É prematuro ter coragem – Ana Jenário
É prematuro ter coragem - Ana Jenário
sede Mpla

Prematuro. A palavra da semana foi escolhida a dedo para não dizer nem “Sim” nem “Não”.

A faltarem apenas 16 dias para o encerramento da recepção de candidaturas ao cobiçado, porém inalcançável trono do partido dos camaradas, e a dois meses do Congresso reflexivo dos 70 anos do MPLA, o Secretário para a Informação e Propaganda do Bureau Político protagonizou mais uma daquelas cenas a que já nos habituou desde o início do processo.

Como quem pede ao país para esperar mais um pouco enquanto, à porta fechada, se decide quem vai continuar a mandar, Esteves Hilário afirmou ser prematuro avançar se o IX Congresso Ordinário do partido terá ou não múltiplas candidaturas.

Na prática, o porta-voz, num pronunciamento que lembra a metáfora do “lobo em pele de cordeiro”, garantiu que “tudo está em aberto” e que “no fim de Outubro saberemos”.

Numa tradução livre do dicionário do partido, isso significa: estamos a ver quem se atreve a dar a cara para depois o devorarmos.

Enquanto se apregoa que tudo está em aberto, a probabilidade de um verdadeiro processo de renovação diminui.

Asfixiam-se os opositores daquele que detém o controlo do aparelho partidário e multiplicam-se as barreiras estruturais, burocráticas e políticas aos aspirantes à cadeira número um do histórico partido.

Ao analisar o cansaço perante os discursos de fachada, onde para chegar ao poder interno já está mais do que provado que é necessária a “bênção do papy”, começa a evidenciar-se o cenário de uma recondução sem obstáculos.

Um desenho semelhante ao do escalão provincial, no qual o candidato único é habitualmente aprovado com 99,9% dos votos.

O que muitos do lado de fora e alguns do lado de dentro definem como um mero espetáculo ou um “congresso da pimpa”, Hilário, no papel de porta-voz, prefere chamar de “coesão interna”.

E assim o MPLA caminha para o seu congresso mais decisivo com a fórmula de sempre: afirma que existe democracia interna, mas avisa que é prematuro falar dela.

Deixa a oposição a discutir uma eventual fraude futura enquanto gere a sua própria sucessão com a cautela de quem teme que uma candidatura extra faça ruir o trono.

No entanto, o tempo não se apaga e a verdade não se esconde: uma dupla candidatura no MPLA nunca foi uma questão estatutária, é uma questão de coragem. E a coragem, por enquanto, continua prematura.

No final, como a esperança é a última a morrer, apesar de que por cá ela já anda nos tubos, será que devemos continuar a esperar que o final de Outubro traga a abertura para duas listas… ou se será, como sempre, “prematuro”?

*Jornalista

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