
O Presidente da República, João Lourenço, inaugurou esta quarta-feira, em Luanda, o Memorial às Vítimas dos Conflitos Políticos, construído para homenagear os cidadãos que perderam a vida durante os conflitos ocorridos no país entre 11 de Novembro de 1975 e 4 de Abril de 2002.
Localizado na zona da Praia do Bispo, junto ao Memorial Dr. António Agostinho Neto, o espaço foi concebido para preservar a memória histórica, promover a reconciliação nacional e transmitir às novas gerações os ensinamentos de um dos períodos mais difíceis da história contemporânea de Angola.
A cerimónia ficou marcada pelo corte da fita inaugural e pelo descerramento da placa, actos protagonizados pelo Chefe de Estado, que esteve acompanhado pela Primeira-Dama, Ana Dias Lourenço, os líderes partidários, ministros, e várias outras figuras do Estado.
Após a inauguração, João Lourenço depositou uma coroa de flores em homenagem às vítimas e percorreu as instalações do memorial, numa cerimónia que reuniu membros do Executivo, representantes de partidos políticos, líderes religiosos, deputados, diplomatas e outros convidados.
Na mensagem inscrita no livro de honra, o Presidente da República considerou que a construção do memorial representa o culminar de um processo de cura, perdão, pacificação e reencontro dos angolanos com a sua história.
Segundo João Lourenço, o edifício, cuja arquitectura evoca um abraço, simboliza a união, a aproximação entre partes anteriormente desavindas, a compreensão do passado e a reconciliação nacional.
O Chefe de Estado defendeu igualmente a preservação da memória colectiva, para que as gerações futuras conheçam os acontecimentos que marcaram o país e contribuam para evitar a repetição dos erros do passado.
“Hoje transformamos a dor em cura e o passado em história”, escreveu o Presidente, reafirmando o compromisso com a união e a solidariedade entre os angolanos.
Implantado num terreno de seis hectares, adjacente ao Memorial Dr. António Agostinho Neto, o complexo integra três elementos principais: a Aliança Eterna, o Hall de Memória e a Mulembeira da Reconciliação.
A Aliança Eterna constitui o elemento arquitectónico central, com dois blocos articulados que evocam um abraço. O Hall de Memória destina-se à homenagem às vítimas e à reflexão sobre os acontecimentos históricos, enquanto a Mulembeira da Reconciliação representa a transmissão de valores e conhecimentos entre gerações.
A construção do memorial insere-se no processo de reconciliação nacional, que inclui iniciativas destinadas à localização, identificação e entrega dos restos mortais das vítimas às respectivas famílias, para a realização de funerais condignos.
Reacções destacam perdão e inclusão
A inauguração suscitou reacções de figuras da sociedade civil, que destacaram a importância da memória histórica, do perdão e da reconciliação para a construção de uma sociedade mais inclusiva.
O jornalista e jurista Lucas Pedro considerou que a obra representa o legado que João Lourenço deixa ao país, defendendo que o perdão e a reconciliação são necessários para trazer paz às almas dos compatriotas que morreram durante os conflitos políticos.
Por sua vez, a jornalista Esmeralda Chiyaka Direito reconheceu ao Presidente da República o mérito de colocar o processo de reconciliação na agenda pública e de promover iniciativas destinadas a devolver dignidade às vítimas e aos seus familiares.
Numa reflexão divulgada nas redes sociais, Esmeralda Chiyaka destacou ainda o simbolismo da representação conjunta de Agostinho Neto, Holden Roberto e Jonas Savimbi, considerando que a imagem convida os angolanos a olhar para o passado sem silenciamentos e a construir um futuro em que as diferenças políticas não constituam barreiras entre cidadãos.
A jornalista defendeu também que o reconhecimento dos avanços no processo de reconciliação não dispensa o escrutínio público nem significa que o trabalho esteja concluído, sublinhando a necessidade de garantir igualdade de oportunidades e reconhecimento dos cidadãos independentemente das suas convicções políticas.
A inauguração do memorial constitui, assim, uma nova etapa na preservação da memória das vítimas dos conflitos políticos, num processo que procura associar o reconhecimento do passado à promoção da paz e da convivência entre os angolanos.