
As recentes declarações da Sonangol, a assegurarem que o país dispõe de combustível suficiente para abastecer todas as províncias, surgem num momento de grande agitação nos postos de abastecimento.
A empresa sustenta que o problema não reside na falta de gasolina ou gasóleo, mas sim em constrangimentos relacionados com as manobras de distribuição e na corrida aos postos, provocada por rumores de uma eventual subida do preço dos combustíveis.
Embora a explicação apresentada procure tranquilizar a população, a realidade observada pelos cidadãos revela um cenário diferente. Em várias cidades, sobretudo nos grandes centros urbanos, as enchentes nas bombas de combustível tornaram-se evidentes, criando um ambiente de incerteza, nervosismo e desconfiança.
E quando o consumidor permanece horas numa fila para conseguir abastecer, torna-se difícil convencê-lo de que não existe qualquer problema de abastecimento.
É precisamente nesta contradição entre a informação oficial e a percepção prática da população que reside um dos maiores desafios das instituições públicas e das empresas estratégicas do país, que é a comunicação.
E o caso da Sonangol é apenas um exemplo do grande trabalho que precisa ser feito e da atenção necessária a nível da comunicação institucional. Não basta garantir que há combustível disponível. É, igualmente, necessário que essa informação seja acompanhada por mecanismos eficazes de esclarecimento, transparência e proximidade com os cidadãos.
A Sonangol afirma desconhecer qualquer decisão sobre o aumento do preço dos combustíveis e apelou à comunicação social para ajudar a combater a especulação.
Contudo, o vazio de informação consistente e preventiva acaba muitas vezes por alimentar exactamente os rumores que a empresa quer combater.
Em contextos de instabilidade económica e de constante discussão sobre a retirada gradual dos subsídios aos combustíveis, o silêncio institucional pode transformar-se em terreno fértil para especulações.
A população reage às informações oficiais, mas também aos sinais do quotidiano. Se os postos apresentam rupturas temporárias, atrasos na distribuição ou limitações de abastecimento, o cidadão interpreta isso como indício de escassez iminente.
E perante o receio de ficar sem combustível, instala-se o comportamento colectivo de corrida aos postos, agravando ainda mais a pressão sobre o sistema de distribuição.
Neste caso, o problema pode até não ser a inexistência de combustível em stock, como garante a Sonangol, mas a incapacidade de assegurar que o produto chegue de forma regular, rápida e eficiente aos postos de abastecimento.
Para o consumidor comum, pouco importa se a dificuldade está no armazenamento, na logística ou na distribuição. O que ele sente é a dificuldade concreta de abastecer o seu veículo.
Por isso, torna-se urgente melhorar o relacionamento entre as empresas prestadoras de serviços essenciais e o público beneficiário. A comunicação institucional não deve surgir apenas em momentos de crise ou para reagir a rumores. Deve ser contínua, pedagógica e transparente. Os cidadãos precisam sentir que recebem informações claras, credíveis e atempadas.
As empresas, sobretudo as de maior importância estratégica na economia nacional, devem assumir um papel ainda mais activo na construção dessa relação de confiança com a sociedade.
Explicar detalhadamente as dificuldades logísticas, informar sobre os planos de distribuição e actualizar regularmente o público sobre a situação real dos combustíveis ajudaria a reduzir a ansiedade colectiva e evitar comportamentos de pânico.
Por outro lado, também os órgãos de comunicação social têm uma responsabilidade acrescida. O combate à desinformação exige rigor, verificação dos factos e compromisso com o interesse público.
Entretanto, esse esforço só produzirá resultados efectivos se existir abertura institucional para fornecer dados concretos e acessíveis.
*Director-executivo adjunto de Conteúdos