Governo sob críticas por gastar mais de 13 milhões de dólares na reabilitação do estádio que vai acolher a Argentina
Governo sob críticas por gastar mais de 13 milhões de dólares na reabilitação do estádio que vai acolher a Argentina
estadio 11

O valor de 13,6 milhões de dólares autorizado pelo Executivo para a reabilitação do Estádio Nacional 11 de Novembro, em Luanda, tem sido alvo de críticas e contestação pública, com cidadãos e analistas a questionarem as prioridades de investimento do Estado, sobretudo num contexto de dificuldades económicas e degradação dos serviços sociais básicos.

O Governo angolano autorizou a despesa de 13,6 milhões de dólares para reabilitar o Estádio 11 de Novembro, em Luanda, que servirá de palco ao jogo amigável entre as selecções de Angola e Argentina, no próximo dia 14 de Novembro, nas comemorações dos 50 anos da Independência Nacional.

A decisão, formalizada através do Despacho Presidencial n.º 224/25, de 5 de Setembro, e atribuída por ajuste directo à empresa israelita Mitrelli, está a gerar uma onda de críticas e indignação nas redes sociais e círculos cívicos, que denunciam o que consideram um “escárnio fiscal” e mais um exemplo da “política do espetáculo” do Executivo.

Segundo o despacho, a obra tem financiamento externo e inclui 547 mil dólares apenas para fiscalização, o que, segundo analistas, revela “custos claramente inflacionados” para uma intervenção de manutenção que deveria ser rotineira.

O grupo Mitrelli, já conhecido por ser destinatário frequente de contratos públicos milionários em Angola, defende que a empreitada visa “garantir a utilização plena e segura da infraestrutura”, construída em 2010 para acolher o CAN, e hoje em visível estado de degradação.

Mas nas ruas e nas redes, a narrativa é outra. Enquanto o estádio ganha nova tinta e holofotes para um jogo de luxo, milhares de cidadãos questionam as prioridades do Governo, num país onde hospitais carecem de medicamentos, escolas sem carteiras e telhados a cair e estradas intransitáveis devido os buracos.

“Este valor daria para construir dois hospitais provinciais ou equipar dezenas de escolas. Em vez disso, o Estado prefere pintar paredes para tirar fotos com a Argentina”, escreveu um internauta num dos fóruns mais partilhados do Facebook.

Apesar disso, a medida tem gerado forte debate público. Nas redes sociais e em fóruns cívicos, muitos consideram o montante “excessivo” e desproporcional face às prioridades nacionais, lembrando que o valor seria suficiente para construir hospitais, escolas ou infraestruturas essenciais em províncias carenciadas.

“Estamos perante mais um exemplo de má definição de prioridades. O país enfrenta graves carências em áreas fundamentais, mas continua a gastar milhões em obras de efeito simbólico”, criticou um economista ouvido pelo Imparcial Press.

Outros observadores apontam ainda o método de adjudicação, por contratação simplificada, como um elemento que “alimenta suspeitas de falta de transparência e concorrência”.

Recordam que esse modelo, previsto por lei apenas para situações excepcionais, tem sido amplamente utilizado em contratos públicos de grande valor, reduzindo o escrutínio e a competitividade.

Uma carta aberta dirigida à ministra das Finanças, Vera Daves, que circula nas redes sociais, reforça esse sentimento de inconformismo, descrevendo o investimento como um “símbolo da inversão de prioridades orçamentais” e um “exemplo da política do espectáculo”.

“O dinheiro do povo deve ser aplicado na vida do povo, e não no brilho da fachada”, lê-se num dos trechos do documento.

Paralelamente, decorrem obras de reabilitação das vias de acesso ao Estádio 11 de Novembro, no troço Calemba 2 – Via Expressa, com o objectivo de melhorar as condições de mobilidade e segurança rodoviária antes da partida entre as selecções de Angola e Argentina.

Embora o Governo apresente o projecto como parte de um esforço de modernização das infraestruturas desportivas e de promoção da imagem nacional, o debate público revela um crescente ceticismo quanto ao impacto real destas despesas.

Para vários analistas, a reabilitação do Estádio 11 de Novembro – ainda que necessária – acaba por simbolizar um padrão de governação que privilegia a aparência em detrimento da eficiência e da transparência.

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