MPOX e o crepúsculo das estruturas que deveriam proteger-nos –  Lando Miguel
MPOX e o crepúsculo das estruturas que deveriam proteger-nos -  Lando Miguel
lando

O país desperta, mais uma vez, para um cenário de pânico colectivo, mas desta vez o pânico não é apenas uma emoção: é uma atmosfera, uma substância, uma presença que se infiltra nas paredes das instituições, como se a própria noite tivesse decidido reclamar o território nacional.

A doença MPOX, essa sombra laboratorial que muitos descrevem como um experimento cruel destinado a medir a resistência do corpo africano, irrompe agora com a violência silenciosa de uma tempestade que não anuncia a sua chegada.

E aquilo que deveria ser uma muralha sanitária — sólida, vigilante, impenetrável — transformou-se numa porta escancarada, aberta pela negligência do Ministério da Saúde, do SME, da Polícia Fronteiriça e até das Forças Armadas, que deveriam ser os guardiões da soberania biológica da nação.

Quando a MPOX ainda devastava o povo congolês, quando as fronteiras extensas e a mobilidade entre os dois países exigiam uma vigilância quase militar, o Ministério da Saúde comportou-se como quem dorme diante de um incêndio que já consome o telhado.

Não houve coordenação séria com o Ministério da Defesa, nem com o Ministério do Interior, nem com qualquer estrutura que pudesse impedir que o perigo atravessasse o território nacional.

Como escreveu o filósofo chinês Han Fei, “um Estado cai não pela força do inimigo, mas pela fraqueza dos seus guardiões”. Hoje, essa fraqueza não é apenas visível: é palpável, é sufocante, é a prova viva de que a República está a ser corroída por dentro.

O que se vive no Ministério da Saúde ultrapassa a vergonha institucional: é uma tragédia administrativa, uma falência moral, uma ruína anunciada.

Agora, quando a MPOX já entrou pelas portas do país, quando o sofrimento já se instalou nos bairros, nos hospitais, nas famílias, surgem vozes que querem aparecer como heróis, como salvadores tardios, como bombeiros que chegam quando a casa já é cinza. Mas que heroísmo é esse que só desperta depois da tragédia?

Como dizia Lu Xun, “não há maior mentira do que a virtude proclamada tarde demais”. E esta virtude tardia é hoje o espectáculo grotesco que se apresenta diante do povo.

O Presidente da República, diante deste quadro, não é apenas chamado a tomar decisões sérias: é convocado a enfrentar um colapso institucional, um desmoronamento silencioso, uma crise que ameaça transformar a própria ideia de Estado num cadáver administrativo.

O povo está a sofrer – e sofre não por fatalidade, mas por incompetência administrativa, por desleixo político, por irresponsabilidade estrutural que se arrasta como uma doença crónica no aparelho estatal.

E então surgem perguntas que ecoam como marteladas na consciência nacional, perguntas que não são apenas retóricas, mas acusações, gritos, alertas:

  • Função do SME — Porque existe o SME? Será que a sua função se resume à emissão de passaportes, como se a segurança migratória fosse apenas burocracia e não a primeira linha de defesa contra ameaças transnacionais?

  • Polícia Fronteiriça — Porque existe a Polícia Fronteiriça? Para vigiar o quê, se o perigo atravessa as fronteiras como quem atravessa uma porta sem fechadura, como se o país fosse um corpo sem pele?

  • Corpo de Bombeiros — Porque existem os Bombeiros? Para quê, se muitos quartéis vivem em condições que fariam corar qualquer Estado que se respeite, como se a protecção civil fosse um ritual vazio?

Estas instituições parecem ter sido criadas para fins que não ouso mencionar aqui — não por falta de coragem, mas porque exigem uma análise profunda, quase cirúrgica, que será desenvolvida nos próximos artigos.

O que importa agora é o essencial: o povo vive numa insegurança total, sanitária, social, institucional. A MPOX é apenas o sintoma; a verdadeira enfermidade é a fragilidade estrutural, a erosão moral, o abandono político das estruturas que deveriam proteger a nação.

O sofrimento tornou-se, para muitos, uma herança obrigatória, como se nascer angolano implicasse carregar um fardo que não foi escolhido, como se a dor fosse um imposto inevitável.

O escritor chinês Mo Yan escreveu: “quando o Estado falha, o povo aprende a sobreviver no silêncio”. E é esse silêncio que hoje se espalha pelas ruas, pelas casas, pelos hospitais — um silêncio pesado, que não é paz, mas resignação, uma resignação que anuncia que o país entrou numa era de sombras, onde a esperança é um luxo e a sobrevivência é uma luta diária.

*Investigador em Segurança e Defesa

Compartilhar:

Facebook
WhatsApp
LinkedIn
Twitter
error: Conteúdo protegido