A fome não tem o partido – Carlos Kandanda
A fome não tem o partido - Carlos Kandanda
oma carne

O «drama» das Mamas da OMA, que circulou nas redes sociais, que estavam a disputar um pedaço da carne bovina, como se fossem cães, não é o caso isolado. É a fome que aperta e corrói todas as famílias angolanas.

Quem estiver a andar pelo todo o país terá a percepção exacta da gravidade da fome e da pobreza extrema nas comunidades rurais e urbanas. A carne tornou-se o luxo. Mesmo a classe média, que estava a emergir no tempo do JES, hoje não tem o poder de compra para comer regularmente a carne limpa, fresca e de qualidade.

Pois, a situação da pobreza e da fome em Angola é bastante crítica e desoladora. Vê-se em toda a parte do país crianças, jovens, mulheres, homens e idosos com mãos estendidas a pedirem esmolas, a vascular os contentores de lixo e a zungar desesperadamente pelas ruas em condições extremas de indigência. É um retrato mais acabado da nova escravatura que se manifesta de diversas formas, bem programada pelo partido no poder – MPLA.

No fundo, a pobreza transformou-se num fenómeno generalizado em Angola, que ofende a consciência do homem. Isso está a acontecer num país dotado de imensos recursos naturais, com petróleo e minerais críticos, espelhados por todos os cantos do país.

Custa ver as mamas da OMA naquelas condições desesperadas e furiosas a lutar energicamente pelo um pedaço de carne bovina para acudir os seus filhos famintos que ficaram em casa. Isso estando a acontecer com as militantes de uma organização feminina de um partido político governante, que está no poder há mais de 50 anos.

O mais grave ainda, se trata de um partido político que se apoderou da riqueza do país e tornou-se um Estado. Cujos dirigentes tornaram-se multimilionários, com activos avultados espalhados pelo estrangeiro. Enquanto os seus pacatos membros mendigam pelas ruas – despidos da dignidade.

O que ainda revolta a consciência do homem é o facto de que a dignidade humana se tornou refém da indigência, exposta à manipulação psicológica do poder. Aliás, a consciência do homem tornou-se um objeto da instrumentalização sociopsicológica. Tornou-se um alvo estratégico da manutenção do poder político.

Aquelas mamas da OMA são vítimas do sistema político que elas próprias sustentam inconscientemente, na sua ingenuidade, que resulta da pobreza extrema – a indigência.

Isto não é estranho porque nas ditaduras da Idade Média (do sistema feudal) os Servos eram objetos da Nobreza, que vivia na fartura, que era proprietária de terras e que detinha o poder político e militar. Os “feudos” não eram apenas as fontes de acumulação e concentração de riquezas avultadas, mas eram instrumentos mais poderosos da dominação dos Servos e da manutenção do sistema feudal.

Portanto, na prática, a indigência coloca o ser humano na condição de extrema fragilidade mental, espiritual e material. Pois, perante a penúria o ser humano perde a dignidade, a sensatez, o raciocínio e a coragem. Desvanece, deste modo, o pensamento lógico. Para dizer que, na essência, a doutrina do poder repressivo não alterou em nada desde a Idade Média.

Porque, o espírito de ganância, de opressão e de exploração mantêm-se na mesma. O que mudou são as fórmulas e os métodos de repressão e de dominação. O poder económico continua a ser o fator principal da dominação e da exploração.

Pois, o poder político assenta no poder económico, e este desenvolve a tecnologia, e a tecnologia e o know-how potência o poder militar que assegura o poder político. Tudo isso passa pela educação, pela instrução pela formação técnico-profissional e pelos recursos.

Por isso, o obscurantismo faz parte da doutrina do poder autoritário, que considera a instrução e o progresso como sendo os factores adversos ao poder autocrático. Basta olhar à qualidade da educação em Angola.

Neste âmbito, os regimes autoritários, como MPLA, apostam-se na manutenção da pobreza e do atraso como instrumentos mais eficazes da manutenção do poder político. Porque, quanto mais pobre for uma sociedade, mais submissa que ela se torna. Uma pessoa indigente, isto é, faminta, não tem o tempo e o ânimo de pensar e de julgar as coisas simples. Ela fica cativa da sua condição de pobreza. Rende-se facilmente à mesquinhez e à mediocridade.

