
A África prepara-se para os festejos de mais uma data comemorativa na próxima segunda-feira, os 63 anos da fundação da Organização da Unidade Africana, que teve como artífices, Haile Selassie, Kwame Nkrumah, Julius Nyerere, Gamal Abdel Nasser, Jomo Kenyatta, só para estes citar, foi pensada com o escopo da descolonização, firmamento de um pacto de não guerra entre os Estados ora independentes até ao período de (1963), cerca de 32 países “estavam livres do colonialismo” (1957-1960) e o Não Alinhamento no âmbito da Guerra Fria.
Antes da fase da concretização da OUA em 1961-1962, surgiram dois grupos antagonistas do ponto de vista ideológico:
O Grupo de Casablanca, conferência que decorreu em Marrocos, Janeiro de 1961, líderes principais, Kwame Nkrumah (do Gana), Gamal Abdel Nasser (do Egipto), Ahmed Sékou Touré (da Guiné), Modibo Keita (do Mali), Ferhat Abbas (da Argélia), acreditavam que a independência formal não bastava.
Se a África continuasse dividida em 30 Estados pequenos, as antigas potências coloniais iam continuar mandando por via económica e militar. A solução seria uma fusão imediata, queriam um “Governo de União Africana”, com um parlamento comum, exército africano, moeda única, cidadania africana, o pan-africanismo total.
A ideia surgiu face ao comportamento dos países de África francófona que estavam assinando acordos de cooperação com Paris que mantinham tropas francesas e controle do franco CFA, Nkrumah e Nasser viam isso como neocolonialismo.
Grupo de Monróvia, cujo papel da sua defesa na conferência de Libéria, em Maio de 1961, liderado por Julius Nyerere (da Tanzânia), Jomo Kenyatta (do Quênia), William Tubman, Léopold Senghor (do Senegal), passava na unidade entre os Estados através de cooperação, porém, achavam impossível pular diretamente para federação.
Sair do colonialismo, começar com o comércio, infraestrutura, coordenação diplomática, mas respeitando a soberania de cada estado. O seu surgimento partiu do medo de perder a independência que tinham acabado de ganhar.
Países maiores como Nigéria e Etiópia não queriam ser engolidos por uma federação dominada por Gana ou Egipto. Países francófonos não queriam romper com a França de uma vez. Na fundação da OUA, em Adis Abeba, a 25 de Maio de 1963, o grupo de Monróvia tinha mais países ao seu lado.
O tempo passou e as velhas práticas continuam, como a água que procura o seu curso normal com destino ao mar. A estagnação do continente berço da humanidade, deve-se aos grandes traidores com “pele negra e máscara branca”, como referenciou Frantz Fanon.
A história moderna para quem quiser revisitar, há-de encontrar, sobretudo, em África, líderes que propagavam os valores pan-africanistas, foram “vendidos” ao ocidente em troca de poder, os algozes de Nkrumah, Patrice Lumumba, Silvanus Olímpios, Samora Machel, Thomas Sankara, Muammar Kadafi, foram irmãos africanos apadrinhados pelo hemisfério norte.
O caso mais recente da velha prática, é o fim de uma aliança que tinha tudo e mais alguma coisa para elevar os anseios do povo do Senegal a um bom porto, a ruptura entre Bassirou Diomaye Faye, Presidente da República, e Ousmane Sonko, vem reacender o debate das traições no continente.
O “casamento político” entre ambos foi um dos mais comentados na África, pois procurava romper com o regime de Macky Sall apoiado pela França.
Ousmane Sonko, fundador do Partido Africano para Solidariedade e Igualdade (PASTEF), em 2014, denunciou a corrupção e a fraude fiscal das multinacionais no Senegal, tornou-se popular despertando atenção do regime.
Foi perseguido durante muito tempo e impedido de concorrer às eleições presidenciais em 2024, lançando Faye para liderar o projecto sem capital político necessário.
Sonko lançou apelo aos populares e, sobretudo, jovens ávidos de mudança quer política assim como económica da velha potência colonizadora, o resultado nas urnas foram satisfatórios para o PASTEF e a elevação do inexperiente Faye ao poder.
Passados dois anos, o Presidente emancipou-se politicamente, aproximou-se à França e demitiu o seu mestre no posto de primeiro-ministro, rompendo o programa da refundação do país nos valores meramente africanos em benefício da população, afastando-se da antiga potência colonizadora.
A dor da traição é pior quando vem de pessoa a quem confiamos cegamente, desde a sua visita à Paris, o Presidente tornou-se uma figura completamente transformada e um discurso bastante desalinhado com o chefe do executivo.
O fim da influência francesa na região da África ocidental é ponto assente, basta olhar para o Mali, Burquina Faso e Níger, esperava-se que o Senegal seguisse o exemplo dos demais países, porém, voltou outra vez a esfera gaulesa.
O cenário político senegalês nos próximos tempos será conturbado tendo em conta a oposição de Ousmane ao governo de Faye e a perseguição política que vai sofrer até ao próximo pleito eleitoral em 2029, correndo risco de não participar face às leis que eventualmente poderão ser fabricadas para vetar Sonko.