
O futuro dos jovens militares angolanos começa a desenhar-se com uma sombra inquietante: um caminho que não difere do dos seus veteranos — o caminho do abandono. A história repete-se, como se o país estivesse condenado a reencontrar sempre os mesmos erros, apenas com novos rostos a sofrer as mesmas consequências.
Hoje, muitos jovens oficiais, formados em ciências militares nas academias nacionais e internacionais, enfrentam um dos maiores paradoxos das suas carreiras: quanto mais o Estado investe na sua formação, mais cedo sentem o peso do abandono institucional.
É uma ironia amarga, quase trágica, que lembra a advertência de Hannah Arendt quando escreveu que “a burocracia é a forma de governo onde ninguém é responsável”. E, de facto, ninguém parece responsável pelo destino destes jovens.
O abandono não surge no fim da carreira — começa antes mesmo de entrarem nas instituições académicas. Não existe um plano diretivo, um mapa estratégico, uma visão clara para o futuro destes quadros.
As formações parecem, muitas vezes, servir mais para justificar desvios de fundos do que para fortalecer a defesa nacional. Como diria Zygmunt Bauman, “as instituições modernas aprenderam a sobreviver esvaziando-se de propósito”. E as Forças Armadas Angolanas parecem ter aprendido essa lição demasiado bem.
É incompreensível — e profundamente revoltante — que jovens militares, regressados de academias de renome, sejam completamente desaproveitados. Estamos a falar de quadros frescos, motivados, preparados para beber da experiência dos mais antigos, mas que encontram portas fechadas, gabinetes indiferentes e uma hierarquia que já não sabe o que fazer com eles.
Frantz Fanon alertava que “cada geração deve descobrir a sua missão, cumpri-la ou traí-la”. Mas como pode esta geração cumprir a sua missão se o próprio Estado a trai antes de começar?
Se não existe vontade real de modernizar as Forças Armadas, por que razão se enviam jovens para formações no exterior? Como justificar gastos exorbitantes com cursos, estágios, seminários e especializações, quando não existe sequer um plano mínimo para integrar esses conhecimentos no sistema militar?
A resposta, embora nunca dita em voz alta, paira no ar como um segredo mal guardado: a formação tornou-se um mecanismo de aparência, não de transformação.
Frustração precoce e deserções silenciosas
Os jovens começam a frustrar-se cedo. Demasiado cedo. Muitos já abandonam as Forças Armadas, não por falta de patriotismo, mas por falta de horizonte. Outros permanecem, mas com o espírito quebrado, assistindo à incompetência que hoje se instala nos quartéis, nos comandos e nos gabinetes.
Paul Ricoeur escreveu que “a injustiça não mata apenas o corpo; mata o sentido”. E é precisamente o sentido da carreira militar que está a morrer para esta nova geração.
Se nada for feito, o destino destes jovens será o mesmo dos veteranos: anos de serviço, décadas de sacrifício, e no fim… o abandono. A história militar angolana está cheia de homens que deram tudo ao país e receberam quase nada em troca.
Agora, a juventude militar começa a perceber que o futuro que lhes prometeram não passa de uma miragem.
*Investigador em Segurança e Defesa