
O sonho da casa própria transformou-se num pesadelo para mais de uma centena de cidadãos angolanos que acusam dois conhecidos rostos do associativismo juvenil de liderarem um esquema milionário de burla envolvendo falsas promessas de atribuição de residências na Centralidade da Vida Pacífica.
No centro das denúncias estão Mário Fernandes, presidente da UNE-Angola, e Paulo Lemos, antigo primeiro-secretário da JMPLA no Cazenga, ambos acusados de usar influência política e proximidade ao poder para extorquir milhões de kwanzas a cidadãos desesperados por uma habitação.
Segundo relatos recolhidos junto das vítimas, os dois terão aproveitado das suas organizações juvenis ligadas ao Conselho Nacional da Juventude (CNJ) para montar um esquema de “venda” de casas em centralidades do Estado, prometendo facilidades de acesso mediante pagamentos avultados.
As informações apontam que Mário Fernandes terá recebido dinheiro de mais de 50 pessoas, abusando da relação que tinha com Isaías Kalunga para apresentar-se como intermediário privilegiado no processo de atribuição de residências.
Fontes do Imparcial Press afirmam que, quando o esquema começou a gerar suspeitas, Isaías Kalunga decidiu afastar Fernandes das estruturas próximas do CNJ. Porém, nessa altura, dezenas de vítimas já tinham entregue dinheiro na expectativa de receber uma casa.
O escândalo atingiu tal dimensão que Mário Fernandes chegou a ser detido durante 15 dias, após ser localizado na Clínica Girassol. Foi libertado posteriormente mediante o compromisso de reembolsar os lesados, embora continue, segundo as vítimas, sem regularizar grande parte das dívidas.
Estimativas apontam para prejuízos superiores a 90 milhões de kwanzas apenas no núcleo ligado ao líder da UNE-Angola.
Já Paulo Lemos chegou de burlar cerca de 47 pessoas num esquema semelhante, arrecadando mais de 60 milhões de kwanzas com promessas de entrega de apartamentos.
Sob pressão crescente das vítimas, Paulo Lemos terá sido obrigado a vender uma viatura Suzuki Express cinzenta, oferecida por um alto dirigente do Bureau Político do MPLA, numa tentativa de amortizar parte da dívida.
Posteriormente, depois dos casos virem a tona, os dois burladores foram afastados do CNJ. Insatisfeitos, decidiram tentar se infiltrar em novos processos de distribuição habitacional, incluindo projectos em curso na centralidade KK5800, no Kilamba.
As mesmas fontes revelam ainda que Mário Fernandes e Paulo Lemos estarão agora a articular movimentações internas com o objectivo de afastar a actual liderança do CNJ, com falsas acusações, e reassumir influência dentro da organização juvenil.
O plano passaria por controlar futuras quotas de habitações atribuídas ao CNJ nas centralidades do Estado, numa tentativa de utilizar novos processos habitacionais para liquidar as dívidas acumuladas junto dos lesados.
Entretanto, informações recolhidas pelo Imparcial Press indicam que os dois implicados estarão actualmente a ser procurados pelas autoridades, no âmbito das investigações relacionadas com os crimes de burla por defraudação e associação criminosa.
O caso está a gerar revolta entre os lesados, muitos dos quais afirmam ter vendido bens, contraído empréstimos bancários ou hipotecado património familiar para conseguir os valores exigidos pelos supostos intermediários.
O advogado Nsimba Kingombo, representante de várias vítimas, acusa o Serviço de Investigação Criminal (SIC) de lentidão no tratamento do caso e alerta para o risco de continuidade das burlas enquanto os suspeitos permanecerem em liberdade.
“Há pessoas que continuam a invocar influências políticas e institucionais para alimentar falsas promessas”, denunciou o jurista.
Entretanto, Mário Fernandes admite existirem dívidas relacionadas com promessas de casas na Vida Pacífica, alegando estar a efectuar pagamentos progressivos aos lesados. Segundo o próprio, ainda restam cerca de 48 pessoas por indemnizar.