Kompromat no MPLA – Jorge Eurico
Kompromat no MPLA - Jorge Eurico
jorge eurico

Kompro­mat significa material comprometedor em russo e é usado na alta política do poder. Informação sensível. Por vezes íntima. Por vezes financeira. Ou pessoal. O objectivo é simples: pressionar, controlar ou fragilizar adversários políticos.

O conceito nasceu na tradição dos serviços de informação da antiga União Soviética e consolidou-se no espaço pós-soviético como ferramenta de disputa de poder. Vários políticos poderosos no mundo já foram alvo de kompromat.

Luanda, 2016. Cidade Alta. O general Leopoldino Nascimento (Dino) entra no gabinete de José Eduardo dos Santos. Leva uma pen-drive. O conteúdo envolve vídeos íntimos de Jú Martins.

Informações que circulam há uma década nos bastidores do poder indicam que o material terá chegado através de um israelita identificado como Thaib. O caso terá sido levado ao então Presidente da República num contexto de elevada sensibilidade política.

Jú Martins terá sido confrontado por José Eduardo dos Santos. Colocou o cargo à disposição. O pedido foi recusado. Liminarmente. Relatos de bastidores apontam que a orientação superior terá sido no sentido de arquivar o material. A Casa Militar e os serviços de inteligência terão assumido a custódia dos vídeos.

Dez anos depois, o assunto regressa ao espaço público. A versão que atribui a divulgação a círculos israelitas é recebida com reservas por vários sectores políticos atentos ao caso. Kompromat. Chantagem política.

Nos bastidores do MPLA, ganha força a tese de fogo amigo: camaradas contra camaradas. Um conflito interno exposto ao público, com leitura política inevitável.

Segundo leituras feitas em círculos políticos, estará em curso uma operação destinada a fragilizar Jú Martins numa fase decisiva da disputa interna no partido. O objectivo seria afastá-lo do centro das decisões antes do IX Congresso do MPLA.

Mas, para muitos observadores, o alvo político não se resume a Jú Martins. O principal impacto político atinge João Lourenço. Fragilizar um dos seus aliados mais activos dentro do aparelho partidário pode significar reduzir a margem de manobra do actual líder do MPLA no momento da definição da sucessão política.

Em Angola, os dossiês raramente desaparecem. Ficam guardados. Esperam pelo momento certo. E, quando regressam, quase nunca regressam por acaso. Higino Carneiro que o diga.

O episódio levanta ainda outra questão: A utilização de material íntimo e de informações sensíveis como arma de combate político. O debate deixa de ser moral e passa a ser político.

O nome de Dudik Hazam, israelita residente em Portugal, também surge referido em círculos ligados ao caso. Fontes geralmente bem informadas referem contactos mantidos em Lisboa com um político e jurista angolano interessado em suceder a João Lourenço nos destinos do MPLA e da República.

Memória. Carlos Feijó, Carlos Teixeira e Fernando Garcia Miala são co-autores do livro “A Produção de Informações de Segurança no Estado Democrático de Direito: O Caso Angolano”, publicado em 2003.

A obra aborda precisamente o papel estratégico da informação sensível no funcionamento do Estado e das estruturas de poder.

Outro dado alimenta leituras políticas: Carlos Feijó regressou de Lisboa há quarenta e oito horas. Em política, coincidências raramente passam despercebidas. Os arquivos não dormem. Apenas esperam pelo momento certo. A guerra dos dossiês no MPLA soma e segue. Até aos próximos capítulos.

*Jornalista

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