Quando a maturidade política é posta à prova – Kumuenho da Rosa
Quando a maturidade política é posta à prova - Kumuenho da Rosa
JL serio

O cenário político anda algo agitado. O partido MPLA, a maior organização política angolana em número de militantes e implantação territorial, está em praticamente todos os noticiários e plataformas de comunicação, incluindo redes sociais, tudo por causa da decisão do seu líder de se recandidatar à própria sucessão.

Já me pronunciei sobre essa questão, mas reitero aqui que não lhe falta nem legitimidade estatutária, tampouco motivações políticas atendíveis para fazê-lo.

Levantam-se outras questões, quanto a mim, objectivamente insustentáveis e consequentemente fadadas ao fracasso, porque baseadas num subjectivismo oportunista que pessoalmente desaconselho a quem pretende ser no mínimo levado a sério.

A realidade dos factos leva-nos a considerar absolutamente periféricos todos os argumentos evocados por aqueles que procuram, mais com o coração do que com a razão, ver problema onde de facto não existe. Pior é que ao atirarem pedras para o telhado do vizinho ignoram do que é feito o telhado das suas próprias casas.

As pessoas gritam e esperneiam, numa tentativa desesperada de atrapalhar quem pretende perceber o cenário com a calma e serenidade que se exige em tempos de turbulência.

E gritam cada vez mais alto, porque se apercebem que foram elas próprias que falharam ao fecharem-se aos conselhos vindos de pessoas que apenas queriam ajudar, mas que foram tomadas por menos inteligentes ou até cobardes.

Saber ouvir é também uma virtude. E quando falamos mais do que ouvimos, quando nos julgamos donos da razão e do saber absoluto, então mais facilmente tomamos decisões precipitadas, imprudentes e desavisadas, que nos colocam fora do jogo.

Só depois de estatelados no chão damo-nos conta da sucessão de erros cometidos. Então chega a lucidez que nos diz que mais vale influenciar, estando dentro, conversando e até mesmo criticando, do que ficar de fora a atirar pedras.

Os militantes do MPLA ouviram com atenção a comunicação feita por João de Almeida Martins, mandatário de lista do candidato João Lourenço, que actuou mais como um porta-voz do próprio partido, do que como representante de um candidato.

Na verdade, o que está em causa é a estratégia global do MPLA, assente no seu propósito existencial que é a conquista e manutenção do poder, e não interesses pessoais de quem quer que seja.

Até porque a história já demonstrou pela própria idiossincrasia partidária e com factos de memória recente, que as agendas e interesses pessoais, normalmente falham, por mais poderosos e iluminados, influentes ou bem encostados que nos sintamos, em determinado momento.

Agora olhemos para a presença do MPLA nos noticiários. Há de facto o lado bom da história. Se atendermos à teoria do agenda-setting, que nos diz que os meios de comunicação possuem a capacidade de influenciar o público sobre aquilo que pensa e debate, então o partido político que consegue ocupar espaço mediático frequente tende a reforçar a percepção da sua importância e do seu peso no cenário político.

Mas tem o outro lado da moeda, e aqui, muito há por se dizer (e criticar, porque não?), pelo efeito nocivo para o próprio partido.

Refiro-me ao sentido (único) da abordagem, a ausência de contraditório ou de vozes dissonantes, pautas jornalísticas absolutamente questionáveis, ou seja, tudo o que em condições normais motivaria a tomada de decisões, mobilização de sinergias e o repensar das estratégias do sector, em vez de tentar justificar ou contestar a queda invertida da 100.ª para 109.ª posição no ranking mundial da liberdade de imprensa.

Sendo certo que a dimensão e a relevância de um partido político não se medem apenas pelo número dos seus militantes, pela implantação territorial ou pela representação institucional que possui, mas também pela capacidade de produzir impacto mediático e influenciar a percepção pública.

Estar, como se diz, na boca do povo, é óptimo quando pelos melhores motivos. Mas, claro está, ninguém em sã consciência quer estar por estar na boca do povo. E pessoalmente não acredito que uma organização política idónea e com reconhecida maturidade política não esteja já a reflectir sobre isso.

São dois lados da mesma moeda. Sinais que não podem ser simplesmente ignorados. A exposição mediática pode fortalecer uma organização política, mas pode igualmente fragilizá-la, dependendo da forma como as suas acções são percebidas pela opinião pública.

A mediatização excessiva de conflitos internos, discursos contraditórios, actos de intolerância ou crises de liderança pode produzir efeitos negativos sobre a imagem institucional, comprometendo a confiança colectiva e a credibilidade do partido.

A teoria do enquadramento (framing), desenvolvida por autores como Erving Goffman, ajuda a compreender este fenómeno. A forma como um acontecimento é apresentado pelos meios de comunicação influencia directamente a interpretação do público.

Assim, uma acção política pode ser percebida como demonstração de força, organização e liderança, ou, pelo contrário, como sinal de divisão, arrogância ou instabilidade, dependendo do enquadramento mediático construído em torno dela.

Na prática, partidos políticos que vivem permanentemente em ambiente de confrontação interna acabam, muitas vezes, por transformar os media em palco das suas próprias fragilidades.

O impacto mediático deixa então de traduzir vitalidade política e passa a simbolizar crise, desgaste e perda de coesão. A visibilidade, por si só, não constitui necessariamente um indicador positivo; o essencial reside na qualidade da percepção colectiva gerada por essa exposição.

Por outro lado, quando uma organização política consegue utilizar os meios de comunicação para transmitir mensagens de unidade, inclusão, visão estratégica e compromisso com as causas sociais, o impacto mediático converte-se em capital simbólico e reforça a sua legitimidade perante a sociedade.

É nesse equilíbrio, entre presença mediática e responsabilidade comunicacional, que reside a verdadeira maturidade política.

*Jornalista

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