
O Presidente angolano, João Lourenço, lançou um alerta contundente sobre a grave crise financeira que afecta o Secretariado da Conferência Internacional para a Região dos Grandes Lagos (CIRGL), afirmando que a instituição enfrenta dificuldades tão severas que colocam em causa a sua sustentabilidade e até mesmo a sua existência.
As declarações foram proferidas este sábado, em Kinshasa, durante a 9.ª Cimeira da organização, num momento marcado pela transição da presidência de Angola para a República Democrática do Congo.
João Lourenço lamentou que, apesar da vontade política e dos esforços feitos ao longo do mandato angolano, de cinco anos, as reformas estruturais consideradas essenciais para o fortalecimento da CIRGL não puderam avançar precisamente devido ao quadro financeiro crítico.
Segundo o Chefe de Estado, os atrasos prolongados no pagamento das quotas por parte de vários Estados-membros comprometeram o funcionamento do Secretariado, limitando capacidades operacionais e paralisando iniciativas prioritárias.
“Apelamos ao engajamento dos Estados-membros no cumprimento das suas contribuições financeiras, liquidando as dívidas junto da Organização, para sanar a crise financeira em que se encontra e permitir que a CIRGL cumpra com as suas obrigações”, alertou.
O Presidente sublinhou que o momento exige responsabilidade colectiva, sob pena de a organização perder relevância numa altura em que se torna indispensável reforçar a coordenação entre os mecanismos regionais, as comunidades económicas e a União Africana.
Nesse sentido, defendeu uma revisão profunda do Pacto da CIRGL, propondo que, no processo de reconhecimento formal como Mecanismo Regional da União Africana, se aproveite para redefinir o seu campo de actuação.
Para João Lourenço, a CIRGL deve recentrar-se na resolução de conflitos – a sua vocação original – evitando sobreposições com comunidades económicas regionais e tornando mais claro o seu papel estratégico no continente.
Apesar das dificuldades financeiras, João Lourenço destacou que a presidência angolana alcançou resultados “assinaláveis”, sobretudo nos dossiês de paz e segurança.
Entre os progressos apresentados contam-se o Roteiro Conjunto para a Paz na República Centro-Africana, a advocacia que permitiu o levantamento do embargo de armas sobre este país, o avanço de negociações no conflito no Leste da RDC, encontros ministeriais entre RDC e Ruanda, a apresentação de um projecto de acordo de paz e a implementação de vários mecanismos de verificação e cessar-fogo.
O estadista recordou ainda os contributos no domínio social, incluindo o Fórum de Alto Nível das Mulheres da Região dos Grandes Lagos, realizado em Luanda em 2024, reforçando o papel da mulher nos processos de paz e a importância da implementação do Plano de Acção Regional sobre a Resolução 1325 da ONU.
A 9.ª Cimeira da CIRGL decorre este sábado, em Kinshasa, e marca o fim do mandato angolano, com João Lourenço a transferir a presidência para o Presidente Félix Tshisekedi, da República Democrática do Congo.
O novo ciclo inicia-se sob o peso de um alerta claro: sem estabilização financeira, a CIRGL arrisca perder capacidade de acção num dos períodos mais sensíveis da região dos Grandes Lagos.