Entre lágrimas e gratidão: tributo a Nanutu – Luís Paulo
Entre lágrimas e gratidão: tributo a Nanutu - Luís Paulo
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Em Novembro de 2021, recebemos de Nanutu o convite para escrever algumas linhas sobre o lançamento, em Luanda, do álbum “Gato Vijú”. Coincidentemente, o disco foi apresentado no dia 21 daquele mês, mesma data de aniversário de um amigo em comum, Jacob Desvarieux.

O lançamento, naquela data simbólica, foi uma homenagem ao líder-cantor, compositor e guitarrista do grupo Kassav, que falecera cerca de quatro meses antes em Guadalupe, Antilhas Francesas.

O lançamento do “Gato Vijú” nos deu a oportunidade ideal para reforçar o merecido reconhecimento de Nanutu como o “Comandante da Música Popular-Instrumental Angolana”.

De facto, a adopção dos termos “Chefe” e “Comandante”, reflecte a nossa prática usual ao citar Nanutu musicalmente. A morte precoce, a 15 de Maio, do nosso brilhante saxofonista António Manuel Fernandes “Nanutu”, nascido em 1961, em Luanda, pegou de surpresa a classe artística nacional e internacional, críticos e amantes da música angolana.

Partida de um líder

A música africana perde um dos seus maiores líderes do sopro. O falecimento de Nanutu representa um duro golpe para a arte africana, angolana, em particular.

O seu legado na secção de metais deixa uma lacuna profunda, visto que este é o segmento técnico mais escasso e complexo de colmatar no panorama musical angolano actual.

A excelência e técnica apurada de Nanutu no saxofone serão uma missão difícil de recuperar para as novas gerações, principalmente nos dias de hoje, onde quase já não aparecem grupos musicais com o original de naipe de metais como trompetes, trombones e saxofones, especialmente o alto e o tenor, que ajudam a conferir maior energia e harmonia, viabilizar o diálogo com a percussão, baixo, guitarra, e demais instrumentos musicais.

É de louvar nesse quesito o empenho e a persistência dos Jovens do Prenda em não deixar morrer a tradição dos sopros de metais nos arranjos das suas composições.

Fiel depositário da música instrumental

Em Maio de 2021, por ocasião das celebrações do Dia de África, dedicamos uma homenagem à obra de Nanutu, definindo-o como o “fiel depositário da música instrumental”.

Recordamos tópicos desse nosso artigo:

“Nanutu tem sido o mais notável e fiel depositário da Música Popular-Instrumental Angolana junto da Diáspora, não fosse o álbum “Ximbika” (2012/13) ter ficado em primeiro lugar durante dois meses na Rádio África “Number One”, em Paris, onde até à data presente continua a ser bastante consumido.

Preponderante, Nanutu arrasa quando “reencontra” Paulo Flores (Ex-combatentes) e juntos regravam “reencontre”, de Super Combo e Ryco Laquitaine, deixando-os, os antilhanos originais do tema, irreversivelmente alucinados por tão espectacular (re)interpretação.

O mesmo passara já com a conhecida canção baptizada com o nome “Maria-Maria” (Kizofado, 1999), original de Gérard Dupervil, e uma outra canção que o tempo não a apaga, “Aki Yaka” (Ximbika), do género Kadence lypso, de Exile One, regravadas por Nanutu, nas fabulosas versões-instrumentais, que continuam a marcar presença obrigatória nas pistas das festas de casamento africanas”.

Nanutu construiu um legado admirável e de respeito. A sua carreira é marcada por colaborações e parcerias com artistas renomados internacionalmente.

Nas nossas observações do passado sobre a sua trajectória, tivemos o cuidado de destacar Nanutu sob várias facetas: “O gigante angolano que comanda a nossa música instrumental”; “A carreira do comandante”; “fama em África”; “O que pensam os franceses sobre a obra de Nanutu?” (com base numa pesquisa realizada pela Aliança Francesa em Paris); “O instrumentista angolano mais requisitado internacionalmente” (com direito a apelos de fãs antilhanos por shows ao vivo.

O talento de Nanutu o levou a ser convidado pelo produtor antilhano Eddy Compper para o “Festival Internacional Jazz-Crioulo” em Marie Galante, Guadalupe.

