Think tanks: quem são, como actuam e qual seria o seu panorama de acção em Angola – Nsambanzary Xirimbimbi
Think tanks: quem são, como actuam e qual seria o seu panorama de acção em Angola - Nsambanzary Xirimbimbi
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Costumo dizer que a academia angolana é como uma árvore que não dá fruto. A metáfora pode parecer dura, mas sintetiza, de forma bastante fiel, uma crítica recorrente ao nosso sistema de ensino superior e de investigação científica. Afinal, de pouco serve uma árvore que cresce, multiplica os seus ramos e ocupa espaço se não produz aquilo para que existe: frutos.

Algo semelhante parece estar a acontecer com uma parte significativa do ensino superior em Angola. Nas últimas décadas, assistimos a um crescimento expressivo do número de universidades e institutos superiores. Multiplicaram-se os cursos, aumentou o número de licenciados, mestres e doutores, mas falharam no essencial.

Se perguntarmos: onde está o novo conhecimento produzido por esse sistema? Onde estão as soluções científicas para os grandes problemas nacionais?

Onde estão as tecnologias, as patentes, os estudos que influenciam as políticas públicas e as inovações que transformam a economia? Infelizmente, a resposta é pouco animadora.

Em muitos casos, as nossas instituições de ensino superior limitam-se a desempenhar a função de transmissão de conhecimentos e de certificação académica. Tornaram-se, na grande maioria, verdadeiras fábricas de diplomas, relegando para segundo plano aquilo que distingue uma universidade de qualquer outra instituição de ensino: a investigação científica e a extensão universitária.

Os trabalhos de fim de curso, dissertações e teses são produzidos apenas para cumprir um requisito administrativo. Muitos encontram-se arquivados em bibliotecas sem qualquer impacto na sociedade. Outros padecem de problemas metodológicos graves, de revisões bibliográficas frágeis ou até de plágio.

O resultado é previsível: produz-se muito papel e pouco conhecimento útil.
A investigação científica exige recursos. Exige laboratórios, bibliotecas atualizadas, bases de dados internacionais, financiamento contínuo e investigadores dedicados.

No entanto, o investimento nacional em ciência e tecnologia é bastante reduzido em comparação com o de outros países da África Austral. Sem financiamento consistente, investigar deixa de ser uma atividade institucional para se transformar quase num exercício de voluntariado. Mas talvez o maior problema nem seja financeiro.

Ao longo dos últimos artigos, procurei explicar conceitos fundamentais como a comunidade científica, a revisão por pares (peer review), as revistas científicas indexadas e a acreditação académica. Todos esses mecanismos existem para garantir que o conhecimento produzido seja rigoroso, validado e confiável.

Sem uma comunidade científica vibrante, não há escrutínio intelectual. Sem revistas indexadas, não há circulação internacional do conhecimento. Sem revisão por pares, qualquer texto pode ser apresentado como “artigo científico”, independentemente da sua qualidade. É aqui que reside uma das maiores fragilidades da nossa academia.

A ciência não é uma atividade solitária. Ninguém faz investigação científica robusta sozinho, em casa, isolado do ecossistema académico. A ciência é, por natureza, colaborativa, cumulativa e institucional.

Cada estudo parte daquilo que outros investigadores produziram anteriormente. O conhecimento avança porque existe uma comunidade que questiona, critica, replica experiências e valida resultados.

Quando essa comunidade praticamente não existe, torna-se inevitável que o senso comum ocupe o espaço que deveria pertencer ao conhecimento científico.
Outra fragilidade evidente é a enorme distância entre a universidade e os problemas reais da sociedade.

Enquanto Angola enfrenta desafios estruturais relacionados com a diversificação económica, a produtividade agrícola, a segurança alimentar, a qualidade da educação, a industrialização ou a eficiência das instituições públicas, as universidades raramente apresentam estudos que sirvam de base técnica para apoiar a tomada de decisão.

O conhecimento só cumpre plenamente a sua função quando produz impacto social.
É precisamente neste ponto que entram em cena os think tanks.

Um think tank — ou laboratório de ideias — é uma organização dedicada à produção de conhecimento aplicado. Reúne especialistas de diferentes áreas para analisar problemas concretos, elaborar diagnósticos, formular propostas e influenciar políticas públicas, estratégias empresariais e o debate nacional.

Ao contrário de parte da produção académica tradicional, cujo foco muitas vezes termina na publicação científica, os think tanks procuram responder a perguntas muito objetivas:

  • Como reduzir o desemprego?
  • Como melhorar o sistema educativo?
  • Como aumentar a produtividade agrícola?
  • Como tornar as instituições públicas mais eficientes?
  • Como acelerar a diversificação económica?

