
Ainda acredito que dentro do MPLA existam pessoas sérias, conscientes e com maturidade suficiente para perceber a gravidade do momento e ajudar a travar os conflitos internos antes que eles se tornem irreversíveis.
Num partido com a história e o peso do MPLA, é normal haver divergências. O que já não é normal — nem saudável — é transformar essas divergências em guerras de bastidores, campanhas de difamação, vazamentos selectivos e tentativas constantes de destruir a imagem uns dos outros.
Quando figuras de topo do Estado começam a ser expostas de forma sistemática, isso não mostra apenas que existem alas em disputa. Mostra algo mais preocupante: a perda de confiança interna, o enfraquecimento do sentido institucional e o uso do poder como arma de vingança política.
E quando dirigentes entram nesse tipo de confronto, não é só a imagem deles que sai ferida. O próprio Estado perde credibilidade diante do povo.
As pessoas estão a observar. E quando veêm dirigentes envolvidos em guerras de reputação, a conclusão é inevitável: aqueles que deveriam garantir estabilidade, maturidade e direcção política já nem conseguem gerir os próprios conflitos internos. Isso é perigoso para qualquer país.
Se esta lógica continuar, o MPLA pode acabar mergulhado numa espécie de “guerra fria” interna. Não contra adversários externos, mas entre os próprios membros do partido. Uma guerra silenciosa, feita de dossiês, rumores, campanhas de difamação, manipulação mediática e destruição gradual da credibilidade uns dos outros. E conflitos assim costumam ser ainda mais perigosos, porque corroem o partido por dentro.
O MPLA precisa urgentemente de travar essa cultura de descredibilização como método político. E a verdade é que isso não começou agora. Ao longo da história política angolana, várias figuras e organizações foram alvo de campanhas que procuravam não apenas derrotá-las politicamente, mas também destruí-las moralmente perante a opinião pública.
Foi assim com a FNLA, durante anos associada a narrativas brutais e desumanizantes. Foi assim com Jonas Savimbi, muitas vezes retratado apenas como uma figura demonizada, sem espaço para uma análise política mais séria e complexa da sua liderança.
Mais tarde, aconteceu também com José Eduardo dos Santos e muitos dos seus colaboradores, transformados em símbolos absolutos da corrupção nacional, muitas vezes sem considerar contextos, nuances e responsabilidades mais amplas.
O mesmo aconteceu com Ngola Kabangu, Abel Chivukuvuku, Adalberto Costa Júnior e outras figuras políticas que, em diferentes momentos, viram os seus nomes arrastados para o julgamento impiedoso da opinião pública.
E agora vemos isso repetir-se com nomes como Higino Carneiro, o general Furtado e Ju Martins, envolvidos em campanhas onde se misturam factos, rumores, interesses internos e insinuações.
O problema é que esse ambiente cria medo dentro do próprio partido. Muita gente cala-se não porque concorda, mas porque sabe que amanhã pode ser a próxima vítima. Quando a política deixa de ser debate de ideias e passa a ser gestão de dossiês, ninguém se sente realmente seguro.
Por isso, o diálogo continua a ser o melhor caminho. Mas um diálogo verdadeiro, não daqueles feitos apenas para manter cargos ou preservar interesses.
O MPLA precisa de reflectir seriamente sobre o que quer ser no futuro: continuar a ser uma força estruturante da nação ou transformar-se num espaço permanente de ajustes de contas internos.
Os sinais de desgaste do partido já foram dados muitas vezes. Alguns ignoraram por arrogância, excesso de confiança ou pela ilusão de que o poder nunca acaba. Mas a história africana mostra exactamente o contrário: muitos partidos fortes não caíram apenas por causa da oposição. Caíram porque se destruíram por dentro, perderam capacidade de ouvir, afastaram-se do povo e confundiram lealdade partidária com culto à liderança.
E aqui entra a responsabilidade dos jovens intelectuais do MPLA, sobretudo daqueles que hoje fazem parte do Comité Central e de outras estruturas importantes.
Essa nova geração precisa de perceber que a sobrevivência de um partido não depende apenas de defender o líder do momento. Depende, acima de tudo, de preservar a credibilidade institucional, a autoridade moral e a confiança popular.
Defender o partido não significa esconder erros nem silenciar críticas. Significa impedir que ambições pessoais destruam um património político construído ao longo de décadas. Significa trocar intrigas por debate sério, bajulação por pensamento crítico e oportunismo por responsabilidade histórica.
Também não basta aproveitar os benefícios que o partido oferece — cargos, influência, protecção ou estatuto. Em tempos difíceis, exige-se coragem política e intelectual. Exige-se gente capaz de dizer verdades incómodas, mesmo quando isso desagrada aos círculos do poder.
Porque, no fim das contas, os partidos raramente morrem apenas pelos ataques de fora. Muitas vezes, começam a morrer quando os seus melhores quadros escolhem o silêncio em vez da responsabilidade.