
Sebem (Sebastião Paulo) é um artista folclórico e esvoaçante. Foi um dos pioneiros do kuduro. Conheci-o na recta final dos anos 80, no Vila-Clotilde. A pretexto de visitar Adelino Caracol, aparecia muitas vezes na nossa escola, a Nzinga Mbandi. Ia ver a fauna feminina. Éramos todos pirralhos naquele tempo.
No início dos anos 90, Afonso Quintas abriu-lhe as portas da Rádio Luanda. Era a campeã de audiência. Sebem passava música e mandava umas larachas ao microfone. Uma delas ficou: “Microfone não é para todos.” O moço tinha razão. Lembrei-me de Sebem por causa de Albino Pakissi.
Albino Pakissi é um comentador com mais fontes por metro quadrado no País. Tem mais fontes do que uma redacção inteira. Faz gala disso. Recentemente, essas fontes sopraram-lhe ao ouvido que a varredura feita pelo Comandante-em-Chefe nas FAA teve um objectivo: Desarticular uma tentativa de golpe de Estado. Uma conjura. Uma teoria da conspiração. As fontes de Albino Pakissi estão a brincar com fogo num País com gasolina.
A afirmação é alarmista. Sensacionalista e irresponsável. Mais estranho foi o silêncio que se seguiu. Ninguém desmentiu. Ninguém esclareceu. As autoridades ficaram mudas. Albino Pakissi também confunde conceitos.
Primeiro: Angola não tem “serviços secretos”. Tem Serviços de Inteligência. A lei reconhece o SINSE, o SIE e o SIM. O resto é folclore para meter medo.
Segundo: Uma tentativa de golpe de Estado é um dos crimes mais graves contra a segurança do Estado. Um jurista tem obrigação de saber disso.
Terceiro: Uma tentativa de golpe desarticulada não é matéria para comentadores. É matéria para a PGR. Com processo. Com arguidos. Com provas. Se Albino Pakissi dispõe de informação credível, devia resguardar-se para não comprometer uma eventual investigação. Se a alegação não tiver fundamento, corre o risco de difamar oficiais das FAA sem lhes dar direito de defesa.
Quarto: Nenhum serviço de inteligência sério anuncia os seus êxitos pela voz de comentadores. O sucesso da inteligência mede-se pelo silêncio. Quando alguém diz que os “secretos” frustraram um golpe, expõe instituições e alimenta rumores. Exonerações que poderiam ser simples actos administrativos de rotação de quadros passam a ser lidas como purgas de alegados golpistas. Isso desmoraliza a tropa.
Quinto (e mais grave): É uma irresponsabilidade política. As declarações de Pakissi acabam por favorecer uma determinada versão política dos acontecimentos.
Estamos em plena disputa pela sucessão no MPLA. E a quinze meses das eleições gerais.
A alegação do golpe serve vários propósitos. Fecha fileiras em torno de João Lourenço. Justifica afastamentos. E transforma descontentamentos legítimos com salários e promoções em suspeitas de rebelião.
Há um perigo maior: Quando rumores sobre golpes, conspirações e inimigos internos passam a substituir factos e provas, cria-se um ambiente de medo. É assim que se alimentam os rumores de ditadura.
Se houve uma tentativa de golpe de Estado, Albino Pakissi poderá ser uma testemunha importante. Se não houve, terá de explicar ao país a origem das suas afirmações. Sebem percebeu isso há mais de trinta anos. Microfone não é para todos. Sobretudo quando rumores são apresentados como factos.
*Jornalista