
As eleições gerais de 2027 poderão representar uma das disputas políticas mais importantes da história recente de Angola. Não apenas porque estarão em jogo a continuidade do MPLA no poder ou uma eventual alternância, mas porque o eleitorado, o ambiente político e a própria sociedade angolana já não são os mesmos de 2017 ou de 2022.
O MPLA chega a 2027 carregando a força de uma máquina política que governa Angola desde a independência, em Novembro de 1975, mas também com o peso de cinco décadas de governação, promessas acumuladas, expectativas frustradas e uma geração inteira que olha para a política com olhos diferentes daqueles que marcaram as primeiras décadas da República.
A pergunta, portanto, talvez já não seja simplesmente se o MPLA poderá vencer. A pergunta mais interessante é: que estratégia política poderá permitir ao MPLA sobreviver eleitoralmente num cenário em que a oposição parece compreender, cada vez mais, que dividida dificilmente chegará ao poder?
A matemática de 2027 pode ser diferente. Os resultados oficiais das eleições gerais de 2022 indicam que o MPLA venceu com 3.209.429 votos, correspondentes a 51,17%, elegendo 124 deputados. A UNITA obteve 2.756.786 votos, equivalentes a 43,95%, elegendo 90 deputados. Os restantes partidos tiveram resultados muito inferiores.
Esses números contêm uma mensagem política importante. A diferença entre os dois principais concorrentes foi de pouco mais de 450 mil votos.
Isto significa que, numa eleição em que a oposição consiga transformar a sua dispersão em coordenação eleitoral, o quadro poderá ser substancialmente diferente.
É precisamente aqui que, talvez, reside uma das maiores preocupações estratégicas para o MPLA. A oposição parece ter aprendido, nas últimas eleições, a lição de que a competição entre si pode ser tão prejudicial quanto a competição contra o partido no poder.
Ainda neste ano de 2026, multiplicam-se os contactos e as movimentações entre os partidos na oposição para construir plataformas capazes de disputar 2027 em melhores condições. Mas há uma variável que torna o cálculo mais complexo: o PRA-JA Servir Angola.
O PRA-JA tem dado sinais claros de que pretende construir um caminho próprio. Abel Chivukuvuku afirmou recentemente que o partido se prepara para concorrer sozinho em 2027, embora declarações anteriores tenham deixado aberta a possibilidade de concertações políticas.
Esta posição não deve, contudo, ser interpretada como uma garantia absoluta de que o partido permanecerá fora de qualquer entendimento até ao dia da votação.
A política é dinâmica. Alianças que parecem impossíveis tornam-se possíveis quando os interesses convergem. Partidos que anunciam candidaturas isoladas podem encontrar razões para negociar. E aquilo que hoje parece uma linha vermelha pode amanhã transformar-se numa plataforma de entendimento.
Por isso, qualquer estratégia do MPLA que assuma antecipadamente que a oposição estará definitivamente dividida poderá ser uma estratégia baseada numa falsa sensação de segurança. O partido no poder terá de trabalhar com vários cenários: Oposição dividida. Oposição parcialmente unida. Oposição totalmente coordenada.
E, sobretudo, deverá preparar-se para o cenário que mais lhe possa ser desfavorável.
Existe, porém, uma transformação ainda mais profunda do que as alianças partidárias: a transformação do eleitorado. Em 2027, Angola terá uma massa eleitoral jovem, incluindo muitos cidadãos que nasceram nos anos depois da guerra.
São jovens que não viveram directamente o conflito armado como viveram os seus pais. Não carregam necessariamente na memória pessoal as consequências da guerra. Conhecem a guerra sobretudo através da memória dos outros, através dos livros, das imagens ou das histórias familiares.
Isto altera profundamente a forma como determinados argumentos políticos são recebidos. Para uma parte significativa dessa geração, a paz não é uma conquista política que precise de ser explicada diariamente. É uma condição normal da vida.