Quando olharmos atentamente ao contexto actual de Angola torna-se mais fácil constatar este fenómeno de manter o país no atraso, na pobreza extrema e no obscurantismo. Para este efeito, existe uma política bem definida e concebida neste respeito, que alimenta a corrupção desenfreada e a fuga de capitais em grande escala.

O poder económico ficou um monopólio de uma casta que controla todos os meios de produção. O «Programa Kwenda», financiado pelo Banco Mundial, é o retrato mais evidente do uso da indigência como instrumento político da manipulação da consciência das pessoas.

O «Programa Kwenda» coloca as comunidades locais nas condições extremas de dependência, de mendicidade, de humilhação, de escravatura mental e da instrumentalização política. As principais vítimas da instrumentalização política são as mulheres, através da OMA, que estão metidas da disputa desesperada pelo um pedacinho da carne bovina.

Paradoxalmente, o «estatuto político» das Mamas da OMA não altera o «estatuto social de pobreza» de muitas dessas mulheres entusiastas, que se encontram na indigência extrema; tornando-se objetos simples da manipulação política do regime.

Lembremo-nos das maratonas de cervejas, promovidas pelo MPLA, onde a juventude, homens e mulheres eram induzidas nas bebedeiras excessivas, nas drogas (liamba), na prostituição, na criminalidade, no contrabando e na escravatura branca. Tudo isso fazia parte da agenda política da manutenção do poder político através da intoxicação política e da alienação mental.

Por analogia, nota-se nitidamente o «desgaste mental» nos rostos das mamas da OMA que estiveram fechadas numa disputa violenta pelo pedaço da carne bovina.

Este cenário triste agrada os promotores da ditadura. Porque, na prática, isso tem o efeito psicológico tremendo sobre as pessoas que estão totalmente cativas.

Repare que, a indigência é o fator social destrutivo, que coloca a pessoa humana na desgraça e na subordinação. Esta condição social tem duas vertentes opostas: Por um lado, a subjugação do homem. Por outro lado, desperta a consciência do homem e conduz-lhe a uma revolução. Foi sempre assim ao longo da História da Humanidade.

Em síntese, a fome não tem o partido. A pobreza em Angola é generalizada, afetou a maioria esmagadora do povo angolano. A riqueza está concentrada nas mãos de uma

pequena minoria da nomenclatura do MPLA. A indigência é um instrumento político para a manutenção do poder autoritário. A classe dos ricos tem medo de perder a sua riqueza fabulosa acumulada ilicitamente ou de modo inapropriado.

Logo, o combate à indigência (pobreza extrema) passa necessariamente por um processo global da reestruturação do sistema político angolano. Não passa, de modo nenhum, pelo combate seletivo contra os capitalistas selvagens.

Pelo contrário, passa pela integração e pelo investimento no mercado nacional de todo o capital angolano que se encontra no estrangeiro de modo a desenvolver o país, fomentar a riqueza e promover o bem-estar de todos – sem discriminação alguma.

Para chegar até ali, é preciso a tomada de consciência de que existe o obscurantismo que ofusca a consciência patriótica de muita gente que são vítimas da manipulação psicológica ou da corrupção mental através de um pedaço de carne, de um saco de fubá, de um quilo de cabuenha, de um pedaço de sabão ou através de maratonas alcoólicas.

Trazer a luz eléctrica a uma fazenda (que é o direito constitucional) de um capitalista selvagem foi uma forma decisiva da lavagem de cérebro. Tudo isso faz parte da estratégia da manutenção do poder.

Portanto, as Mamas da OMA, que disputaram furiosamente pedaços da carne bovina, são vítimas da pobreza e da instrumentalização política. Elas merecem a dignidade, a solidariedade e a compreensão da sociedade.

Porque, de facto, elas carecem da emancipação e da autodeterminação que passam necessariamente pela mudança democrática em 2027 através da união e da conjugação de forças e de sinergias de toda gente – numa Frente Patriótica Unida.

*Antigo deputado à Assembleia Nacional

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