A deslocação do centro do poder global – Carlos Kandanda
A deslocação do centro do poder global - Carlos Kandanda
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Nos últimos tempos a China tem sido projetada como «poder central» do mundo. Sendo o mais equilibrado, estável, previsível, credível, crescente e aberta ao mundo. A sua economia é a mais robusta, moderna, inovadora e crescente, ocupando o segundo lugar no ranking das maiores economias do mundo.

Não deixa dúvidas nenhumas de que a China vai assumir a liderança do mundo nos próximos tempos, superando gradualmente os Estados Unidos da América, que se encontra em declínio.

A estabilidade política e econômica da China, assente na indústria e na tecnologia, lhe permitiu acelerar a industrialização, expandir o seu mercado interno, acumular o capital financeiro, investir em grande escala no mercado internacional, buscar matérias primas, construir infraestruturas e abrir-se à comunidade internacional.

Isso colocou-lhe no centro da diplomacia internacional. Neste âmbito, recentemente tem-se verificado uma intensa movimentação diplomática de estadistas do mundo a deslocarem-se a Pequim ao encontro do Presidente Xi Jinping. Buscando investimentos, intercâmbio comercial, parcerias estratégicas e cooperação bilateral e multilateral.

O fenômeno de grandeza e de crescimento econômico da China não surgiu por acaso. Foi um trabalho profundo e aturado que resultou de pesquisas, estudos, planificação e programação sistemática, com metas bem definidas e bem programadas, com prazos de execução fixados, controlados e fiscalizados permanentemente.

Nesta óptica, desde a década 50 a China começou a preparar-se, a organizar-se e a estruturar-se no sentido de assumir o poder global e a liderança do mundo. Isso foi feito de modo discreto e subtil, com uma estratégia global bem elaborada minuciosamente.

Na base da estratégia global e de longo alcance, acima referida, durante a guerra fria a China afastou-se deliberadamente da disputa geopolítica entre o Bloco Ocidental e o Bloco do Leste. No fim da guerra fria (1991) a China adoptou a política de abertura ao Ocidente.

Estabeleceu o programa ambicioso da liberalização da economia, da industrialização, da modernização e da inovação tecnológica. Criou os mecanismos de atração de investimentos ocidentais, sobretudo dos Estados Unidos da América. Estudou o mercado internacional, identificou os alvos geoestratégicos e definiu claramente a política de cooperação internacional.

No mercado interno, a China criou Zonas Econômicas Especiais (zonas francas) em localidades estratégicas, devidamente escolhidas, organizadas, estruturadas, apetrechadas e munidas de recursos humanos de alta qualidade técnico-professional para tirar o maior benefício dos investimentos, da tecnologia e do know-how.

Neste período de transição e de industrialização, a China investiu massivamente na cultura; na educação; na saúde; na agricultura; no desenvolvimento comunitário; na hotelaria e turismo; na formação técnico-profissional; nos centros de estudos e pesquisas; nas infraestruturas modernas e robustas; no sistema energético renovável e integrado; na tecnologia espacial; na inteligência artificial; na defesa, e na segurança.

A China adoptou o modelo da economia mista (híbrida): capitalista e socialista. O Estado procedeu a liberalização da economia, introduzindo a propriedade privada e a livre iniciativa – sob a tutela fiscalizadora do Estado. Aliás, a China abraçou a boa governação, a prestação de contas e o intercâmbio comercial equilibrado. O combate à corrupção e à fuga de capitais são crimes condenados com pena de morte. Os infratores são executados em público.

O combate contra a pobreza constitui o «alvo estratégico» da China, com programas bem definidos que determinam as metas, os prazos e os números das famílias que devem saírem da condição da pobreza para transitar à classe média. Isso, por si só, revela a dimensão e a amplitude da visão estratégica da China.

Noutras palavras, o secreto do desenvolvimento acelerado da China reside, em grande escala, nos seguintes factores fundamentais: no desenvolvimento industrial acelerado; na modernização da economia; na inovação tecnológica; no intercâmbio comercial em grande escala; no acesso aos recursos minerais estratégicos; na alta capacidade produtiva; na competitividade econômica; na diplomacia econômica eficiente e eficaz; e sobretudo, na política externa que assenta nos «cinco princípios da coexistência pacífica».

O contexto acima exposto, enquadrado na visão geopolítica mundial, permitiu a China transformar-se numa grande potência econômica, tecnológica e nuclear. A abertura ao mundo, assente nos cinco princípios da «coexistência pacífica», como fundamento da política externa chinesa, dinamizou a sua diplomacia; ganhou a credibilidade e a legitimidade política; e tornou-se o factor-chave de desenvolvimento e da estabilidade do mercado internacional.

Pois que, o mundo multipolar apoia-se no multilateralismo que respeita a soberania, a integridade territorial, a igualdade, o benefício mútuo, a autodeterminação e a não- interferência nos assuntos internos de outros Estados.

A política externa da China, que assenta nestes princípios do direito internacional, colocou-lhe em grande vantagem em relação aos EUA e à Rússia que se apoiam no militarismo, no unilateralismo e no mercantilismo. Só que a China não defende, nem assegura, o pluralismo e alternância do poder político.

Na prática, constata-se nitidamente o declínio dos EUA e da Rússia. Mesmo a Europa, que era a matriz da civilização ocidental e do capitalismo liberal, já está a desvincular-se lentamente do Imperialismo Norte-americano. A Rússia, por sua vez, está cada vez mais vinculada à China que sustenta a sua economia, que ficou estrangulada pelas sanções econômicas dos países europeus devida a invasão da Ucrânia.

No fundo, o mundo apercebeu-se do potencial da China que vai assumindo gradualmente a liderança da comunidade internacional. Razão pela qual regista-se o fluxo de delegações diplomáticas, de Chefes de Estados e de Chefes de Governos, que escalam todas as semanas a Capital Pequim, ao encontro do Presidente Xi Jinping, no Grande Palácio do Povo e na Cidade Proibida, que era a Sede Imperial das Dinastias Ming e Qing.

Para dizer que, o centro do poder global já está a deslocar-se gradualmente de Washington para Pequim. Alguns países africanos, como Angola, minimizaram a China. Apostando-se nos EUA, como aliado principal e mais privilegiado, como forma de isolar os adversários políticos e assegurar a manutenção do poder autoritário.

Só que, o próprio Donald Trump, Presidente dos EUA, estava em peso em Pequim com uma delegação pesada dos magnatas mais ricos dos EUA com fim de buscar parcerias estratégicas, partilhar os recursos minerais críticos do mundo e controlar as rotas marítimas e os corredores ferroviários.

Em síntese, a problemática da minha reflexão consiste no seguinte: o declínio dos EUA está a causar o desmoronamento gradual das instituições democráticas, em toda a parte do mundo. As minhas interrogações são as seguintes: A ascensão da China, alinhada com a Rússia, significará o que?

Olhando bem ao sistema político actual da China? O que será o «hibridismo», como modelo político? A oligarquia capitalista? Ou, a oligarquia socialista do partido único? Este é o grande dilema da configuração da ordem mundial, da época contemporâneo.

*Antigo Deputado à Assembleia Nacional

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