
Na história das nações e dos Povos do Mundo há acontecimentos de relevo que não se afirmam na altura que acontecem. Todavia, a história é implacável porque ela vai (a todo custo) rebuscar os factos históricos, consagrá-los no presente e lança-los ao futuro.
A virtude da história consiste na preservação dos factos históricos que permanecem no tempo e no espaço, como um vulcão ativo e adormecido, que volta em erupção.
Como é o caso dos Acordos de Alvor (15/01/1975) e dos Acordos de Bicesse (31/05/1991) que não se afirmaram na altura quando foram celebrados entre as partes. Mas ressurgiram em força.
Os dois acordos em referência, apesar de tudo, constituíram-se em fundamentos sólidos que asseguraram os processos da descolonização e da democratização de Angola.
Vejamos, os Acordos de Alvor consagraram a autodeterminação e o multipartidarismo. Mas este processo foi traído e estrangulado pela potência colonizadora – Portugal.
Os Acordos de Bicesse restauram o pluralismo, a democracia parlamentar e o sufrágio universal directo, acordados em Alvor. Mas cuja materialização foi inviabilizada pelas potências mundiais.
O que quer dizer, os dois acordos históricos, de importância transcendente, foram o fruto do entendimento mútuo e recíproco entre os angolanos, com a mediação portuguesa. Mas a sua realização efetiva esbarrou-se diante a conspiração de Portugal que não assumiu a sua responsabilidade de Estado colonizador e descolonizador.
Nunca faltou o patriotismo no seio dos três Movimentos de Libertação – FNLA, MPLA e UNITA. Isso deve ficar bem-claro.
Como é sabido, os interesses de Portugal sobrepuseram-se aos interesses nacionais de Angola. E, Angola ficou submersa e engolida pela tempestade das potências mundiais que tiveram sempre os seus olhos postos na geopolítica angolana.
Como foi dito atrás, os dois acordos de descolonização e de democratização de Angola constituíram-se num cabouco mais sólido sobre os quais foi possível alcançar a paz militar e o pluralismo parlamentar.
O papel de Portugal, apesar de tudo, foi fundamental e bem reconhecido por todos. E, Dr. José Manuel Durão Barroso deixou uma marca indelével nesses processos difíceis, e ninguém poderá ignorar o seu empenho e a sua dedicação.
Porém, Portugal não pode vir aqui confundir as pessoas e projetar-se como o «salvador da unidade nacional e da integridade territorial de Angola».
Portugal nunca pretendeu unir os angolanos, quer no tempo colonial quer no processo da descolonização. Mesmo agora não existe a vontade política expressa em Portugal de unir os angolanos e trata-los da mesma maneira e com os mesmos direitos soberanos e direitos de cidadania.
Pois, os Acordos de Alvor foram desfeitos pelo Portugal na base da discriminação dos angolanos entre os supostos civilizados de Luanda e os supostos gentios do interior do país.
Esta visão discriminatória foi defendida abertamente pelo Álvaro Barreirinhas Cunhal e o almirante António Alva Rosa Coutinho perante o Dr. Mário Soares que refutou veementemente a atitude discriminatória contra os angolanos do interior do país.
Os registos históricos sobre esta matéria estão lá em abundância e circulam amplamente na comunicação social e nas redes sociais. Infelizmente, houve a conivência por parte de alguns angolanos que ainda defendem o preconceito de superioridade e de supremacia.
A título de exemplo, numa reunião de cúpula, presidida por Presidente José Eduardo dos Santos, um dirigente do MPLA afirmava que, cita: «todos os que nasceram à sul do rio Cuanza são primitivos, suspeitos de ser da UNITA». Fim de citação.
Recordamos que, no tempo colonial e depois da independência, os povos do Sul de Angola eram tratados de gentios, selvagens, ignorantes, atrasados e matumbos. Quem introduziu este preconceito nas mentes de alguns angolanos foram os colonos portugueses.
Aliás, Dr. José Manuel Durão Barroso sabe muito bem do sistema de assimilação e de indigenato que assentava na discriminação racial e étnico cultural dos povos que hoje habitam no território que se chama Angola.
Não resta dúvida nenhuma de que os três Movimentos de Libertação de Angola (FNLA/MPLA/UNITA) nasceram das bases etnoculturais dos reinos do Congo, de Dongo e do Bailundo, respectivamente. Isto é o facto incontestável da história de Angola. Neste caso especifico seria ridículo tapar o sol com uma peneira furada.
