
Há uma pergunta que talvez incomode, mas que precisamos de fazer: quando a nossa convicção política entra em conflito com a nossa cidadania, qual das duas deve falar primeiro? A resposta parece simples: somos cidadãos antes de sermos militantes.
Mas, olhando para algumas actitudes que surgem no calor das disputas políticas, talvez essa verdade esteja a ser esquecida. Ser militante é abraçar uma causa, defender ideias, acreditar num projecto e lutar, dentro das regras democráticas, por aquilo em que acreditamos. Não há nada de errado nisso. Pelo contrário, uma democracia saudável precisa de cidadãos participativos, conscientes e capazes de defender as suas convicções.
O problema começa quando a convicção deixa de ser uma escolha e passa a ser uma identidade absoluta, diante da qual tudo o resto perde importância.
Quando o adversário político deixa de ser visto como um cidadão que pensa diferente e passa a ser tratado como inimigo. É aqui que surge uma questão que merece reflexão: estamos a formar apenas militantes ou também estamos a formar cidadãos?
Um partido pode ensinar o seu militante a conhecer o programa, defender a ideologia, mobilizar, argumentar e conquistar apoiantes. Mas quem ensina o cidadão a conviver com quem pensa diferente? Quem o prepara para compreender que discordar não significa odiar?
Talvez esta seja uma das grandes tarefas do nosso tempo: não formar apenas bons militantes, mas formar bons cidadãos.
Podemos ter opiniões políticas diferentes e continuar a ser vizinhos. Podemos votar em partidos diferentes e continuar a apertar as mãos. Podemos defender projectos diferentes para o país e, ainda assim, querer o bem da mesma sociedade. A política deve ser uma forma de participação na vida pública, não uma autorização para abandonar os valores básicos da convivência humana.
Imagine-se uma grande casa onde vivem milhões de pessoas. Alguns querem pintar as paredes de uma cor; outros preferem outra. Uns defendem uma porta, outros defendem outra. Tudo isso é legítimo. O problema começa quando, para provar que a sua cor é melhor, alguém decide incendiar a casa. No fim, já não importa quem tinha razão sobre a cor das paredes. Todos perderam a casa. Talvez a nossa sociedade seja exactamente essa casa.
As diferenças políticas fazem parte da democracia. O conflito de ideias também. O que não podemos aceitar como normal é que a diferença se transforme em hostilidade, insultos, confrontos entre cidadãos ou situações que coloquem em causa o respeito pelas instituições e pela ordem pública.
Nenhuma convicção política pode ser maior do que a dignidade humana, a paz social e o respeito pelo outro.
E há algo particularmente curioso na política: muitas vezes, aqueles que estão no topo conseguem, apesar das diferenças, sentar-se à mesma mesa, cumprimentar-se, conversar e até abraçar-se.
Enquanto isso, na base, cidadãos comuns transformam divergências políticas em conflitos pessoais, carregando ressentimentos que, muitas vezes, nem sequer lhes pertencem. Porém, se os líderes conseguem conversar, por que razão os seus seguidores precisam odiar-se?
Talvez esteja na hora de ensinar uma nova forma de militância: uma militância que saiba defender sem ofender, discordar sem desumanizar, protestar sem destruir e lutar por uma causa sem transformar o outro em inimigo.
O cidadão não deixa de existir quando entra para um partido. A sua consciência não deve ser entregue à organização. A sua dignidade não deve depender da cor política que escolheu. A sua relação com os outros não pode ser determinada apenas pela filiação partidária. A militância deve ser uma dimensão da cidadania, não a sua substituta.
É preciso ensinar às novas gerações que, antes de aprender a defender um partido, é necessário aprender a respeitar o país; antes de responder ao adversário, aprender a ouvi-lo; antes de levantar uma bandeira, compreender que existem outras pessoas debaixo dela. “antes da bandeira, somos irmãos”.
Somos filhos da mesma terra. Partilhamos as mesmas ruas, os mesmos desafios e, muitas vezes, os mesmos sonhos. A nossa diferença de opinião não deveria destruir aquilo que temos em comum.
A democracia não precisa de cidadãos que pensem todos da mesma maneira. Precisa de cidadãos que, mesmo pensando diferente, consigam continuar a viver juntos.
No final, os partidos passam. As lideranças mudam. As campanhas terminam. As bandeiras são guardadas, mas o cidadão permanece.
E é esse cidadão que, todos os dias, terá de continuar a viver ao lado daquele que votou diferente. Talvez, por isso, a maior formação política que uma sociedade pode oferecer não seja apenas a formação de militantes. É a formação de cidadãos.
Cidadãos que saibam que defender uma ideia não lhes dá o direito de diminuir o outro, Cidadãos que compreendam que nenhuma vitória eleitoral vale a perda da paz social, cidadãos que saibam que, por trás de cada bandeira, existe uma pessoa.
E que, antes de qualquer partido, de qualquer ideologia e de qualquer convicção, somos cidadãos. Somos seres humanos. Somos irmãos.
*Jurista e gestor