
Sabe quem me acompanha que sou um crente antigo de que esse pacto faz falta a Angola. Porém deve entender-se que ele pode realizar-se e até esgotar-se por diversas modalidades separadas ou combinadas a observar.
Pode ser pela via interpartidária, em que importante seria a participação de todos os partidos reconhecidos, especialmente os que vem da luta de libertação nacional, cujo falhanço inicial é a causa de todos os dramas que temos vivido até hoje e que não sessarão, estou eu convencido, com a simples ilusão de que um dia futuras eleições os banirão; é ali onde me parece plausível a iniciativa de ACJ da UNITA.
Pode, porém, ser por uma via suprapartidária, a que eu ainda espero ser patrocinada e liderada por iniciativa de forças da sociedade civil, com a necessária aderência de partidos políticos, como temos (ou tivemos?) o exemplo do Congresso da Reconciliação Nacional da CEAST, esforço iniciado o ano passado que eu espero poder ter continuidade.
No meu conceito, este problema não deveria, na melhor das hipóteses, incompatibilizar-se com o que já está estabelecido sobre os períodos eleitorais que são um dado adquirido positivo. Na verdade, para mim, esse é um problema que ultrapassa a dimensão isolada das eleições, só em si.
Para mim, esta ideia de que eleições são o alfa e o ómega para a construção de um Estado que emerge da colonização europeia é um equívoco que é desmentido todos os dias, em boa parte de países africanos e em Angola, em particular.
Porque tudo tem resultado, essencialmente, do medo de perder as eleições, quando estamos no poder a tantos os anos, e tendo cometido tantas irregularidades. Porque, humanamente, o que será de nós amanhã, sem o poder que irá cair “nas mãos do inimigo!?”.
No caso do MPLA a causa desse medo exacerbou-se, quando se veio a constatar que, afinal, até entre individualidades dentro do próprio partido existem ódios e vinganças que são de uma virulência inaudita.
Para ver que já ouvi, de apoiantes do maltratado, em fim de vida, Presidente JES, homem que passou pacificamente o poder para as mãos de outro camarada, vozes justamente contra qualquer “pacto”, que evitaria a vingança (eles chamam “justiça”) contra o Presidente JLO; o homem que se esmera na perseguição selectiva contra todos os “camaradas” que não queiram satisfazer o seu desejo de permanência, com poderes sem limites no tempo e na jurisdição.
É essa a realidade que faz da particularidade africana e angolana necessitada desse “pacto” que eu tenho chamado “de transição” e que ponha fim ao círculo de vinganças e contra vinganças que só ajudam a esfarelar o que tem sobrado da herança colonial.
E de que temos exemplos positivos na África do Sul e na Namíbia, só para citar os mais próximos, que realizaram em tempo devido essa clarificação, e hoje têm governos que não passam a maior parte do seu tempo a gerir, custe o que custar, a permanência no poder, morra quem morrer.
Assim que possa, irei tentar, aqui, resumir o que seria o conteúdo desse pacto, a partir do que escrevi no livro “Angola: por uma nova partida (crítica das eleições multipartidárias como um fim-em si, crítica do oportunismo político)”, em 2019.
*Antigo secretário-geral do MPLA