
O assunto não é novo e já foi destaque noticioso há algum tempo. Entretanto, nas últimas horas, considerando notícias postas a circular que apontam para o facto de o consórcio libanês Dar Al-Handasah (Shair and Partners), liderado por Talal K. Shair (na imagem), filho de Kamal A. Shair, continuar a imperar em Angola, depois de já ter liderado durante décadas as operações a nível dos petróleos, exploração mineira, da construção, do comércio, entre outros negócios, tendo montado os mais terríveis esquemas de suborno, corrupção, usurpação de fundos públicos, branqueamento de capitais e financiamento ao terrorismo internacional, está a criar enorme reboliço na opinião pública
Num momento em que se iniciou um novo cilclo governativo, com João Lourenço reeleito para o segundo mandato, e se propala que o Estado angolano já recuperou cerca de 5.6 mil milhões de dólares americanos, no âmbito do combate à corrupção e impunidade, prevendo-se a recuperação de mais de 50 mil milhões de dólares, assim como a ministra das Finanças, Vera Daves, veio a público afirmar que Angola está a honrar os pagamentos da dívida pública, com empresas de construção civil absorvendo 37%, entre as quais consta o referido grupo libanês Dar Al-Handasah (Shair and Partners), levanta-se a questão de continuar a haver indícios de protecção, a alto nível, de indivíduos sob suspeita em Angola, causando inquietação em meios judiciais, financeiros e diplomáticos, considerando que a protecção de empresários envolvidos em actividades suspeitas tem sido vista como desmoralizadora e descredibiliza o apregoado “combate à corrupção” e continua a manchar a imagem do país.
O sistema de construção civil, desde o fim da guerra no país, foi aproveitado pelo regime e seus apaniguados para o roubo desenfreado das riquezas nacionais, através de empresas ditas “amigas” ou de “amigos”, corruptas, que em nome de apoio à recuperação, reabilitação de infrastruturas em todo país e construção de novas, sobretudo a nível de residências, como as centralidades, tem sido um imperativo intimamente ligado às necessidades sociais e à política, como símbolo e factor de crescimento e emancipação da nação.
O grupo Dar Al-Handasah (Shair and Partners), com fortes ligações às organizações terroristas, como o ISIS e o Hezbollah, tem representações em cerca de 100 países, é considerado como dos maiores no domínio do design arquitetónico, o mais renomado do mundo e um dos maiores empregadores do Líbano, cujos “tentáculos” se estendem por dezenas de Estados em diversos continentes e domínios da vida empresarial.
A sua envolvência com Angola data do princípio da década de 70 quando o país ainda não era independente, a partir do exílio onde se encontrava o MPLA, numa manobra envolvente, que já visava a exploração das riquezas angolanas, perpretada pela União Soviética.
Para tal, a União Soviética tinha um elemento seu, membro da KGB, o diplomata angolano Hermínio Joaquim Escórcio, também sócio do grupo libanês, mas que era o elo de ligação entre o regime angolano liderado por José Eduardo dos Santos, o grupo Dar-Al Handasah (Shair and Partners) e a União Soviética.
É assim que José Eduardo dos Santos é induzido para construir um milhão de casas (que foi bastante apregoado na sua campanha eleitoral de 2008) e, posteriormente, a nova sede da Assembleia Nacional de Angola, entre muitas outras infraestruturas.
Uma das tácticas usadas por Dar Al-Handasah (Shair and Partners), era (é) a de gastar 100 milhões de dólares em subornos aos membros das elites no poder em Angola, entre dirigentes do MPLA, governantes, generais e outros, para obter projectos e participar em diversas operações do Estado e depois lucrar cerca de 20 mil milhões de dólares.
Foi este grupo que esteve na base das demolições dos bairros da encosta da Boavista e de outros bairros, o confinamento dos moradores em tendas, a construção dos Zangos, entre outros.
Havia, igualmente, o objectivo de se criar uma espécie de burguesia com funções oligárquicas, compostas pelos líderes do partido no poder, MPLA, e oficiais militares, sobretudo general de alto escalão como Hélder Vieira Dias “Kopelipa”, general Leopoldino do Nascimento “Dino” e vários outros, bem como alguns executivos da Sonangol e da FESA, liderada por Ismael Diogo da Silva, que na realidade era uma espécie de “governo sombra”, cujo trabalho era controlar o crescimento económico e infraestrutural de Angola, uma concepção da qual Dar Al-Handasah (Shair and Partners), sempre fez parte.
Depois da guerra angolana, Kamal, com o seu assistente Hermínio Escorcio, ofereceu a sua ajuda em todas as negociações sobre a venda de petróleo e gás até que ele se tornou o mediador de muitos projectos de desenvolvimento, incluindo os financiados pelos chineses, sobretudo na região petrolífera mais rica de Angola, a província de Cabinda.
Posteriormente, o seu filho, Talal K. Shair tornou-se um amigo próximo e conselheiro da filha de José Eduardo dos Santos, Isabel dos Santos, a quem ele apoia e acompanha em todas as suas operações no Oriente Médio.
Além disso, Talal sempre foi associado ao MPLA, cuja ideologia pragmática e secular ele compartilha, pois sonha com um Islão no qual sunitas, xiitas e wahhabis sejam irmãos e não inimigos como são hoje.
Com a transferência da liderança do grupo de Kamal para seu filho Talal e após a descoberta do papel de Hermínio Escórcio, que foi forçado a renunciar, assim que José Eduardo ods Santos foi substituido na Presidência de Angola, Dar Al-Handasah teve que se separar do seu antigo sócio angolano. Talal nomeou um novo assistente, o libanês Ramzi Klink.
