
Quando grupos de homens de camuflado verde e de caras tapadas começaram a entrar às centenas no Donbass, poucos acreditaram que se tratava de militares russos a preparar uma guerra pelo território ucraniano.
A propaganda do Kremlin tinha trabalhado de forma incansável para convencer a opinião pública ocidental de que o conflito era apenas uma “guerra civil” entre a população russófona e o “regime corrupto de Kiev”. E teve sucesso: o apoio internacional às Forças Armadas ucranianas foi praticamente inexistente.
Mas o que para a Ucrânia era o início de um longo e sangrento conflito que dura até aos dias de hoje, para outros foi uma oportunidade de ouro. Foi o que aconteceu ao empresário búlgaro Emilian Gebrev. Era o homem certo no momento certo.
As forças ucranianas desesperavam por munições de calibre soviético e as suas fábricas eram das poucas com capacidade para as produzir em quantidades suficientes, tal como já tinha feito em 2008 para armar a Geórgia quando as forças russas invadiram.
O que o empresário não previu foi que, ao disputar este mercado e armar o inimigo de Moscovo, acabaria por colocar o seu nome na lista de alvos do mais perigoso braço dos serviços secretos russos: a Unidade 29155.
Quem se cruza com ele na rua, mal dá pela sua presença. É o típico homem búlgaro na casa dos 60, calvo, com barba branca por fazer, que prefere a informalidade das t-shirts aos fatos e conduz o seu próprio carro.
Só que o ar descontraído esconde uma vida forjada na queda da União Soviética e com a ascensão de um verdadeiro império num ramo tão controverso quanto perigoso.
Nascido em 1954 e formado em engenharia mecânica com especialização em armamento, Emilian Gebrev aprendeu tudo o que sabe sobre a indústria do armamento a trabalhar para a Kintex, a opaca empresa estatal de exportação de armas do regime comunista búlgaro.
Um império a abater
Para muitos, a queda do bloco soviético foi sinónimo de ruína. Para Gebrev, foi o passaporte para o topo do mercado bélico. Decidido a proteger o setor militar nacional, o novo governo búlgaro bloqueou a entrada de compradores russos e distribuiu licenças de exportação a quadros locais de confiança.
O empresário aproveitou a brecha e fundou a EMCO em 1992, adquirindo fábricas e instalações estratégicas de armazenamento de munições por todo o país.
Ao longo das duas décadas seguintes, transformou a empresa num gigante do setor, capaz de disputar concursos internacionais e roubar clientes estratégicos de Moscovo, seja na Índia, na Geórgia ou na Ucrânia.
Só que para o Kremlin, o mercado de armamento não é apenas uma enorme fonte de rendimento para o Estado, mas também um importante instrumento de influência geopolítico. E este é um mercado que Vladimir Putin vê como fundamental para as suas ambições.
O primeiro choque entre a ambição de Moscovo e o empresário aconteceu em 2008, com a invasão russa da Geórgia. Gebrev comprometeu-se a fornecer a Tbilisi as munições de calibre soviético que precisava. Para o Kremlin, uma linha tinha sido cruzada.
Em novembro de 2011, um paiol da EMCO na aldeia búlgara de Lovnidol foi palco de uma enorme explosão. Mais de três mil projéteis de artilharia prontos para envio ficaram reduzidos a cinzas.
A empresa emitiu imediatamente um comunicado onde afirmava que as munições lá armazenadas não se “destinavam à exportação, incluindo para a Geórgia”.
No local, os peritos descobriram indícios claros de engenhos explosivos acionados à distância, mas a justiça búlgara, ainda debaixo da pesada influência russa, acabou por arquivar o processo por alegada “falta de provas”.
Anos mais tarde, esta seria considerada oficialmente a primeira operação de sabotagem dos serviços secretos russos num país da NATO após a queda da União Soviética.
Mas as explosões não travaram Gebrev. Quando os “pequenos homens verdes” entraram no Donbass em 2014, o empresário viu na Ucrânia uma oportunidade ainda maior.
