Quando a confiança é posta em causa, toda a sociedade falha” – Garcia Bige
Quando a confiança é posta em causa, toda a sociedade falha" - Garcia Bige
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Há notícias que provocam indignação. Outras despertam tristeza. Mas existem aquelas que conseguem reunir ambos os sentimentos ao mesmo tempo, precisamente porque nos obrigam a confrontar uma das mais sombrias realidades da condição humana: a violência contra crianças.

Quando um homem adulto, pai de família, esposo, irmão, tio e convivendo diariamente com filhas, sobrinhas e outras crianças, é apontado como suspeito da prática de abuso sexual de menor, a primeira reacção é de incredulidade.

Como pode alguém que conhece o valor de uma criança no seio da sua própria família ser associado a um acto tão repugnante? Se as suspeitas vierem a ser confirmadas pela Justiça, estaremos perante uma das mais graves formas de traição à confiança humana.

Não há violência mais cruel do que aquela que destrói a inocência. O abuso sexual não deixa apenas marcas físicas; deixa feridas profundas na mente, na autoestima e na capacidade da vítima confiar nos outros.

São cicatrizes invisíveis que, muitas vezes, acompanham uma pessoa durante toda a vida, afectando as suas relações, os seus sonhos e a sua saúde emocional.

Mais inquietante ainda é quando o suspeito ocupa uma posição de respeito na comunidade. Um professor, treinador, líder religioso ou qualquer outro adulto a quem os pais confiam os seus filhos representa, para uma criança, uma figura de autoridade e protecção. Quando essa confiança é quebrada, o impacto ultrapassa a esfera individual e transforma-se num problema social.

Este tipo de casos recorda-nos uma verdade desconfortável: o carácter de uma pessoa não pode ser medido apenas pela imagem que ela projecta em público.

Há quem saiba conquistar respeito, admiração e credibilidade, escondendo, por detrás de um comportamento aparentemente exemplar, atitudes incompatíveis com qualquer princípio de humanidade. A verdadeira integridade revela-se nas acções, sobretudo quando ninguém está a observar.

É precisamente por isso que os pais e encarregados de educação nunca podem baixar a guarda. Confiar é necessário, mas confiar cegamente pode ter consequências devastadoras. Nenhum professor, treinador, vizinho, familiar ou amigo da família deve estar acima da vigilância responsável.

Proteger uma criança exige diálogo permanente, escuta activa e atenção a mudanças repentinas de comportamento, porque muitas vítimas calam-se por medo, vergonha ou manipulação exercida pelos seus agressores.

Entretanto, esta responsabilidade não pertence apenas às famílias. É também um dever colectivo. Durante demasiado tempo, muitos casos permaneceram escondidos por causa da cultura do silêncio, do receio de denunciar ou da tendência para desacreditar a palavra das vítimas.

Sempre que um sinal é ignorado, cria-se espaço para que o agressor continue a actuar. Sempre que uma denúncia é feita com responsabilidade, aumenta-se a possibilidade de salvar outras crianças do mesmo sofrimento.

Ao mesmo tempo, importa preservar um princípio fundamental de qualquer Estado de Direito: ninguém deve ser condenado apenas pela acusação. Compete à Justiça investigar com rigor, respeitar o devido processo legal, proteger as vítimas e garantir que apenas os factos provados determinem a responsabilização criminal.

A defesa das crianças e o respeito pela presunção de inocência não são valores incompatíveis; são pilares de uma sociedade verdadeiramente justa.

A maior lição que estes casos nos deixam é simples e profunda: cuidar de uma criança vai muito além de lhe garantir alimentação, vestuário ou acesso à escola. As crianças precisam, acima de tudo, de adultos atentos, presentes e corajosos, capazes de escutar, acreditar e agir sempre que a sua segurança estiver em risco.

Uma sociedade que protege as suas crianças protege, simultaneamente, a sua dignidade, os seus valores e o seu futuro. E uma sociedade que fecha os olhos perante qualquer suspeita de abuso acaba, inevitavelmente, por tornar-se cúmplice do silêncio que permite que este tipo de crime continue a existir.

*Docente Universitário

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