Empresa ligada ao Grupo Boavida “abocanha” contrato de 112 milhões de dólares no Ministério do Interior
Empresa ligada ao Grupo Boavida "abocanha" contrato de 112 milhões de dólares no Ministério do Interior
boa vida

A Dolinveste Lda, empresa ligada ao Grupo Boavida, passou a integrar, em 2025, um dos mais relevantes projectos tecnológicos do Ministério do Interior: um contrato de 112 milhões de dólares para a implementação de um sistema biométrico de controlo das fronteiras angolanas.

O negócio, celebrado entre o Ministério do Interior e o consórcio formado pela Dolinveste e pela empresa polaca Technology for Business (T4B), prevê a instalação de uma plataforma de controlo migratório com recurso a impressões digitais e reconhecimento facial em todo o território nacional.

A participação da empresa angolana no projecto foi confirmada pela própria T4B, que anunciou o acordo em Fevereiro de 2025, depois de quase dois anos de contactos e negociações. O acto contou com a presença do então secretário de Estado do Interior, Arnaldo Manuel Carlos.

A T4B, empresa especializada em sistemas de segurança fronteiriça, apresenta a sua componente do projecto como tecnológica. Já a imprensa angolana identificou a Dolinveste como responsável pela componente de construção das infra-estruturas necessárias à implementação do sistema.

O contrato coloca a Dolinveste no centro de um projecto de dimensão financeira e estratégica pouco habitual para uma empresa cuja presença pública no sector da biometria é limitada.

Ligação ao Grupo Boavida

A Dolinveste não aparece, contudo, como uma entidade empresarial isolada. O actual site da empresa identifica-a como integrante do Grupo Boavida, embora a página institucional da Dolinveste esteja ainda “em construção” e prometa disponibilizar posteriormente informações sobre a sua história, estrutura, áreas de negócio, projectos e parcerias.

O próprio Grupo Boavida, que se apresenta como uma empresa angolana com mais de 20 anos de actividade, cuja actividade principal foi inicialmente a construção civil e o imobiliário, dirigido por Tomasz Dowbor e Wojciech Jakub Dowbor, inclui a Dolinveste entre as suas empresas parceiras.

A ligação empresarial entre o grupo e a Dolinveste é, portanto, assumida publicamente pelas próprias entidades. O que permanece menos claro é a trajectória específica da Dolinveste antes da entrada no projecto do Ministério do Interior.

É neste ponto que o relatório da organização sul-africana Intelwatch introduz uma questão relevante. No estudo sobre os sistemas biométricos e de controlo fronteiriço de Angola, a organização descreve a Dolinveste como uma empresa sem historial conhecido no fornecimento de sistemas biométricos antes da sua participação no projecto.

A Intelwatch questiona, por isso, a escolha da empresa angolana para integrar o consórcio responsável pelo sistema nacional de controlo biométrico.

Outro ponto que permanece pouco transparente é a repartição do contrato. A T4B confirma o valor global de 112 milhões de dólares e identifica o projecto como uma parceria entre T4B e Dolinveste, mas a comunicação da empresa polaca não detalha quanto desse montante corresponde à componente de cada parceiro.

Uma publicação da imprensa angolana indica que a Dolinveste ficou associada à construção das infra-estruturas, enquanto a T4B asseguraria a componente tecnológica.

O contrato e a investigação da Intelwatch

A entrada da Dolinveste no projecto é um dos pontos centrais do relatório da Intelwatch, que questiona a transparência do processo de contratação e afirma que o negócio terá sido tratado como uma adjudicação directa, justificada como iniciativa estratégica de segurança nacional.

A organização cita ainda fontes governamentais que associam a inclusão da Dolinveste no projecto a alegados interesses pessoais relacionados com Manuel Gomes da Conceição Homem e Tomasz Dowbor.

O projecto prevê a implementação de um sistema de controlo biométrico em todo o território nacional, abrangendo pontos de entrada e saída e utilizando tecnologias como reconhecimento facial e impressões digitais.

A T4B apresenta o sistema como uma ferramenta para melhorar a identificação de pessoas, detectar documentos falsificados e reforçar a segurança das fronteiras.

Para a Dolinveste, o contrato representa uma entrada num projecto de natureza muito diferente daquela pela qual o Grupo Boa Vida é mais conhecido publicamente.

O que ainda não está esclarecido

A informação pública disponível permite confirmar a existência da Dolinveste, a sua ligação ao Grupo Boavida e a participação no consórcio que celebrou o contrato de 112 milhões de dólares com o Ministério do Interior.

Mas permanecem questões relevantes. Não está claramente documentado, em fontes públicas consultadas, quando a Dolinveste iniciou actividade, qual era a sua facturação antes do contrato, qual a sua experiência em projectos de biometria ou segurança fronteiriça e qual a parcela dos 112 milhões de dólares que lhe cabe no âmbito do consórcio.

Também não está disponível, de forma pública e detalhada, o contrato integral que permita conhecer as obrigações da empresa, os critérios utilizados para a sua selecção e os mecanismos de fiscalização da execução do projecto.

São questões particularmente relevantes porque a T4B é uma empresa tecnológica com experiência anterior na área de segurança fronteiriça, enquanto a Dolinveste surge no projecto como parceiro angolano ligado à componente de infra-estruturas.

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