Com os receios de que o Kremlin poderia monitorizar os carregamentos, a EMCO montou um esquema para evitar ser apanhada, documentando formalmente os carregamentos de munições de artilharia com destino à Tailândia para as fazer chegar às trincheiras ucranianas.
Isso não foi suficiente para despistar o olhar atento dos espiões russos e a resposta de Moscovo foi rápida. Meses depois, os depósitos que guardavam armamento da EMCO em Vrbětice, na Chéquia, foram destruídos.
O ataque chocou o país, ao provocar a morte de dois cidadãos checos, desencadeando uma das crises de segurança mais graves da história do país.
As investigações oficiais concluíram o envolvimento direto da Unidade 29155, uma unidade militar secreta russa, levando Praga a expulsar dezoito diplomatas identificados como espiões de Moscovo e a acusar abertamente o Kremlin de terrorismo de Estado.
A gota de água
Gebrev já sabia que estava na mira do Kremlin, mas a situação estava prestes a piorar. Em 2015, faliu o banco que detia a Dunarit, uma das maiores fábricas de munições e explosivos da Bulgária.
Ao mesmo tempo, Konstantin Malofeev, um oligarca russo próximo de Vladimir Putin e sancionado pelo Ocidente, preparava-se para assumir o seu controlo desta empresa estratégica através de uma jogada de bastidores, desenhando um memorando confidencial para assumir o controlo da Dunarit e de outros ativos búlgaros estratégicos por uma fração do seu valor real.
Emilian Gebrev interveio diretamente no processo, injetando capital para cobrir dívidas da Dunarit e notificando os reguladores de que a EMCO iria comprar a fábrica.
Esta movimentação travou a transferência para a empresa russa de fachada, frustrando a tentativa da Rússia de se apoderar do maior polo de produção de explosivos e munições pesadas da Bulgária.
Era a gota de água para o Kremlin. A sabotagem das fábricas e dos paióis do magnata já não chegavam, Moscovo queria livrar-se dele permanentemente.
A operação para eliminar o empresário foi posta em marcha logo em abril de 2015. Sob o pseudónimo “Serguei Fedotov” – o mesmo utilizado pelos serviços secretos russos na tentativa de homicídio do antigo espião Sergei Skripal – o oficial dos serviços secretos russos Denis Sergeev aterrou discretamente em Sófia, para chefiar uma equipa de três homens da Unidade 29155.
O grupo instalou-se no Hill Hotel, diretamente à frente dos escritórios da EMCO, onde pediram explicitamente quartos com vista direta para a garagem do prédio. Durante dias, o grupo estudou as rotinas de Gebrev e de outras pessoas fundamentais para a empresa.
No final do mês, surge o primeiro sinal de que algo não estava bem. Sem qualquer razão aparente, o olho direito de Gebrev começou a arder com a sensação que o próprio acabou por descrever como se alguém lhe tivesse despejado “um balde de areia” no olho.
“Ficou tão vermelho como a bandeira russa”, admitiu aos jornalistas. No entanto, o empresário desvalorizou o desconforto, atribuindo-o ao cansaço de uma rotina de trabalho elevada.
No dia seguinte, Gebrev dirigiu-se ao 19.º andar do luxuoso Hotel Marinela, onde há um dos restaurantes favoritos da elite búlgara, famoso pela excentricidade. A meio de um jantar com vários parceiros de negócios, começou a vomitar violentamente e começou a ver explosões de cores vívidas e intensas, até, de um momento para o outro, ver a sua visão ficar totalmente preta e branca.
Transportado de urgência para o hospital militar da capital, Gebrev entrou num estado crítico de delírio e alucinações. Enquanto o seu organismo entrava em colapso, a mente via-se cercada pelo que Gebrev descreveu de criaturas monstruosas que o tentavam agarrar e arrastar para a escuridão.
“Pelos meus cálculos, visitei o além três vezes. Os médicos disseram que quase me perdiam”, recordou aos jornalistas.
