Faleceu o músico e investigador Mário Rui Silva
Faleceu o músico e investigador Mário Rui Silva
Mario Rui

O guitarrista, cantor, compositor, professor e investigador Mário Rui Silva faleceu ontem, quinta-feira, em Lisboa, aos 71 anos, vítima de doença, soube o Imparcial Press junto de fontes próximas do autor.

Mário Rui Silva foi distinguido com o Prémio Nacional de Cultura e Artes em 2022, reconhecimento merecido pela sua versatilidade e pelo seu contributo inestimável para a divulgação da música e cultura angolana a nível internacional.

Com uma carreira iniciada aos 9 anos, em 1961, Mário Rui Silva destacou-se como um músico versátil e exímio guitarrista. Pouco tempo depois do seu início, integrou o agrupamento musical “Os Jovens”.

Por volta de 1968, deixou o grupo para se dedicar mais profundamente à aprendizagem do violão acústico, tornando-se músico semiprofissional de forma independente.

Quatro anos depois, participou como guitarrista no primeiro disco de Bonga, uma obra marcada por temas nacionalistas e de raiz angolana. A partir de 1973, iniciou uma profunda amizade com Liceu Vieira Dias, que se tornou o seu “pai espiritual”, fortalecendo o seu sentimento nacionalista.

Essa relação proporcionou também um importante trabalho de pesquisa e investigação na área do desenvolvimento musical em Angola, culminando com a edição de vários CDs sobre a música angolana dos anos 40, incluindo “Chants d’Angola pour Demain” (Cantos de Angola para Amanhã, 1994), “Luanda 50/60 ANGOLA” (1997) e “Luanda 1940 Angola” (2002).

Mário Rui Silva foi autor de “Ensaio de Mário Rui Silva para uma Gramática Comparativa, Português-Kimbundu, para Falantes de Língua Portuguesa” e “Estórias para a História da Música em Angola“.

No Huambo, conviveu com o falecido Fausto e com os músicos camaroneses Francis Bebey e Ewanjé, participando também nas gravações do disco “Angola 72” de Bonga.

O guitarrista brasileiro Baden Powell foi uma influência clara na sua música. Além disso, escreveu o argumento do filme “Angola – Histórias da Música Popular” (de Jorge António, 2005).

Como fiel discípulo de Liceu Vieira Dias, lenda e co-fundador dos Ngola Ritmo, Mário Rui Silva adquiriu uma compreensão técnica, política e espiritual da cultura musical do seu país.”

Reacção

O jornalista angolano Jorge Eurico dedicou, com a sua pena refinada, algumas linhas ao malogrado. Vide na íntegra:

A PARTIDA DE UM INTELECTUAL INDÔMITO

O coração de Mário Rui Silva parou de palpitar nesta quinta-feira. Era um dos maiores guitarristas, cantor e compositor angolano. Era um intelectual de alto gabarito. Era a pétala da “fina-flor” do music-hall angolano. Era um homem de trato fino. Era um homem de classe e com classe. Era um homem com “traquejo social”.

A sua forma de ser e de estar agitava os fantasmas dos homens brutos. Daí terem-no bloqueado. Proscrito. Era um homem com dignidade. Não se vergava. Foi discípulo devoto de Liceu Vieira Dias. Absorveu os ensinamentos do seu mestre. Por isso cantou. Encantou. Investigou. Divulgou. Contribuiu para o engrandecimento da cultura angolana. Por ter querido contribuir muito mais foi combatido. Foi varrido pelos “patos bravos” que detêm o poder político.

Consta que foi vítima de doença. Eu diria que Mário Rui Silva morreu devido à canalhice e à casmurrice de todos aqueles que têm o poder de decisão em Angola. A morte do discípulo de Liceu Vieira Dias decorreu (digo eu) da discriminação sistêmica e institucionalizada em Angola, país onde os “mais capazes” são ferozmente combatidos. Mário Rui Silva era olimpicamente ignorado pelas autoridades angolanas. O seu trabalho foi praticamente silenciado.

O seu nome foi perversamente omitido. O propósito era o de fazer com que as novas gerações não conhecessem o seu trabalho brilhante e impecável em prol da cultura angolana. Em compensação era ampla, selecta e ruidosamente aclamado em grandes palcos internacionais. Nunca foi formalmente reconhecido pelas autoridades angolanas. A sua saga confunde-se com a de um outro grande de cultura que também foi desestimado pelo poder político angolano: Waldemar Bastos!

Mário Rui Silva foi um homem com ideias próprias. Muito claras. Era um líder. Um empreendedor. Antes da independência criou o conjunto denominado “Os Jovens”.

A vocalista era a mãe do preclaro activista Luaty Beirão. O inditoso elaborou uma Gramática de Kimbundu e uma selecta de contos populares. Os “patos bravos” – avessos à cultura e ao exercício intelectual – não a publicaram. Por birra e nveja. Chateou-se.

Cedo concluiu Mário Rui Silva que os destinos do País estava nas mãos de gente inculta. Por isso mandou-se. Abalou de mala e cuia para geografias onde era valorizado. Onde poderia emprestar o seu saber e fazer sem ser hostilizado. Sem ser politicamente perseguido. Sem ser desprezado. Mário Rui Silva morreu triste porque a Pessoa Colectiva que tem os destinos do País na mão combateu-o por ser um homem culto. Por ser politicamente indomável.

Nascido em Luanda em 1953, Mário Rui Silva vai brilhar, agora, com o seu saber e talento lá no firmamento ao lado do seu mestre Liceu Vieira Dias. A partir de hoje, sempre que olhar para o céu, pensarei na dimensão do homem que parte para outra dimensão.

Jamais me esquecerei do exímio artista e intelectual que encontrou na música uma forma de verberar e resistir ao colonialismo português. Mário Rui Silva era um “reviralhista”. Com o seu silêncio barulhento discordava da forma como Angola é dirigida. Requiescat in pace, Mário Rui Silva!

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