
Vitorino Domingos Hossi, antigo ministro do Comércio, quadro histórico da UNITA e juiz conselheiro do Tribunal Constitucional, morreu esta quarta-feira, 19 de Agosto, aos 69 anos, apurou o Imparcial Press junto de fontes familiares.
Hossi foi encontrado sem vida no seu apartamento, no bairro do Kinaxixi, em Luanda, segundo informações avançadas à imprensa. As circunstâncias da morte não foram, até ao momento, oficialmente esclarecidas.
A morte ocorre 19 dias depois do seu aniversário. Vitorino Domingos Hossi nasceu a 28 de Julho de 1957, no Huambo. Era jurista de formação, tendo estudado Direito na Universidade Católica Portuguesa, em Lisboa, onde também realizou estudos de pós-graduação em Direito Comunitário.
Mais tarde, fez uma pós-graduação em Petróleo e Gás pela Faculdade de Direito da Universidade Agostinho Neto.
O seu percurso político esteve ligado à UNITA desde os anos da guerra civil e ganhou particular relevância no período de transição para o multipartidarismo.
Em 1992, na preparação das primeiras eleições gerais realizadas em Angola, o seu nome chegou a ser equacionado para o cargo de Primeiro-Ministro, caso a UNITA vencesse as eleições.
Segundo relatos sobre esse período, a sugestão terá partido de Abel Epalanga Chivukuvuku, um dos dirigentes próximos de Jonas Savimbi, que terá defendido o nome de Hossi como possível chefe do Governo num eventual executivo liderado pela UNITA.
O jurista acabaria, contudo, por ser uma das figuras da UNITA retidas pelas forças governamentais na sequência da crise político-militar que se seguiu às eleições de 1992.
O seu nome continuaria ligado ao processo político que conduziu à implementação dos acordos de paz e, posteriormente, à formação do Governo de Unidade e Reconciliação Nacional (GURN).
Com a entrada da UNITA no GURN, na sequência do Protocolo de Lusaka, Vitorino Hossi assumiu a pasta do Comércio. Foi um dos ministros indicados pela UNITA para integrar o Executivo de reconciliação nacional, num período marcado pela tentativa de acomodar no Governo as principais forças políticas angolanas.
Hossi permaneceu no cargo durante vários anos. Em declarações feitas posteriormente sobre a experiência no GURN, considerou que o Governo de Unidade e Reconciliação Nacional deixou “boas sementes” para o futuro, sobretudo no domínio da convivência e coabitação política.
O antigo governante descreveu a sua passagem pelo Executivo como uma oportunidade de trabalhar numa instituição liderada por um partido diferente daquele a que pertencia, salientando que, apesar das insuficiências, existia uma intenção de construir um Governo em que todos os angolanos se sentissem representados.
Em 2004, deixou o cargo de ministro do Comércio, sendo substituído por Joaquim Icuma Muafuma.
Depois de abandonar o Governo, Vitorino Hossi afastou-se progressivamente da actividade política e dedicou-se à advocacia e à consultoria jurídica. O seu percurso profissional incluía experiência no sector empresarial e na área jurídica, tanto em Angola como em Portugal.
Durante vários anos manteve-se afastado da actividade partidária pública, até voltar a ganhar visibilidade política em 2019, quando manifestou apoio à candidatura de Adalberto Costa Júnior à liderança da UNITA.
O regresso à vida política acabaria por conduzi-lo novamente a uma das mais altas instituições do Estado.
Em Janeiro de 2023, Vitorino Domingos Hossi foi indicado pela bancada parlamentar da UNITA para o cargo de juiz conselheiro do Tribunal Constitucional, depois da jubilação de Guilhermina Prata.
A sua eleição ocorreu na Assembleia Nacional a 10 de Janeiro de 2023, tendo posteriormente tomado posse como juiz conselheiro. O Tribunal Constitucional identifica Hossi como juiz conselheiro eleito pela Assembleia Nacional.
Nos últimos três anos, participou em numerosos processos apreciados pelo plenário do Tribunal Constitucional, incluindo acórdãos publicados ainda este ano. O seu nome consta da composição do tribunal em decisões proferidas em Junho e Julho de 2026, o que demonstra que permaneceu em funções até perto da data da sua morte.
A morte de Vitorino Hossi encerra uma trajectória que atravessou diferentes fases da história política contemporânea de Angola: da guerra civil à abertura multipartidária, das eleições de 1992 ao processo de paz, da experiência de coabitação no GURN ao regresso à política activa e, finalmente, ao exercício da magistratura constitucional.
Jurista, político e antigo governante, Hossi passou de um dos nomes considerados para liderar um eventual Governo da UNITA em 1992 a ministro do Comércio num Executivo de reconciliação nacional e, décadas depois, a juiz conselheiro da instituição responsável pela fiscalização da constitucionalidade em Angola.
Até ao momento, não foram divulgadas oficialmente as causas da morte. Informações sobre o funeral e as cerimónias fúnebres deverão ser divulgadas posteriormente.