O artista angolano se juntaria a saxofonistas consagrados, incluindo Camille Sopran´n, um dos fundadores, em 1966, da orquestra Les Vikings de la Guadeloupe. Infelizmente, a chegada da pandemia de Covid-19 em 2020 suspendeu a realização do evento.

A maneira de Nanutu se apresentar nos shows, sempre com a sua boina característica, foi fortemente inspirada pelo saxofonista Camille Sopran´n, um dos grandes mentores da sua carreira, e com quem chegou a partilhar o mesmo palco numa das edições do Festival Afro-Caribenho em Luanda.

Gato vijú

Revisitamos, a propósito do álbum Gato Vijú, a reflexão que partilhamos na época do seu lançamento em Luanda:

“COMANDANTE DA MÚSICA INSTRUMENTAL ANGOLANA APRESENTA GATO VIJÚ NO DIA DE ANIVERSÁRIO DE JACOB DESVARIEUX…”

Com dez faixas, Gato Vijú revela-se um álbum maduro e de refinada qualidade sonora. O disco traduz a versatilidade de Nanutu, um saxofonista vibrante e experiente, conhecido por dividir o palco com grandes nomes da música africana.

O repertório funde com robustez o semba cadenciado, samba, soukouss, kilapanga e kompá, sem se esquecer das influências do pop-balada, da bossa-jazz e do afrobeat. Vários artistas talentosos uniram-se ao Gatu Vijú, do “comandante da música popular instrumental angolana”, cujos temas foram registados em Angola, Portugal, França e EUA: Mike Clinton e Carlitos Chiemba (baixo), Nelo Paím (teclado, guitarra, arranjos), Teddy N´singui (guitarra solo) e Texas (guitarra solo, ritmo).

Juntaram-se à festa do Gato Vijú, Johnny Fonseca (guitarra solo, ritmo e cavaquinho), Kim Alves (teclado, guitarra solo, ritmo, baixo, cavaquinho), Christian Martinez (trompete, flugelhorn/fliscorne), Pedro Azevedo (trompete), Ruben da Luz (trombone – pistão e vara), Thierry Galion (produção, arranjos, teclado, guitarra). Nanutu se encarregou do sax-tenor-alto-soprano-sopranino, clarinete e coordenou os arranjos.

Músicas

“Gato Viju”: “Mutudi Ua Ufolo” (adaptação), 2000 (adaptação), “Páginas rasgadas do livro da minha vida” (adaptação), “Nandynhu”, Kim Alves/Nanutu, “Domingas Kanhary” (adaptação), “Maria Maria” (adaptação), “Nha primeiro lar”, (adaptação), “Adeus à hora da largada” (adaptação) e “Why” (adaptação).

O trabalho de mixagem e masterização do álbum ficou por conta de Thierry Doumergue, Raphael Jonin e Cedric Louis, este, filho de Roland Louis (1940-2019), conceituado pianista, compositor, maestro e professor de música nas décadas de 1960, 70 e 80 nas Antilhas Francesas.

Festival afro-caribenho

Nanutu era uma das principais atracções da 5ª edição do Festival Afro-Caribenho, agendado para os dias 29 e 30 de Maio de 2026, no Dream Space, em Luanda.

O saxofonista dividiria o palco com Yola Semedo, Éric Virgal, Zouk Machine, David e Corine e Gustavie Cham. Infelizmente, devido ao problema de saúde que o levou a óbito, não teve tempo de gravar um vídeo para comunicar a sua ausência.

O sonho do artista

Nanutu acalentou o sonho de correr pela fórmula um ou voar pelos céus como piloto de aviação. O artista não chegou a realizar nenhuma das ambições, mas o seu destino cruzou-se com a arte, onde se destacou como um verdadeiro comandante graças ao domínio e sopro do seu saxofone.

Para eternizar esse legado, seria de extrema relevância ver entusiastas e empresários do sector cultural unirem forças para fundar a escola de música de sopro “Comandante Nanutu”.

Se a missão fosse elencar um grupo restrito de instrumentistas mais talentosos de Angola nos últimos 50 anos, Nanutu ocuparia, em nossa análise, um lugar de inquestionável protagonismo.

No sopro do saxofone de Nanutu, levaremos sempre a alma de Angola, o semba, a kizomba e o kilapanga, para vibrar no coração da nossa diáspora.

Somos gratos pelo privilégio de caminhar e trabalhar ao seu lado.

Descanse em paz, “COMANDANTE NANUTU”!

*Jornalista

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