Mas isso não significa que no seio dos três Movimentos de Libertação não existiram quadros e dirigentes de origens de outros reinos de Angola.
Por exemplo, o Secretário-Geral da UPA/FNLA e Ministro dos Negócios Estrangeiros do GRAE foi Dr. Jonas Malheiro Savimbi, natural do Planalto Central (Reino do Bailundo). O Chefe do Estado-Maior General do ELNA, braço militar da FNLA, foi o general José Kalundungo, natural do Huambo (Reino do Bailundo).
O Dr. Lucio Rodrigo Barreto de Lara foi o presidente interino e ideólogo do MPLA, natural do Huambo (Reino do Bailundo). O Daniel Júlio Chipenda, foi o vice-presidente do MPLA, natural de Benguela (Reino do Bailundo). O Dr. Marcolino José Carlos Moco, Primeiro-Ministro e secretário-geral do MPLA, natural do Huambo (Reino do Bailundo).
O secretário-geral da UNITA foi o Miguel N’Zau Puna, natural de Cabinda (Reino do Congo). Aliás, os Cofundadores da UNITA foram: Dr. Jonas Malheiro Savimbi (Planalto Central) e Dr. António Fwaminy da Costa Fernandes, natural de Cabinda (Reino do Congo).
O Primeiro-Ministro da UNITA no Governo de Transição (1975) foi o Dr. José de Assunção Alberto Ndele, natural de Cabinda (Reino do Congo). O Ministro de Trabalho da UNITA no Governo de Transição, e vice-presidente da UNITA, foi o Eng.º António Sebastião Dembo, natural do Bengo (Reino do Dongo).
Importa ressaltar que, a UNITA foi fundada (13/03/1966) no território do povo Nganguela, na localidade de Muangai, ao longo do rio Lungué-Bungo, na província do Moxico. Os primeiros três vice-presidentes da UNITA (Gaston Smart Chata, Salmão Njolomba e Moisés Mulyata Kanyumbu) foram nativos da Província do Moxico.
Portanto, a antropologia cultural, ou seja, a etnicidade, não simboliza a divisão do nacionalismo angolano. Por isso, achei muito estranho a «tese» da «divisão de Angola» que o Dr. José Manuel Durão Barroso, antigo Primeiro-Ministro de Portugal, assumiu em Luanda, como Cavalo-de-Troia.
Paradoxalmente, ele não foi honesto e nem transparente em não revelar os nomes das potências ocidentais que pretendiam «dividir Angola» em 1991, no final da Guerra Fria; quando o Império Soviético entrou em colapso. Nestas circunstâncias, o Dr. José Manuel Durão Barroso deixou uma nuvem negra a pairar no ar.
Na realidade, o que eu entendo é que, no desmoronamento do Império Soviético, que marcou o fim da Guerra Fria em 1991, na altura em que negociou intensamente os Acordos de Bicesse, a UNITA tinha sob seu controlo efetivo mais de 75% do território nacional.
Ao passo que, o regime do MPLA tinha o controlo de alguns centros urbanos, sitiados pelas Forças Armadas de Libertação de Angola (FALA), inclusive Luanda.
Os mapas deste contexto geográfico circulavam nos círculos diplomáticos e possivelmente tivesse havido a pretensão de partilha do espaço territorial nas negociações de paz.
Contudo, eu não me lembro de ter constatado nos círculos diplomáticos ocidentais aos quais eu tinha acesso a pretensão expressa da UNITA no sentido de dividir o país em duas partes.
Ali estará o cerne da questão que o Dr. José Manuel Durão Barroso, na qualidade de mediador, deveria pôr tudo em pratos limpos. Ao contrário de limitar-se em fazer insinuações abstratas, sem dizer os nomes das potências que colocaram esta proposta na mesa. Isso ajudaria esclarecer a história e dissipar as dúvidas que pairam no ar.
Aliás, estamos em pleno processo da preparação das eleições de 2027, que são determinantes para o futuro da democracia e da estabilidade econômica e social em Angola.
Porém, quando uma coisa deste gênero acontecer, não é por acaso. Isso enquadra-se numa grande estratégia eleitoral e as pedras estão sendo lançadas no cabouco para a manipulação da consciência das pessoas durante as campanhas eleitorais de 2027.
Portanto, torna-se imperativo a todos os angolanos de boa-fé estarem atentos e vigilantes diante esta cortina de fumo.
*Antigo deputado à Assembleia Nacional