Em outras palavras, produzem conhecimento orientado à resolução de problemas.

Os think tanks funcionam como uma ponte entre a investigação e a tomada de decisão. São capazes de traduzir estudos complexos em documentos executivos, recomendações práticas, propostas legislativas, indicadores económicos e estratégias governamentais compreensíveis para ministros, deputados, empresários e gestores públicos.

Além disso, possuem uma vantagem importante em relação a muitas instituições académicas tradicionais: a agilidade. Enquanto uma universidade pode levar meses ou anos para aprovar um projeto de investigação, um think tank consegue reunir especialistas rapidamente, constituir equipas multidisciplinares e responder com rapidez a crises económicas, sanitárias, energéticas ou sociais.

Outra característica relevante é a sua forte ligação aos decisores. Um artigo científico pode permanecer por anos sem produzir qualquer impacto político.

Já um relatório produzido por um think tank bem estruturado pode influenciar diretamente reformas governamentais, políticas económicas e legislação nacional. Os exemplos internacionais são numerosos.

Na Coreia do Sul, o Korea Development Institute (KDI) desempenhou um papel fulcral na elaboração dos famosos planos quinquenais que sustentaram o chamado “Milagre do Rio Han”.

Foram os seus especialistas que desenharam grande parte da estratégia de industrialização, exportação e desenvolvimento tecnológico que transformou um dos países mais pobres da Ásia numa potência económica mundial.

No Chile, o CIEPLAN tornou-se o principal cérebro técnico da transição económica após o regime militar, contribuindo decisivamente para a estabilidade macroeconómica e para a redução da pobreza.

Na China, centros de investigação ligados ao Estado desenvolveram as bases técnicas para a criação das Zonas Económicas Especiais, a abertura ao investimento estrangeiro e a integração do país na economia global.

Em Singapura, instituições como o Institute of Policy Studies ajudaram a formular políticas públicas que transformaram um pequeno porto comercial em um dos países mais desenvolvidos do planeta.

Em todos estes casos, os think tanks atuaram como verdadeiros arquitetos invisíveis do desenvolvimento. Naturalmente, eles não substituem completamente a universidade.

Os think tanks não formam médicos, engenheiros, professores ou cientistas. Também não costumam realizar investigação básica de longo prazo, característica típica das universidades. O seu papel é complementar.

Enquanto a universidade produz conhecimento científico e forma recursos humanos, os think tanks transformam parte desse conhecimento em soluções concretas para governos, empresas e sociedade. É por isso que ambas as instituições devem coexistir.

No caso angolano, porém, em que a investigação científica ainda revela enormes limitações estruturais, os think tanks podem desempenhar um papel particularmente estratégico.

Instituições como o CEIC da Universidade Católica de Angola já demonstram, em certa medida, aquilo que centros de pensamento podem fazer ao produzir análises económicas independentes, estudos sobre pobreza, desenvolvimento e políticas públicas que acabam por influenciar tanto o debate nacional como as decisões do próprio Executivo.

Talvez tenha chegado o momento de muitos investigadores deixarem de esperar que todas as mudanças partam exclusivamente do Estado.

Talvez seja tempo de académicos, economistas, engenheiros, juristas, sociólogos, gestores, especialistas em educação, saúde, agricultura e tecnologia se organizarem em redes independentes de produção de conhecimento aplicado.

O país precisa desesperadamente de instituições capazes de estudar problemas concretos, produzir diagnósticos rigorosos e apresentar soluções tecnicamente fundamentadas. O conhecimento só adquire valor verdadeiro quando melhora a vida das pessoas.

No contexto atual de Angola — marcado por fragilidades no sistema educativo, escassez de mão de obra altamente qualificada, baixa produtividade, dependência económica do petróleo e instituições que frequentemente funcionam abaixo do seu potencial — torna-se imperativo fortalecer todo o ecossistema nacional de produção de conhecimento.

Enquanto o Ministério do Ensino Superior, através do INAAREES e das demais entidades competentes, continua o importante trabalho de consolidação da qualidade das Instituições de Ensino Superior, cabe também aos próprios académicos assumirem um papel mais ativo na construção de soluções para o país.

Criar think tanks independentes, multidisciplinares e tecnicamente competentes poderá representar um dos caminhos mais promissores para aproximar a ciência da governação, da economia e da sociedade.

Porque, em última análise, o conhecimento que permanece apenas nas bibliotecas pouco transforma. O conhecimento que orienta decisões, resolve problemas e melhora a vida das pessoas é aquele que verdadeiramente cumpre a sua missão.

*Docente

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