
O escritor, alto funcionário e antigo ministro senegalês Cheikh Hamidou Kane, autor de L’Aventure ambiguë (A Aventura Ambígua), um dos clássicos da literatura africana, morreu sábado à noite em Dakar, aos 98 anos, anunciou hoje a Agência de Imprensa Senegalesa (APS).
A morte foi igualmente confirmada pelo Presidente senegalês, Bassirou Diomaye Faye, que prestou homenagem ao escritor, destacando o contributo da sua obra para a reflexão sobre a relação entre a abertura ao mundo e a preservação da identidade africana.
“Com A Aventura Ambígua, ele deu a gerações de africanos as palavras para pensar” sobre a possibilidade de conhecer o mundo sem perder a própria identidade, escreveu Faye numa mensagem de homenagem.
O chefe de Estado considerou ainda que a obra de Kane pertence actualmente ao património do Senegal e de toda a África.
Nascido em 02 de Abril de 1928, em Matam, no norte do Senegal, Cheikh Hamidou Kane teve uma formação marcada pelo encontro entre a tradição islâmica e a educação ocidental.
Frequentou a escola corânica durante a infância e prosseguiu os estudos no sistema de ensino francês, antes de viajar para Paris, onde estudou Direito e Filosofia na Sorbonne e frequentou a Escola Nacional da França Ultramarina.
Essa experiência entre diferentes universos culturais tornou-se central na sua obra literária. Publicado em 1961 pela Julliard, L’Aventure ambiguë acompanha o percurso de um jovem senegalês confrontado com a educação ocidental e com a necessidade de conciliar diferentes referências culturais e espirituais.
O romance, de inspiração autobiográfica, aborda o confronto entre a tradição africana e os valores ocidentais, explorando questões relacionadas com identidade, religião, conhecimento e transformação cultural. A obra viria a tornar-se uma referência da literatura africana francófona.
Em 1962, L’Aventure ambiguë recebeu o Grande Prémio Literário de África Negra e passou a ser estudado em escolas e universidades em vários países africanos. A obra foi traduzida para várias línguas e continua a ser objecto de estudos académicos e de adaptações.
Apesar do reconhecimento alcançado com o primeiro romance, Kane manteve uma produção literária relativamente reduzida. Depois de várias décadas sem publicar ficção, lançou em 1995 Les Gardiens du temple, apresentado como continuação de L’Aventure ambiguë.
Do serviço público à literatura
A carreira de Cheikh Hamidou Kane não se limitou à literatura. Depois da independência do Senegal, ocupou vários cargos de responsabilidade na administração pública e em organismos internacionais.
Em 1961, foi nomeado governador da região de Thiès e, no ano seguinte, tornou-se alto responsável pelo planeamento. Entre 1962 e 1974, trabalhou para a UNICEF, onde exerceu funções de direcção para a África subsaariana, com actividade em vários países do continente. Mais tarde, foi vice-presidente do Centro de Investigação para o Desenvolvimento Internacional, no Canadá.
Em 1978, assumiu o cargo de ministro do Desenvolvimento Industrial e do Artesanato e, entre 1981 e 1988, foi ministro do Plano e da Cooperação do Senegal.
A Universidade Digital do Senegal recebeu posteriormente o nome de Cheikh Hamidou Kane, numa homenagem à sua trajectória intelectual e ao seu contributo para a cultura e a educação.
A Universidade Cheikh Anta Diop de Dakar considerou que o escritor deixa um importante património intelectual e cultural, capaz de continuar a alimentar a reflexão de leitores, estudantes e investigadores.
A morte de Cheikh Hamidou Kane encerra, aos 98 anos, a trajectória de uma das figuras mais reconhecidas da literatura senegalesa e africana do século XX, cuja obra colocou no centro do debate a tensão entre tradição e modernidade, identidade e abertura ao mundo.
As cerimónias fúnebres estão previstas para hoje, domingo, em Dakar, antes do enterro no cemitério de Yoff, segundo informações divulgadas pela imprensa senegalesa.