O substituto de Escórcio, Klink, não só actuou como director da holding do grupo Dar Al-Handasah em Dubai, mas também foi nomeado para o conselho de administração da FESA (Fundação Eduardo Dos Santos) e tornou-se o elo entre a família Shair e a família Dos Santos na direcção da aceitação e distribuição de subornos aos angolanos, em conexão com empresas controladas por Dos Santos, como a Angoalissar e a Arosfram, incluindo a Suninvest, um grupo da indústria química e farmacêutica em que Klink, Dar Al-Handasah e a família Dos Santos – até a apreensão, determinada por decreto presidencial em Junho de 2019 – detinham uma parte, da qual, agora negam a existência.
As suspeitas dos Estados Unidos
Neste sentido, as autoridades americanas prenderam e acusaram judicialmente dois potenciais financiadores do Hezbollah, identificados por Hatem Baraka e Kassim Tajideen, revelando o papel de empresas em Angola no financiamento do referido grupo terrorista, com destaque para o grupo Dar Al-Handasah.
Ao que se sabe, Kassim Tajideen esteve, até 2005, ligado à criação da Golfrate Holdings Lda, Afri Belg Comércio e Indústria Lda, e Grupo Arosfran Empreendimentos e Participações Sarl. Tais empresas foram designadas pelos EUA, em 2010, como entidades terroristas, mas as suas actividades terão continuado. Para tal, Hatem Baraka usou como fachada uma empresa de comércio em Luanda, designada ‘Infornet Princesa’.
O grupo Arosfran, posteriormente rebaptizado ‘Nova Distribuidora Alimentar e Diversos (NDAD)’, após anúncio da expulsão de Kassim Tajideen de Angola, passou a ser controlado desde 2010 por indivíduos do círculo do ex-Presidente José Eduardo dos Santos, nomedamente o general Hélder Vieira Dias “Kopelipa”, supervisionado pelo Dar Al-Handasah, atendendo que o referido grupo tinha uma importante quota do mercado de distribuição alimentar, mais tarde tomado por cadeias como Nosso Super, supostamente pertencente ao Estado, mas gerida pela Odebrecht, Kero, ligada a figuras do regime e operada por portugueses e Kandando, de Isabel dos Santos.
Na mesma esteira, considerou-se como bastante preocupantes as actividades de Abdul Hamid Assi, que já fora expulso de Angola em 1996, por suspeitas de branqueamento de capitais, num processo em que interveio o general Fernando Miala.
Hamid Assi voltou a Angola em data imprecisa e com novo passaporte. Em 2015, durante a vaga de afastamento de estrangeiros suspeitos de actividades ilícitas, foi novamente expulso, mas regressou em 2016, não tendo desde então sofrido sanções ou impedimentos.
Apesar de diversas deslocações ao estrangeiro, desde 2020 não há registo de entradas e saídas do país, suspeitando-se que beneficia de protecção do organismo ligado à emigração e fronteiras, para evitar ser expulso. Hamid Assi encontra-se há vários anos sob vigilância, sobretudo das autoridades dos EUA, por suspeitas de envolvimento no narcotráfico e branqueamento de capitais.
Mesmo assim, o indivíduo tem movimentado quantias avultadas de divisas estrangeiras provenientes do Banco Nacional de Angola (BNA), recorrendo a linhas para importação de bens alimentares, já que importa farinha de trigo do Líbano, mas previamente comprada em Itália e outros países, sendo o montante pago pelo produto na origem mais baixo do que as divisas entregues pelo BNA e pagas ao Líbano, permitindo reter deste modo neste país, volumosas quantias em divisas.
Segundo notícias, apurou-se que, numa recente operação, terá guardado no Líbano perto de 2 milhões de dólares, de uma soma de 3 milhões de dólares que foram disponibilizados pelo BNA.
Hamid Assi, além de importador, assume-se igualmente como investidor em fábricas de massas, bolachas e óleos alimentares, o que também lhe permite aceder a divisas e benefícios, nomeadamente fiscais, tendo chegado a beneficiar de financiamento do banco BNI, do banqueiro Mário Palhares.
Como alegada prova de que Hamid Assi tem sido protegido por altas instâncias do país, incluindo judiciais, há o facto de, em Dezembro passado, a Procuradoria-Geral da República (PGR) ter agido em seu favor num conflito sobre o controlo de uma moagem em Luanda, em detrimento do empresário libanês Jaafar Lakkis.
Hamid Assi fora destituído da gerência por ordem judicial, mas quando Jaafar Lakkis tentou executar o despejo, indo ao local na altura com o 2º comandante da Polícia Municipal do Cazenga, segundo testemunhas, este e os agentes que o acompanhavam foram desarmados no local por elementos de uma empresa de segurança privada ‘G-Force’, a serviço de Hamid Assi. Os agentes não apresentaram queixa do sucedido, por temerem represálias, dadas as influências em causa.
As notícias referem que, na sequência do episódio, conforme documentação consultada, um magistrado do Ministério Público considerou então não haver “ilícito penal”, sugerindo a instauração de providência cautelar pelo queixoso.
Em meios judiciais, suspeita-se de que o próprio procurador-geral, Hélder Pitta Grós, interveio no processo a pedido do Ministério Público. A gestão da empresa manteve-se de Hamid Assi.
O grupo libanês, Dar Al-Handasah, continua em Angola com o seu “modus operandis” de subornos, pagamento de subcontratos e outras “engenharias” para a execução de obras do Estado, incluindo as do Plano Integrado de Intervenção nos Municípios (PIIM) e as que têm sido adjudicadas a empresa OMATAPALO.
A história é longa e não se esgota por aqui. Mais revelações no próximo artigo.