Eleições na África do Sul alteram o xadrez político – Filomeno Manaças
Eleições na África do Sul alteram o xadrez político - Filomeno Manaças
Filo manancas

Os resultados finais das eleições gerais na África do Sul, divulgados domingo, confirmaram a perda, pelo Congresso Nacional Africano (ANC), da maioria absoluta no Parlamento na sequência do pleito de quarta-feira (29.05), naquilo que está a ser considerado como o pior desempenho da formação política nos últimos 30 anos e uma derrota para o partido de Nelson Mandela, ícone da luta contra o regime de apartheid.

O ANC obteve apenas 40 por cento dos votos, o que lhe confere 159 assentos, contra os 230 que havia conseguido nas eleições de 2019, num Parlamento que é composto por 400 deputados. O maior partido da oposição, a Aliança Democrática (DA), obteve 21,7 por cento dos votos.

Já o uMkhonto we Sizwe (MK), formação lançada em Dezembro pelo ex-Presidente Jacob Zuma, afirmou-se como terceira força política, ao conseguir 14,6 por cento dos votos, superando o Economic Freedom Fighters (Combatentes pela Liberdade Económica – EFF), de Julius Malema, que alcançou 9,5 por cento, vindo depois uma série de pequenos partidos com percentagens menores, como o Inkhata Freedom (IFP), um partido conservador zulu, com apenas 4 por cento.

Sem maioria absoluta, o ANC é obrigado a entrar em negociações que se afiguram complexas – o que já está a fazer – para garantir a eleição, pelo Parlamento, de Cyril Ramaphosa como Presidente da República, para um segundo mandato. O mesmo se diz em relação à formação de uma coligação para governar e aos acertos para os principais cargos no Parlamento, entre os quais os do presidente e vice-presidente.

De acordo com notícias veiculadas, o ANC estará a negociar, com cinco formações políticas, acordos de incidência parlamentar e governativa, sendo grande a expectativa em relação aos resultados que poderão sair dessas negociações, tendo em conta em particular o perfil político da Aliança Democrática e as exigências das formações lideradas por Zuma e Malema, que, no calor da divulgação dos resultados, pediam o afastamento de Cyril Ramaphosa como condição para que houvesse qualquer acordo.

Nas hostes do ANC esse pedido foi rejeitado de forma terminante. A acontecer, iria fragilizar ainda mais o partido e conferir legitimidade às reclamações do ex-Presidente Jacob Zuma, a braços com casos judiciais por corrupção, e que, apesar de liderar o uMkhonto we Sizwe, não poderá ocupar lugar no Parlamento por ter sido considerado inelegível pelo Tribunal.

Embora com posições antagónicas em muitos aspectos, uma coligação entre o ANC e a Aliança Democrática é apontada como a que tem maiores probabilidades de dar garantia de estabilidade governativa e de satisfazer os interesses dos investidores e do mercado. A bolsa de valores de Joanesburgo costuma ser um bom barómetro para aferir como os investidores e as empresas encaram as medidas políticas na África do Sul.

Empresário bem-sucedido e com muita experiência sobre a economia sul-africana, Cyril Ramaphosa não demorou a reagir e a fazer uma leitura acertada dos resultados eleitorais. “O que esta eleição deixou claro é que o povo da África do Sul espera que os seus líderes trabalhem juntos para atender às suas necessidades”, afirmou.

Para o ANC está em causa – e é este o principal ponto da agenda de negociações – a construção de um Governo de Unidade Nacional. Por se saber está que formação se manifesta interessada em fazer parte do Governo, quais as que se mostram disponíveis para partilhar apenas poderes no Parlamento e desempenhar um papel de maior fiscalização dos actos do Executivo, o que observadores afirmam ser, para este último caso, a inclinação da Aliança Democrática (DA), considerado um partido da minoria branca. Esta opção, a verificar-se, deixará claro que a DA prefere continuar a apostar no desgaste da imagem do ANC com o objectivo de ganhar uma melhor posição no próximo pleito.

Os resultados destas eleições podem e devem ser analisados sob diferentes ângulos, tendo em conta a grande complexidade do espectro político sul-africano, e, de modo muito particular, a questão dos egos, evidenciada com a criação por Zuma de uma nova formação política.

Ele que não está alheio, também, ao desgaste de imagem que o ANC sofreu e que, ao lançar o MK, luta pela sua sobrevivência política, procurando, por essa via, continuar a batalha para invalidar as decisões judiciais que sobre si pendem, beliscando assim um dos pilares do Estado de Direito e Democrático.

Outros ângulos de abordagem têm a ver com as falhas na governação, o aumento da corrupção, do desemprego (32 por cento da população), da criminalidade, o agravamento das condições de vida, e, não menos importante, o comportamento do eleitorado jovem, que é a maioria num universo de 28 milhões de votantes e que acorreu em massa às urnas.

Os resultados destas eleições vão servir para o ANC se reconfigurar, projectar-se como um novo ANC, mas isso só será possível se atacar de frente os problemas e se desfizer de algumas taras que, a um dado momento, levam o eleitorado a identificar nas forças políticas de esquerda comportamentos retrógrados. São sinais de evidente inadaptação aos novos contextos.

*Jornalista

Siga-nos

Compartilhar:

Facebook
WhatsApp
LinkedIn
Twitter
Social media & sharing icons powered by UltimatelySocial
Twitter
Visit Us
Follow Me
LINKEDIN
INSTAGRAM
error: Conteúdo protegido