
Dezenas de cidadãos, sobretudo jovens em idade activa, têm passado a noite ao relento junto ao posto da Direcção Nacional dos Serviços de Identificação, na Nova Marginal da Praia do Bispo, em Luanda, para garantir um lugar na fila e conseguir emitir ou renovar o Bilhete de Identidade (BI).
As longas filas começam ainda durante a madrugada e prolongam-se até ao final do expediente, numa altura em que muitos candidatos aos concursos públicos dos sectores da Saúde e do Ministério do Interior necessitam do documento para instruir os respectivos processos.
O Jornal de Angola constatou, na última terça-feira, um cenário marcado por dezenas de pessoas acomodadas sobre papelões, sentadas junto aos muros do edifício ou à espera desde a noite anterior. O receio de perder os prazos de candidatura levou muitos cidadãos a trocarem o conforto das suas casas por uma noite ao relento, na expectativa de serem atendidos.
Apesar do esforço, muitos acabam por regressar a casa sem conseguir tratar do documento. Segundo funcionários do posto central dos Serviços de Identificação, os constrangimentos resultam de alegadas falhas no sistema informático, situação que tem afectado sobretudo a emissão de segundas vias e as renovações.
Entre os utentes ouvidos pela reportagem está Elisa Kuediatuca, de 23 anos, técnica de Enfermagem residente no bairro Malueca, município de Cacuaco. Com o Bilhete de Identidade caducado desde o mês passado, pretende renová-lo para concorrer a uma vaga no sector da Saúde.
Depois de várias horas de espera, foi informada de que o sistema estava indisponível. Antes disso, já tinha tentado tratar do documento no posto de Cacuaco, mas não conseguiu obter uma das poucas senhas distribuídas diariamente.
Sem o documento actualizado, a jovem teme perder a oportunidade de concorrer a uma vaga na província do Cuando. As sucessivas deslocações aos postos de atendimento também começam a afectar o emprego que exerce actualmente num salão de beleza.
No mesmo local, Edna Guilherme, de 21 anos, técnica média de Enfermagem, aguardava a oportunidade de solicitar a segunda via do documento, perdido durante um assalto. Para aumentar as hipóteses de atendimento, passou igualmente a noite nas imediações do posto.
A jovem denunciou ter sido abordada por intermediários que prometeram acelerar o processo mediante o pagamento de 10 mil kwanzas, quando a taxa oficial para emissão do Bilhete de Identidade ronda os 450 kwanzas. Sem condições para efectuar o pagamento, decidiu permanecer na fila.
As denúncias de alegado favorecimento repetem-se entre outros utentes. José Sapilinha, de 23 anos, residente nos Ramiros, município de Belas, necessita do Bilhete de Identidade para iniciar funções numa empresa privada. Chegou ao posto antes das cinco horas da manhã, mas foi informado de que apenas estavam a ser emitidas primeiras vias.
O jovem considera que alguns cidadãos conseguem resolver o processo rapidamente, enquanto outros permanecem horas ou dias à espera, o que, segundo afirma, alimenta suspeitas de cobranças ilícitas.
Situação semelhante vive Mateus Chipalavela, de 28 anos, técnico de Enfermagem residente em Viana. Há cerca de uma semana tenta obter a segunda via do Bilhete de Identidade em diferentes postos, sem sucesso.
Depois de passar mais uma noite ao relento na Praia do Bispo, disse ter presenciado a organização de listas entre os próprios utentes para evitar conflitos, mas denunciou que algumas pessoas continuam a aceder ao atendimento por vias privilegiadas.
Nem todas as experiências, porém, terminam da mesma forma. João Baptista Queta, morador do bairro Kikuxi, município de Viana, conseguiu obter o Bilhete de Identidade depois de chegar ao posto às 23 horas de domingo e passar a noite no local. Foi atendido na segunda-feira e recebeu o documento no dia seguinte, sem pagar qualquer valor além da taxa legal.
Também Elmer Faria conseguiu tratar do Bilhete de Identidade da filha após várias tentativas. Segundo explicou, o facto de estar acompanhado pela menor facilitou o atendimento, uma vez que as crianças beneficiam de prioridade.
No final, apelou às autoridades para reforçarem a capacidade dos serviços, com mais postos de atendimento e melhores condições de funcionamento, de modo a aproximar os serviços aos cidadãos e reduzir as longas filas que diariamente se registam.
in JA