e responsabilidade real corre o risco de transformar a ética pública numa simples encenação.

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