O abismo entre militares e polícias – Lando Miguel
O abismo entre militares e polícias - Lando Miguel
Ribas e Altino

A rivalidade entre militares e polícias em Angola já não é um desentendimento funcional, nem um choque de culturas institucionais. É um sintoma de decomposição, um aviso tardio de que o Estado perdeu o pulso, a autoridade e a capacidade de se reconhecer a si próprio.

O que se vive hoje é a prova de que os dois ministérios responsáveis pela ordem interna e pela defesa nacional deixaram de controlar os seus próprios filhos fardados.

Durante anos, as tensões entre efectivos dos dois lados foram tratadas como meras fricções corporativas. Mas agora, com confrontos sucessivos, detenções humilhantes em plena via pública, agressões veladas e disputas territoriais dignas de milícias, a máscara caiu.

Cada grupo dita as suas próprias regras, como pequenos senhores de guerra improvisados. O Estado observa — e cala. E esse silêncio é talvez o maior escândalo.

Mia Couto escreveu que “há silêncios que são crimes”. Este é um deles.

A verdade é que os dois ministérios deixaram de formar homens da lei. Substituíram a disciplina pela pressa, o rigor pela estatística, a vocação pela necessidade. Transformaram a farda num escape para o desemprego juvenil, e não numa responsabilidade moral.

Hoje, muitos entram não por dever, mas por sobrevivência. E como alertaria Dostoiévski, “o perigo não está no homem armado, mas no homem armado sem propósito”.

O resultado está à vista: efectivos mal preparados, emocionalmente frágeis, tecnicamente insuficientes, lançados para a rua como se fossem peças descartáveis de uma máquina que já não funciona.

E quando se junta poder, frustração e ausência de comando, o que nasce é exactamente isto: uma guerra fria interna, feita de humilhações, provocações e pequenas vinganças.

O país assiste a polícias a deter militares, e a militares a humilhar polícias, e ambos a disputar autoridade como se o território nacional fosse um espólio abandonado. É a confirmação sombria da frase de Chinua Achebe: “as coisas desmoronam quando o centro deixa de segurar”.

E o centro, em Angola, deixou de segurar.

Os ministérios estão hibernados, paralisados, talvez cúmplices pela omissão. Não há pronunciamentos firmes, não há responsabilização, não há reformas, não há liderança visível. Há apenas o vazio — e o vazio, como ensinou Ngũgĩ wa Thiong’o, é sempre ocupado por forças que não deveriam ter espaço.

A pergunta impõe-se: o que se passa realmente?

A resposta é brutal: passa-se que a segurança nacional está exposta, vulnerável, entregue a corporações que já não obedecem a ninguém. Passa-se que o Estado perdeu o monopólio da autoridade. Passa-se que a farda deixou de ser símbolo de ordem e passou a ser bandeira de facção.

E quando a farda se torna facção, o país entra numa zona de sombra da qual poucos regressam.

*Investigador em segurança e defesa

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