
O Ministério do Interior angolano, que deveria ser o coração operativo da segurança pública, tornou-se, para muitos cidadãos, um organismo onde a missão se perdeu no labirinto das conveniências políticas. A instituição que deveria proteger o país parece, cada vez mais, proteger apenas a si própria — e mal.
A distância entre o que o Ministério deveria ser e aquilo em que se transformou é tão profunda que lembra o alerta de Ngũgĩ wa Thiong’o, quando escreveu que “a desordem institucional começa quando o poder deixa de servir o povo e passa a servir-se dele”.
É precisamente essa inversão moral que muitos angolanos reconhecem no quotidiano: um ministério capturado, distorcido, instrumentalizado.
Durante décadas, interferências políticas sucessivas corroeram a espinha dorsal da instituição. O que deveria ser um órgão técnico, disciplinado e orientado para o bem público, tornou-se um espaço onde a lealdade partidária vale mais do que a competência, e onde a corrupção deixou de ser exceção para se tornar método.
Como lembrava Amílcar Cabral, “a responsabilidade é a primeira arma de um Estado digno” — e é essa arma que parece ter sido abandonada.
Com um orçamento anual milionário, seria legítimo esperar um corpo profissional respeitado, bem equipado e motivado. Mas a realidade é outra: muitos efectivos sobrevivem de trocos humilhantes, estendidos por estrangeiros que, aos olhos da segurança nacional, representam riscos profundos.
A precariedade dos agentes transforma-se, inevitavelmente, na precariedade do próprio Estado. Agostinho Neto avisava que “não há paz possível onde a dignidade é negada” — e a dignidade negada aos agentes do Ministério do Interior é hoje uma ameaça silenciosa à estabilidade do país.
A camada mais baixa da estrutura vive das famosas “gasosas”, pequenas corrupções diárias que, somadas, formam um oceano de fragilidade institucional. A corrupção deixa de ser um acto isolado e passa a ser uma gramática de sobrevivência.
Como observa José Eduardo Agualusa, “a corrupção é a mais eficiente escola de desigualdade” — e essa escola está aberta, activa e profundamente enraizada.
O resultado é devastador: a população já não acredita na seriedade da instituição. O Ministério do Interior, que deveria ser o escudo da nação, tornou-se, para muitos, uma porta aberta para vulnerabilidades internas e externas.
A confiança pública, uma vez quebrada, não se recompõe com discursos; exige reformas profundas, coragem política e uma ruptura com décadas de permissividade.
Hoje, o que se vê é um ministério que, em vez de resolver problemas, os multiplica. Um organismo que, em vez de proteger o cidadão, o expõe.
Um pilar do Estado que, em vez de sustentar a República, contribui para a sua erosão lenta — aquela erosão que Pepetela descreveu como “a morte suave das instituições”.
E enquanto essa erosão continuar, o país permanecerá vulnerável, inquieto, à deriva.
*Investigador em Segurança e Defesa