O decréscimo de popularidade do MPLA e a decadência dos seus órgãos – Orféu Cardoso
O decréscimo de popularidade do MPLA e a decadência dos seus órgãos - Orféu Cardoso
JL mpla2

Faço esta análise por método, não por ódio nem por paixão. Um partido que governa um país durante cinquenta anos não cai de repente. Desgasta-se por dentro, antes de perder por fora. O MPLA não está a perder popularidade porque a oposição ficou mais forte. Está a perder porque deixou de ser aquilo que prometeu ser.

O MPLA nasceu como movimento de libertação. Tinha legitimidade histórica, tinha moral, tinha discurso. O povo perdoava os erros porque via sacrifício.

Depois de 1975, e sobretudo depois de 2002, transformou-se de partido de libertação em partido de Estado. Aqui começou o primeiro erro estrutural.

O partido confundiu Estado com partido, governo com partido, e cargo público com recompensa partidária. O comité passou a mandar no governo. O governo passou a obedecer ao comité. A administração pública passou a ser extensão do partido.

O cidadão deixou de ver o Estado como neutro. Para ter emprego, bolsa, terreno, para subir na função pública, passou a ser preciso ter cartão do partido. O Estado deixou de ser de todos e passou a ser percebido como de uns.

Um partido que se confunde com o Estado não consegue corrigir o Estado. Criticar o governo passou a ser visto como criticar o partido. Criticar o partido passou a ser visto como traição. Por isso, o MPLA perdeu a capacidade de autocrítica. E um corpo que não se autocritica, apodrece por dentro.

A economia do petróleo e a falência do modelo

A segunda causa é económica. Angola viveu anos de crescimento baseado quase só no petróleo. Entre 2002 e 2014, o PIB cresceu, Luanda encheu-se de torres, mas a estrutura económica não mudou.

Continuamos a importar grande parte do que comemos, continuamos dependentes do petróleo para a quase totalidade das exportações, e a indústria transformadora continua fraca.

O erro foi usar o dinheiro do petróleo para importar, não para produzir. Para construir betão, não para construir fábricas. Para subsidiar consumo, não para financiar produção.

Quando o preço do petróleo caiu em 2014, o modelo rebentou. O kwanza desvalorizou. A inflação subiu. O poder de compra do povo caiu. O jovem que em 2010 acreditava que ia ter emprego, em 2020 percebeu que tinha diploma e não tinha trabalho.

O partido prometeu diversificação económica durante vinte anos. Fez programas, fez PAPAGRO, PAPE, PRODESI, Angola 2025, Angola 2050. Mas a diversificação ficou no papel. O camponês continua sem silo. O empresário angolano continua sem crédito. O industrial continua sem luz estável.

O povo não deixou de gostar do MPLA por causa do discurso da oposição. Deixou porque o preço do arroz subiu, o preço do pão subiu, o táxi subiu, o salário não subiu. A popularidade cai na cozinha, não no comício.

A falência do modelo é visível em três sinais. O Estado vive de dívida para pagar salários e funcionamento. O sector privado nacional está asfixiado por impostos, burocracia e falta de crédito.

Os melhores jovens, médicos, engenheiros, professores, estão a sair para Portugal, Brasil, Canadá, Namíbia. Um país que exporta os seus melhores quadros e importa comida está a gerir o futuro no improviso.

A decadência dos órgãos e extensões

O MPLA tem uma estrutura imensa. Comité Central, Bureau Político, comités provinciais, municipais, comunais, OMA, JMPLA, UNTA. No papel, é a maior máquina política de Angola. Na prática, é uma máquina cansada.

Observo quatro sinais de decadência institucional, factuais e verificáveis.

Os órgãos deixaram de produzir ideias e passaram a produzir obediência. Antigamente, havia debate interno. Hoje, a reunião do comité serve para aprovar o que já veio decidido de cima.

O militante que pensa diferente é visto como indisciplinado. O quadro que critica é afastado. O partido ficou com muitos obedientes e poucos pensadores. E um partido sem pensadores não consegue renovar-se.

A JMPLA e a OMA perderam a sua função social. A JMPLA devia ser a escola de futuros líderes. Tornou-se, em muitos municípios, uma estrutura de distribuição de t-shirts, de mobilização para comícios e de espera por cargo. O jovem não entra na JMPLA para aprender política, entra para tentar emprego.

Quando o emprego não vem, ele sai e vira opositor. A OMA, que foi uma força histórica da mulher angolana, hoje tem pouca presença real nos bairros, nas zungueiras, nas camponesas, nas jovens empreendedoras.