Nos dias seguintes, tanto o filho, Hristo Gebrev, como Valentin Tahchiev, diretor de produção da EMCO, deram entrada no mesmo hospital com os mesmos sintomas.
O ataque da Unidade 29155 não era pessoal. Não bastava eliminar o dono da empresa, era preciso acabar com o herdeiro e com o braço direito de Gebrev. Assim, ninguém restaria para assinar contratos e manter a produção de armamento a continuar a escoar para fora da Bulgária.
Desvendar o mistério
Durante um mês inteiro nos cuidados intensivos, os médicos lutaram para manter os três homens vivos, incapazes de identificar a substância que quase lhes paralisava os órgãos vitais. Mas num país com um longo historial de ajustes de contas e assassínios por encomenda, a comunicação social quase ignorou o caso.
Ainda assim, a família Gebrev conseguiu escapar, tendo alta hospitalar mais de um mês depois. Emilian decidiu ir com o filho para a casa de férias da família, nas margens do Mar Negro, para recuperar. Mas os agentes russos ainda não tinham desistido.
Poucos dias após a chegada à casa de férias, Gebrev e Hristo começaram novamente a sentir os mesmos sintomas. Desta vez, ainda assim, eram menos intensos.
Em vez de chamarem os serviços de emergência locais, pai e filho meteram-se no carro e conduziram de volta à capital búlgara para dar entrada no mesmo hospital militar onde tinham estado internados semanas antes.
Apesar de dois ataques sucessivos e das suspeitas evidentes de crime coordenado, as autoridades búlgaras garantiram que não encontraram qualquer pista que apontasse para uma operação estrangeira.
Sem respostas do Estado, Gebrev enviou amostras para o prestigiado laboratório finlandês Verifin, que detetou na sua urina vestígios de compostos químicos semelhantes a pesticidas organofosforados, embora a fórmula exata tenha permanecido um mistério.
Incapaz de identificar o veneno e sem vontade política de melindrar Moscovo, o Ministério Público búlgaro arquivou o processo por “falta de provas”.
Foi preciso esperar até 2018 para o caso ser reaberto, quando ocorreu o caso que atingiu o antigo espião Sergei Skripal e a filha Yulia, que foram envenenados com Novichok em Salisbury, Inglaterra.
Um cruzamento de dados dos serviços de segurança e do grupo de investigadores Bellingcat revelou os registos de viagens dos operacionais das secretas militares russas e identificaram um nome comum em ambos os casos: “Sergei Fedotov”, o pseudónimo do coronel Denis Sergeev.
A revelação forçou a Bulgária a reabrir o inquérito e a analisar velhas imagens de videovigilância, descobrindo finalmente um homem bem vestido a espalhar veneno nos puxadores dos carros da EMCO na garagem de Sófia.
Mas a exposição das atividades russas em solo búlgaro não travou os ataques contra a empresa. Ao longo dos anos, a EMCO continuou debaixo de fogo de forma recorrente.
As instalações da empresa voltaram a ser palco de detonações misteriosas, desde as explosões em paióis perto de Karnobat, em 2022 e 2023, em períodos críticos do conflito na Ucrânia, até às detonações de agosto de 2026 na fábrica de Belitsa, que forçaram a retirada de centenas de operários.
Quase uma década após ter escapado à morte por duas vezes, Emilian Gebrev continua a ser uma pedra no sapato de Moscovo. Recuperado fisicamente, o magnata de 70 anos continua a recusar andar com seguranças armados e insiste em conduzir o próprio carro pelas ruas de Sófia. Ainda assim, a tranquilidade nunca regressou por completo.
Sem certezas absolutas sobre se foi traído por rivais locais ou visado diretamente pelo topo do Kremlin, Gebrev prefere desvalorizar a sua própria importância geopolítica com algum humor.
“Seria o homem mais feliz do mundo se o envenenamento nunca tivesse acontecido e eu apenas me tivesse sentido mal por comer uma rúcula estragada. Não me vejo como alguém tão importante para que tentassem matar-me”, admite.
in CNN Portugal