
Desde aqueles protestos operários nas fábricas têxteis de Nova Iorque, passando pela conferência internacional de mulheres na Dinamarca impulsionada por Clara Zetkin, até às greves das mulheres na Rússia sob o lema “Pão e Paz”, marco fundamental para que hoje as mulheres de todo o mundo celebrem o 8 de março como um dia para refletir, manifestar-se e avançar nos direitos das mulheres, ocorreram inúmeras transformações.
A nível mundial, hoje é inquestionável que as mulheres exercem o direito ao sufrágio, ou seja, ao voto em igualdade de condições com os homens. No entanto, as mulheres em todo o mundo ainda não exercem os restantes direitos em igualdade real.
No Ocidente, a luta feminista assumiu muitas vezes uma forma hegemónica, defendendo direitos e deveres para as mulheres a partir da ideia de que as preocupações das mulheres ocidentais são as mesmas que as das suas congéneres do Sul Global. Mas isso não corresponde à realidade.
Todas estamos a lutar pela igualdade entre mulheres e homens: combatendo o sexismo, a misoginia, o machismo recalcitrante, a discriminação, o assédio sexual e laboral, a quebra do teto de vidro e muitas outras barreiras a nível global.
Contudo, as mulheres do Sul Global, além de enfrentarem esses desafios, também lutam para serem reconhecidas como iguais pelas suas irmãs ocidentais. Lutam contra o racismo, o classismo, a xenofobia e pelo acesso equitativo aos recursos económicos, sociais e laborais.
Em muitas sociedades africanas, a luta feminista está centrada na abolição de práticas como a mutilação genital feminina, o achatamento dos seios, as práticas de engorda, os casamentos forçados, a poligamia imposta e na garantia do acesso à educação e à saúde sexual e reprodutiva.
No caso de Angola, a situação exige uma análise profunda, consciente, política e global. A mulher rompeu o teto de vidro em muitos setores. Temos uma vice-presidente, várias ministras, governadoras, administradoras e executivas em empresas importantes, mas, ao nível social e no âmbito doméstico, a igualdade entre homens e mulheres é praticamente inexistente.
Uma ministra muito conhecida do governo angolano falou orgulhosamente da obrigação que tem, enquanto mulher, de cozinhar para o marido. A questão é: terá o marido também a obrigação de cozinhar para ela, ou não o poderia fazer por ser homem?
Ou seja, muitas mulheres em Angola alcançaram posições relevantes a nível político e económico, mas, a nível social e doméstico, continuam a ser elas que carregam com as tarefas de cuidado do lar e da infância, além de sofrerem estigmatização por não terem marido, filhos ou por não serem consideradas “boas esposas”.
Em Angola, os movimentos feministas maioritários encontram-se politizados e, por isso, não exercem a força que deveriam na luta pelos direitos das mulheres. Ainda não se compreende, no governo, que a luta feminista é uma questão de Estado, é política e é política pública.
Quando isso for entendido, serão severamente punidos os polícias ou qualquer cargo público que viole uma mulher, que maltrate uma mulher ou uma menina, e casos como as violações de meninas em Benguela por cidadãos estrangeiros não passarão impunes.
O feminicídio é silenciado. As agressões contra as mulheres, os sequestros e a prostituição estão à vista, mas não são devidamente combatidos.
Países como a Namibia estão a apostar seriamente em políticas de igualdade, sobretudo através da educação. Na Namíbia, o novo governo, de orientação marcadamente feminista, está a investir numa educação universal, gratuita e de qualidade. Só através da educação da população se constroem sociedades mais igualitárias e justas.
Em Angola, no que diz respeito à igualdade, ainda há muito por fazer. As mulheres são hipersexualizadas em diversos meios de comunicação e na publicidade; a figura feminina é frequentemente comercializada, desvalorizada e tratada como objeto sexual.
A luta contra a fuga à paternidade não tem produzido efeitos, porque a população continua sem acesso a uma educação adequada.
Se as crianças não estudam, não recebem educação sexual e reprodutiva e, portanto, não conhecem o próprio corpo; quando ocorre uma gravidez, muitos jovens entram em pânico e fogem da responsabilidade, criando um ciclo de adolescentes sem estudos a criar menores que, mais tarde, tenderão a repetir o mesmo padrão. Assim se reproduzem desigualdades estruturais na sociedade.
É, portanto, fundamental apostar na educação, priorizar uma educação de qualidade e universal, para alcançar uma igualdade plena entre homens e mulheres.