A base foi abandonada. Os comités de acção nos bairros, nas aldeias, nas comunas, estão vazios. As sedes estão degradadas. O secretário do comité não tem meios, não tem transporte, não tem apoio. Só aparece em tempo de eleições, com bandeira e boné.

O povo aprendeu. O partido só aparece quando precisa de voto. Nos outros quatro anos, o povo resolve sozinho a água, a luz, a escola, o hospital.

A meritocracia foi substituída pela lealdade. Este é o desvio mais perigoso. Para subir no partido e no governo, passou a contar mais a lealdade pessoal do que a competência técnica. O ministro não é escolhido porque percebe de agricultura, mas porque é leal.

O administrador não é escolhido porque conhece o município, mas porque é do grupo. Temos governos provinciais geridos por pessoas que não conhecem a província, directores que não conhecem o sector, gestores que não sabem gerir.

Quando a lealdade vale mais que a competência, a incompetência governa. E o povo vê. Vê o hospital sem medicamentos, a escola sem professor, a estrada esburacada, e associa tudo ao partido que governa.

A perda da maioria social

A política é matemática social. O MPLA tinha uma maioria social. Antigos combatentes, funcionários públicos, camponeses, mulheres, jovens do pós-guerra. Essa maioria está a desfazer-se.

A primeira razão é geracional. O jovem de vinte anos de hoje nasceu em 2006. Não viveu a guerra. Não viveu a independência. Não tem dívida moral com o MPLA. Ele julga o partido pelo presente. Tenho emprego? Tenho água? Tenho internet? Tenho futuro?

Se a resposta é não, ele não vota por gratidão histórica. Ele vota por futuro. E o MPLA continua a falar do passado para um jovem que quer futuro.

A segunda razão é urbana. Luanda, Benguela, Huíla, Huambo, são hoje cidades de jovens informados, com telemóvel, com redes sociais, com comparação.

O jovem de Luanda compara-se com o jovem de Lisboa, de Joanesburgo, de Kigali. Ele vê que no Ruanda, um país sem petróleo, há luz, há estrada limpa, há internet barata. E pergunta. Porque é que Angola, com petróleo, não tem? Essa comparação corrói a popularidade mais do que qualquer discurso da oposição.

A terceira razão é eleitoral e factual. Em 2008, o MPLA teve mais de oitenta por cento dos votos. Em 2012, caiu. Em 2017, caiu mais. Em 2022, caiu para pouco mais de cinquenta e um por cento, e perdeu Luanda, a capital, e perdeu a maioria qualificada na Assembleia Nacional.

Isto não é opinião. É número oficial da CNE. Um partido que perde quase trinta pontos percentuais em catorze anos não está a ter um mau momento. Está a ter um declínio estrutural.

O povo não está a pedir que o MPLA desapareça. Está a pedir que o MPLA mude. Mas o partido respondeu ao declínio com mais do mesmo. Mais comícios, mais bandeiras, mais promessas, mais inaugurações. Não respondeu com mudança de método.

A falência está em cinco desvios que se alimentam uns aos outros. O MPLA prometeu libertar o povo e acabou por gerir o povo. Prometeu produzir e acabou por importar. Prometeu formar quadros e acabou por formar leais. Prometeu descentralizar e acabou por concentrar tudo em Luanda. Prometeu combater a corrupção e acabou por conviver com ela, punindo alguns e protegendo outros.

O resultado é uma crise de confiança. O militante já não acredita no discurso. O funcionário já não acredita na promoção por mérito. O empresário já não acredita no Estado. O jovem já não acredita no futuro dentro do partido.

Um partido pode sobreviver sem dinheiro. Pode sobreviver sem comício. Mas não pode sobreviver sem confiança.

O que eu sugiro

Não sugiro que o MPLA acabe. Sugiro que o MPLA se separe do Estado. Que o governo governe para todos, não só para militantes. Que a função pública seja por concurso real, não por cartão.

Que o partido volte a debater, a criticar, a formar quadros com competência, não só com lealdade. Que o partido volte aos bairros fora das eleições, com água, com escola, com solução, não com bandeira.

Que o partido deixe de governar por inauguração e passe a governar por manutenção. Que deixe de prometer Angola 2050 e resolva Angola de hoje. Pão, água, luz, emprego, escola.

O MPLA ainda tem tempo. Tem história, tem estrutura, tem quadros. Mas o tempo está a acabar. A nova geração não vai esperar mais cinquenta anos. Ou o MPLA se reforma por dentro, ou será reformado por fora, pelo voto.

A história não perdoa quem teve tudo para mudar e escolheu não mudar.

*Professor

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