
Há acontecimentos que surpreendem muitos e deixam outros tantos com aquele ar de quem já esperava o inevitável. O MPLA começa a mexer-se, ou melhor, a desdobrar-se. A substituir rostos sem substituir práticas. A trocar peões e bispos, mas mantendo o mesmo rei.
A substituição de Carolina Cerqueira por Adão de Almeida na presidência da Assembleia Nacional é apenas mais uma jogada ensaiada no velho tabuleiro do poder.
O Bureau Político anunciou com pompa e circunstância o que, na prática, soa como uma nota de rodapé: a rotação previsível das mesmas figuras que orbitam o sistema há décadas.
Mas há quem veja nisto o início de um novo capítulo. Uma espécie de “prévia” do que o partido prepara para o congresso de 2026 e, claro, para a grande encenação de 2027.
O MPLA, ao que parece, começa a mostrar as cartas que há muito guarda na manga , ainda que as cartas sejam as mesmas, apenas com o baralho embaralhado.
Adão de Almeida, dizem, é um nome forte. Um jurista competente. Um quadro formado, disciplinado, leal. Tão leal que parece não se mover sem que o “chefe” acene. Foi vice-ministro do MAT, depois ministro, depois ministro de Estado da Casa Civil.
Em suma, o homem que conhece a engrenagem por dentro e que, segundo os mais atentos, poderá ser o “veículo de continuidade” de João Lourenço quando este se vir impedido pela Constituição de concorrer outra vez.
Lá fora, a história tem lições semelhantes. Vladimir Putin, por exemplo, já fez esta coreografia: passou o poder a Medvedev, tirou férias do trono e depois regressou com a legitimidade “democrática” restaurada. Xi Jinping estudou o manual e decidiu eliminá-lo de vez, para quê correr o risco de precisar de marionetes se pode eternizar-se ele próprio?
O MPLA, sempre bom aluno da escola dos “estrategas do poder perpétuo”, parece ensaiar a sua versão tropical do mesmo enredo. O nome pode mudar, mas o ADN é o mesmo: preservar o controlo, não o projeto nacional.
Mas eis a pergunta que se impõe: quem é Adão de Almeida, para além do “homem de confiança” do Presidente? O cidadão comum sabe o quê sobre ele? Quais são as suas obras, além das palavras?
A sua folha de serviço é discreta, técnica, funcional. Um jurista competente, sim. Um gestor público eficaz – talvez. Um líder com visão transformadora – silêncio.
A política angolana tem esse vício crônico: o de confundir tecnocracia com liderança, fidelidade com mérito e lealdade com patriotismo.
O MPLA tem um “dedo podre” para escolher os seus herdeiros, basta lembrar que João Lourenço surgiu como o “reformista possível”, o homem que ia romper com o sistema de José Eduardo dos Santos.
Resultado: em pouco tempo, transformou-se na continuação aperfeiçoada do mesmo sistema, com menos brilho e mais rancor.
O problema, caro leitor, não é a troca de nomes, é o vazio de propósito. É a crença de que mudar o porta-voz muda a mensagem. Como diria Sun Tzu, “a tática sem estratégia é o ruído antes da derrota”. E o MPLA faz muito ruído.
De 2022 para cá, o recado do eleitorado foi inequívoco: há distância entre o poder e o povo. Mas em vez de corrigir o rumo, o partido prefere mudar de motorista, mantendo o mesmo carro, o mesmo mapa e o mesmo destino.
Enquanto isso, a oposição se reorganiza, o país se desilude, e a juventude aprende a emigrar mais depressa do que aprende a votar.
Adão de Almeida pode até ser um homem sério, mas a seriedade num sistema viciado é como jogar xadrez com peças que obedecem ao rei e não às regras.
A história mostra que os impérios que se recusam a mudar por dentro acabam por ser mudados por fora. O MPLA deveria reler Maquiavel, que avisava: “Nada é mais difícil de executar, mais perigoso de conduzir, ou mais incerto no seu êxito, do que iniciar uma nova ordem das coisas.”
O perigo, porém, é que em Angola ninguém quer iniciar nada de novo. Querem apenas que o velho pareça novo e que o povo aplauda.
Mas há um limite para a encenação. Em 2027, o tabuleiro volta ao povo. E se o jogo continuar a ser o mesmo, talvez o rei descubra, tarde demais, que o xadrez também tem xeque-mate.
*Jornalista