Bestfly enfrenta constrangimentos operacionais e financeiros após expansão internacional
Bestfly enfrenta constrangimentos operacionais e financeiros após expansão internacional
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A companhia angolana Bestfly atravessa um período de constrangimentos operacionais, regulatórios e financeiros, depois de uma fase de forte expansão internacional que levou o grupo a estabelecer operações ou presença em mercados como Cabo Verde, Aruba, Áustria e Portugal.

Criada em 2009, a Bestfly começou por actuar no mercado angolano de aviação executiva, handling e voos charter, tendo posteriormente alargado a actividade à gestão de aeronaves, transporte de passageiros e operações ligadas ao sector petrolífero.

A própria empresa apresenta-se como uma das principais operadoras de aviação executiva em Angola e afirma ter alcançado, nos primeiros anos de actividade, uma posição de liderança no segmento de business aviation.

A expansão levou o grupo a adquirir participações e empresas fora de Angola. Entre os movimentos mais relevantes esteve a aquisição da austríaca MS Aviation, em 2023, numa operação apresentada pela Bestfly como parte da estratégia de expansão europeia.

Na altura, o grupo dizia operar uma frota de 27 aeronaves, incluindo jactos executivos, helicópteros e aviões comerciais, e estar presente em vários mercados.

Entretanto, diferentes operações associadas ao grupo enfrentaram dificuldades.

Em Cabo Verde, a Bestfly assumiu em 2021 o controlo da Transportes Interilhas de Cabo Verde (TICV), com uma participação de 70%, ficando os restantes 30% nas mãos do Estado cabo-verdiano.

A Agência de Aviação Civil de Cabo Verde (AAC) suspendeu, em Abril de 2024, o certificado de operador aéreo e a licença de exploração da TICV, invocando incumprimento de requisitos regulamentares e degradação da capacidade financeira da empresa.

A própria AAC esclareceu posteriormente que não existia uma companhia aérea juridicamente denominada Bestfly Cabo Verde, sendo a operação realizada pela TICV.

A autoridade referiu ainda que uma aeronave anteriormente associada à operação tinha sido retirada do registo cabo-verdiano a pedido do proprietário, passando a estar registada em Aruba.

A experiência cabo-verdiana tornou-se um dos principais episódios da expansão internacional da Bestfly a levantar dúvidas sobre a capacidade operacional do grupo.

Em 2024, a empresa anunciou o abandono das operações no arquipélago, depois de um período marcado por interrupções e indisponibilidade de aeronaves.

Mais recentemente, em Aruba, a Bestfly Aircraft Management Aruba deixou de possuir um certificado de operador aéreo. O certificado foi suspenso em 5 de Maio de 2026 e revogado em 11 de Maio pela autoridade aeronáutica local, que justificou a intervenção com questões relacionadas com segurança e supervisão do cumprimento das regras.

A Bestfly apresentou, contudo, uma versão diferente sobre a sequência dos acontecimentos, afirmando que tinha decidido cessar as operações ao abrigo do certificado e que solicitou a sua retirada em 8 de Maio.

Segundo os fundadores Nuno e Alcinda Pereira, o pedido foi aceite pelo ministro dos Transportes de Aruba em 11 de Maio.

A consequência foi a passagem de aeronaves anteriormente utilizadas em operações comerciais para operações privadas.

De acordo com os dados especializados de aviação, a unidade de Aruba tinha operado diferentes aeronaves, incluindo jactos executivos e aeronaves utilizadas em voos ligados ao sector do petróleo e gás.

Na Europa, a Bestfly esteve também associada a um processo que pretendia a aquisição de uma participação maioritária na Azores Airlines, através de um consórcio com o grupo português Newtour e a MS Aviation.

O processo acabou por enfrentar fortes reservas. Uma auditoria de due diligence realizada pela consultora Kroll a pedido da SATA identificou, segundo documentação divulgada pelo jornal ECO, alegadas questões relacionadas com a idoneidade profissional, operacional e financeira do grupo Bestfly.

O relatório mencionava ainda dificuldades em estabelecer a estrutura accionista de algumas empresas do grupo, devido à informação limitada disponível em determinados mercados.

O consórcio rejeitou as acusações e contestou as conclusões relativas à estrutura accionista, afirmando ter apresentado a identificação dos accionistas das sociedades envolvidas.

O processo de privatização da Azores Airlines acabou por não avançar nos termos inicialmente previstos, embora tenham posteriormente surgido novas tentativas de reconfiguração do consórcio.

A situação da Bestfly na Europa inclui ainda restrições à operação de uma das empresas do grupo. A Bestfly Aircraft Management aparece na lista de segurança aérea da União Europeia, estando sujeita às limitações aplicáveis às transportadoras certificadas pela autoridade aeronáutica angolana.

Em Angola, o grupo construiu uma parte importante da sua actividade em torno da aviação executiva e de contratos empresariais, incluindo operações para o sector petrolífero.

Em 2022, a Bestfly anunciou um investimento de cerca de 52 milhões de dólares na aquisição de quatro helicópteros Leonardo AW169 para um contrato de oito anos com a Chevron, tendo recorrido a financiamento bancário para parte do investimento.

Dados recentes de acompanhamento da frota indicam, contudo, uma redução significativa da disponibilidade de aeronaves. A publicação especializada ch-aviation refere que a Bestfly retirou de operação os dois ATR 72-600 que operava em Angola, enquanto um ATR 72-600 associado à operação de Cabo Verde permanece armazenado.

A mesma publicação assinala que não era claro, à data da sua actualização, se a Bestfly mantinha aeronaves activas em operação comercial em Angola.

A situação contrasta com a dimensão que o grupo procurou alcançar nos últimos anos. Em 2023, a Bestfly apresentava uma presença internacional que abrangia Angola, Cabo Verde, Portugal, Áustria, Aruba, Emirados Árabes Unidos, República do Congo, Guiana e Senegal, com uma frota diversificada destinada a operações de aviação executiva, charter, gestão de aeronaves e transporte comercial.

Os problemas operacionais surgem igualmente num contexto de referências a dificuldades financeiras e a cobranças de credores, incluindo bancos, segundo informações divulgadas recentemente.

A existência de dificuldades em determinadas operações não significa, por si só, que o grupo esteja insolvente ou tenha cessado a actividade. A Bestfly mantém presença empresarial em Angola e continua associada ao segmento de aviação privada e de serviços aeronáuticos.

A trajectória da companhia revela, contudo, um movimento de expansão rápida seguido de uma retracção em alguns dos mercados onde procurou estabelecer operações próprias.

Cabo Verde deixou de ser uma plataforma operacional da empresa, Aruba abandonou recentemente o seu certificado de operador aéreo e a tentativa de entrada no capital da Azores Airlines ficou marcada por reservas sobre a capacidade financeira e a idoneidade do grupo, ainda que estas tenham sido contestadas pelo consórcio.

A redução da frota operacional e os constrangimentos regulatórios em diferentes jurisdições colocam agora a Bestfly perante o desafio de reorganizar a sua actividade e concentrar recursos nos segmentos onde mantém capacidade de operação.

Contactada para esclarecer a actual situação financeira, o número de aeronaves efectivamente operacionais e a eventual existência de processos de cobrança ou litígios com credores, a Bestfly não apresentou, até ao momento da publicação, informação adicional que permita avaliar a dimensão global dos constrangimentos.

O quadro actual contrasta com a estratégia anunciada pela companhia nos últimos anos, quando a expansão internacional e a diversificação da frota eram apresentadas como pilares do crescimento do grupo.

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