Existe ainda outro elemento: Esta geração cresceu com a internet. Vive num mundo em que a informação atravessa fronteiras em segundos. Um jovem angolano pode assistir, no mesmo telefone, à vida de um jovem europeu, africano, americano ou asiático. Pode fazer comparações do nível de vida e do funcionamento de instituições. Pode também ser influenciado por propaganda, desinformação e manipulação.
É um eleitor exposto a um volume de informação que nenhuma geração anterior conheceu. E, por isso, é também um eleitor mais difícil de controlar exclusivamente através dos instrumentos tradicionais da comunicação política.
Em 2017, o MPLA apresentou ao eleitorado uma mensagem que procurava reconhecer a existência de problemas e apresentar-se como força capaz de os corrigir: “melhorar o que está bem e corrigir o que está mal”.
Em 2027, repetir simplesmente uma fórmula semelhante poderá não produzir o mesmo efeito. A questão não será apenas apresentar uma nova promessa. Será necessário demonstrar o que foi feito, o que não foi feito, porquê e o que será diferente daqui para frente.
Cinco décadas de governação produzem inevitavelmente uma espécie de “balanço histórico” que o partido terá de apresentar. Não basta falar do que foi construído. Será preciso explicar também aquilo que não funcionou. Não basta apontar dificuldades externas. Será necessário explicar quais decisões internas poderiam ter sido diferentes. Não basta pedir confiança. Será necessário demonstrar por que razão essa confiança deve ser renovada.
Angola está inserida numa economia mundial sujeita a guerras, tensões geopolíticas, oscilações do preço do petróleo, perturbações das cadeias de abastecimento, inflação internacional e mudanças nas relações comerciais.
Pelo facto, um governo pode prometer determinadas políticas e, posteriormente, encontrar circunstâncias externas que dificultam ou até impedem a sua execução. Contudo, as causas podem ser internacionais, mas as consequências são sempre nacionais.
Diante disso, no momento de votar, é natural que o cidadão responsabilize quem governa.
Se a oposição conseguir construir uma plataforma eleitoral competitiva e se o eleitorado jovem decidir transformar o seu descontentamento em voto, o MPLA poderá enfrentar uma eleição muito mais difícil do que as anteriores.
Então, como poderá o MPLA sobreviver?
Há quem pense que uma das respostas poderia passar pela multiplicação de partidos e candidaturas, criando uma maior dispersão dos votos da oposição. Há também quem considere a via de penetração para influenciar ou explorar conflitos internos dos adversários para provocar divisões.
Na minha perspectiva, se essas práticas forem utilizadas, o problema deixa de ser apenas eleitoral. Passa a ser institucional, na medida em que, essa prática pode produzir uma victória política de curto prazo acompanhada de uma derrota democrática de longo prazo.
Se quisermos utilizar a metáfora do xadrez, talvez a melhor estratégia do MPLA não seja destruir o tabuleiro. Em vez de procurar dividir a oposição, poderá ser mais inteligente compreender por que razão uma parte crescente do eleitorado deseja mudança.
Se o MPLA conseguir apresentar uma renovação real, uma prestação de contas honesta, uma nova geração de políticos nas diferentes estruturas de direcção, respostas concretas para a juventude e um programa credível para a economia, poderá transformar a sua experiência de governação numa vantagem.
Se, pelo contrário, apostar apenas no medo da mudança, na memória da guerra, na fragmentação dos adversários ou na repetição de slogans, poderá receber uma resposta surpreendente nas urnas.
Portanto, para a questão levantada no título deste artigo, sobre a estratégia de sobrevivência do MPLA para 2027, a minha resposta é simples, embora politicamente difícil: renovar, prestar contas, corrigir, ouvir e entregar resultados.
Em 2027 a eleição não será ganha apenas pela força da história. Será ganha pela capacidade de interpretar o presente e convencer Angola sobre o futuro. E se o MPLA quiser continuar a governar, terá de apresentar uma razão nova para que uma nova geração lhe entregue o futuro.
Que Deus abençoe Angola e os angolanos.
*Escritor e Mestre em Projectos de Cooperação Internacional.