
A província do Cunene enfrenta novas dificuldades no abastecimento de combustíveis, com longas filas nos postos de Ondjiva e automobilistas a relatarem esperas que podem prolongar-se por vários dias, numa situação que começa a afectar o transporte de passageiros, a circulação de mercadorias e a actividade económica local.
Segundo relatos recolhidos na cidade, a escassez de gasolina e gasóleo prolonga-se há várias semanas, levando motoristas e mototaxistas a permanecerem durante horas – e, em alguns casos, dias – junto aos postos de abastecimento à espera de produto.
A situação é particularmente sensível no Cunene por se tratar de uma província fronteiriça com a Namíbia, onde o movimento de pessoas, viaturas e mercadorias é intenso.
No mercado informal de Ondjiva, o litro de gasolina estará a ser comercializado por cerca de 2.000 kwanzas, enquanto na zona fronteiriça de Santa Clara o preço poderá atingir os 3.000 kwanzas, segundo relatos locais.
Entre os automobilistas afectados estão taxistas e mototaxistas, cuja actividade depende diariamente do acesso ao combustível.
Um dos relatos indica que há operadores que chegam aos postos durante a madrugada e permanecem até à tarde sem conseguir abastecer. Outros afirmam estar há dois ou três dias à espera.
Para os transportadores, o problema ultrapassa a questão do abastecimento individual, uma vez que a redução da circulação de táxis e mototáxis começa a afectar os passageiros e a mobilidade dentro da cidade.
A procura pelo mercado informal, por outro lado, contribui para a subida dos preços e para o agravamento das despesas dos operadores.
De realçar que a actual situação não surge de forma isolada. Em Abril de 2026, a Rádio Nacional de Angola já noticiava escassez de gasolina em Ondjiva, tendo as autoridades desencadeado operações de fiscalização e apreensão relacionadas com a comercialização e circulação do produto.
Meses antes, em Janeiro, agricultores do Cunene tinham igualmente alertado para dificuldades na aquisição de combustível, com impacto na irrigação dos campos agrícolas do canal do CAFU e das cinturas verdes de Ondjiva. Na altura, responsáveis ligados ao sector agrícola relacionaram a situação com o contrabando de combustível.
O problema do contrabando assume particular relevância numa província que partilha uma extensa fronteira com a Namíbia. As autoridades angolanas e namibianas têm identificado o contrabando de combustível como um dos crimes recorrentes na fronteira comum e defendido o reforço da cooperação para o seu combate.
Constrangimentos também atingiram outras províncias
A crise de abastecimento não está limitada ao Cunene. Em Maio, a própria Sonangol Distribuição e Comercialização reconheceu constrangimentos temporários em várias regiões do país, com maior incidência em Luanda e em algumas zonas das regiões Centro e Sul, nomeadamente Benguela, Huíla e Namibe.
A empresa atribuiu a situação a um aumento significativo e considerado atípico da procura, que terá exercido pressão sobre a cadeia logística de distribuição. Na ocasião, garantiu que o país dispunha de combustível suficiente e anunciou operações de reposição por via terrestre e marítima para várias províncias.
Na Huíla, particularmente no Lubango, Humpata e Palanca, foram também registadas filas prolongadas, com automobilistas obrigados a pernoitar nos postos de abastecimento. A situação afectou sobretudo taxistas e outros operadores de transporte.
Os episódios de Luanda, Benguela, Huíla e Namibe indicam que os constrangimentos registados no Cunene fazem parte de um problema mais amplo da cadeia de distribuição, embora as causas possam variar de província para província.
Mercado nacional mantém elevada procura
Dados divulgados pelo Instituto Regulador dos Derivados do Petróleo (IRDP) mostram que o mercado angolano mantém um nível elevado de consumo. No segundo trimestre de 2026, foram adquiridas para comercialização 1.083.082 toneladas métricas de combustíveis líquidos, enquanto as vendas chegaram a 1.121.042 toneladas métricas, um crescimento de 6% face ao trimestre anterior. A Sonangol Distribuição e Comercialização manteve a liderança, com uma quota de 63,5%.
O país tinha, no início de 2026, uma rede de mais de mil postos de abastecimento, incluindo unidades da Sonangol e operadores privados, embora a distribuição da rede não seja uniforme entre as diferentes províncias.
Apesar das dificuldades relatadas em Ondjiva, não existe ainda uma explicação pública específica da Sonangol para a actual situação no Cunene. A empresa tinha, em Maio, garantido que estava a implementar um plano de estabilização da rede e que o abastecimento seria progressivamente normalizado.
No entanto, os relatos provenientes de Ondjiva sugerem que, pelo menos naquela província, os constrangimentos continuam a afectar directamente os consumidores.
Para uma região fronteiriça, onde o transporte rodoviário desempenha um papel essencial na actividade económica, a falta de combustível deixa de ser apenas um problema dos postos de abastecimento e transforma-se num problema de mobilidade, comércio e rendimento das famílias.
Os automobilistas e operadores ouvidos defendem uma intervenção urgente das autoridades provinciais, da Sonangol e dos órgãos de fiscalização para garantir o abastecimento regular, combater eventuais desvios e contrabando e melhorar a organização dos postos.