
A realização da III edição da Iniciativa da Aliança das Civilizações da ONU, em Luanda, permite-nos fazer várias leituras sobre o momento que Angola vive no plano internacional. Mais do que acolher um evento de dimensão global, esta escolha representa um reconhecimento da comunidade internacional relativamente ao papel que o Estado angolano tem vindo a desempenhar em diversas matérias, sobretudo no domínio da paz, da estabilidade e da segurança.
Em primeira instância, importa destacar o percurso de Angola no âmbito da gestão e resolução de conflitos no continente africano. Nos últimos anos, o país tem procurado posicionar-se como um dos principais players africanos na promoção da paz, da estabilidade política e da segurança regional.
A participação activa nos esforços diplomáticos para a resolução de conflitos, particularmente na região dos Grandes Lagos, demonstra a crescente confiança que a comunidade internacional deposita na diplomacia angolana e na sua capacidade de facilitar o diálogo entre diferentes actores.
“(…) Hoje, o diálogo entre civilizações se impõe como condição essencial para a estabilidade mundial, pois a situação internacional actual se vem deteriorando de forma preocupante. (…)” (João Manuel Gonçalves Lourenço, Presidente da República de Angola, na abertura da III Cimeira da Aliança das Civilizações das Nações Unidas).
A escolha de Angola para acolher esta edição constitui, por isso, um reconhecimento da sua crescente relevância diplomática e da credibilidade que o país conquistou como defensor do diálogo, da mediação e das soluções pacíficas para os conflitos, bem como um país de matriz pacifista que âncora toda a sua abordagem no primado do Direito Internacioal.
A experiência angolana em matéria de paz tem sido reconhecida internacionalmente, não apenas pela forma como foi alcançada, mas, sobretudo, pela sua sustentabilidade. Desde o alcance da paz, não se conhecem rupturas nem recuos significativos no processo, o que permite afirmar que Angola conseguiu construir um caminho consistente de reconciliação nacional.
Naturalmente, existem questionamentos e desafios, próprios de qualquer processo desta natureza, mas estes não diminuem o mérito do percurso que o país tem vindo a trilhar.
O Presidente João Lourenço, no seu discurso inaugural da III edição da Iniciativa da Aliança das Civilizações da ONU, afirmou que “(…) A nossa experiência ensina-nos que nenhum objectivo justifica a destruição e o sofrimento causados pela guerra e que a paz se constrói com diálogo, inclusão e confiança. (…)”
Esta afirmação do Chefe de Estado resume, de forma exemplar, a principal autoridade moral com que Angola participa nesta Cimeira. O país não fala da paz apenas enquanto conceito político ou diplomático; fala a partir de uma experiência concreta, construída com sacrifício, reconciliação e compromisso nacional.
Uma outra dimensão que merece reflexão prende-se com a crescente afirmação de Angola como destino privilegiado para a realização de grandes cimeiras internacionais.
Nos últimos anos, o país tem acolhido importantes encontros políticos, diplomáticos e económicos de dimensão continental e mundial. A realização desta III Cimeira reforça essa tendência e constitui mais uma demonstração da capacidade organizativa do Estado angolano para albergar eventos desta envergadura.
Neste domínio, merece destaque o trabalho que o Jornal de Angola tem desenvolvido através da publicação de cadernos especiais dedicados às grandes cimeiras realizadas no país. Trata-se de um contributo importante para a preservação da memória institucional e para a construção de fontes de consulta credíveis.
Todavia, seria igualmente desejável que esse acervo estivesse amplamente disponível em formato digital, no sentido de permitir o acesso mais democrático e permanente ao conhecimento produzido.
As grandes cimeiras internacionais não devem terminar com o encerramento das sessões. Devem transformar-se em património documental permanente, acessível às futuras gerações, que visa contribuir para preservar a memória institucional e reforçar a projecção internacional de Angola.
A própria agenda da III edição revela a actualidade e a relevância dos temas em debate. O encontro decorre num momento particularmente delicado da política internacional, marcado pela persistência da guerra entre a Rússia e a Ucrânia, pelo agravamento das tensões no Médio Oriente, envolvendo Israel, o Irão e os Estados Unidos, pela continuidade do conflito no Leste da República Democrática do Congo e pela instabilidade que afecta vários países da região do Sahel.
Entretanto, importa pensar para além do evento. O verdadeiro desafio consiste em transformar os ganhos imediatos em benefícios duradouros. Os resultados tangíveis, como os impactos económicos, devem ser acompanhados por ganhos intangíveis, nomeadamente, o reforço da reputação internacional de Angola, a consolidação da sua diplomacia, a valorização da sua experiência em matéria de paz e a projecção do país como parceiro credível na promoção da estabilidade regional e internacional.
Mais adiante, o Presidente afirmará “(.) Que a partir daqui, em Luanda, capital da República de Angola, possamos enviar para a comunidade internacional a mensagem de que os conflitos são evitáveis, a paz mundial continua a ser possível e que o respeito pela dignidade da pessoa humana, pelo Direito Internacional e pelo multilateralismo deve permanecer no centro dos nossos esforços colectivos”.
Esta mensagem sintetiza o espírito da Iniciativa e o posicionamento que Angola pretende afirmar no sistema internacional: o de um Estado comprometido com o diálogo, o respeito pelo Direito Internacional e a construção de soluções negociadas para os conflitos contemporâneos.
O verdadeiro legado desta Iniciativa não será apenas o êxito da sua organização. Será, sobretudo, a capacidade de Angola converter o prestígio diplomático alcançado em ganhos permanentes para a sua política externa, para o turismo, para a economia, para a academia e para a afirmação do país como um actor incontornável na promoção da paz e da segurança internacional.
A realização da III edição da Iniciativa da Aliança das Civilizações da ONU em Luanda representa, por isso, muito mais do que um acontecimento protocolar.
Constitui uma oportunidade para valorizar o percurso do país na promoção da paz e demonstrar que a sua experiência histórica pode continuar a inspirar soluções para os desafios de um mundo cada vez mais complexo e marcado pela instabilidade.
*Professor de Relações Internacionais e mestre em Gestão e Governação Pública, na especialidade de Políticas Públicas