
Uma mulher morreu vítima de cólera depois de ter sido retirada à força por familiares do Centro de Tratamento da doença, no município de Quilengues, província da Huíla, e levada para uma igreja, onde o seu estado de saúde se agravou. Ao regressar à unidade sanitária, a paciente já não apresentava sinais vitais.
Segundo informações avançadas pelo director do Gabinete Provincial da Saúde na Huíla, Paulo Luvangamo, trata-se de um caso inédito na província que resultou em morte directamente associada à interrupção do tratamento hospitalar por motivos de ordem religiosa.
A vítima, cuja idade não foi divulgada, encontrava-se internada com um quadro de desidratação grave quando foi retirada do centro especializado.
De acordo com o responsável, o caso ocorreu na última terça-feira, quando a família decidiu levar a paciente para uma igreja, acreditando numa alternativa espiritual ao tratamento médico.
No entanto, a doente não apresentou qualquer melhoria no local e acabou por ser devolvida ao centro de tratamento, já sem vida.
Paulo Luvangamo reconheceu que, para além da responsabilidade da família, há também falhas por parte da equipa de saúde, que não deveria ter cedido à pressão dos familiares.
“É dever dos técnicos de saúde garantir a continuidade do tratamento e proteger a vida do paciente”, sublinhou.
O director alertou ainda que a cólera não se cura com práticas religiosas ou terapias tradicionais, mas sim com hidratação adequada e assistência médica atempada.
Apelou às famílias e às comunidades para abandonarem comportamentos que colocam vidas em risco, frisando que tais atitudes contribuem para o aumento de mortes evitáveis.
A situação epidemiológica na província continua preocupante. Desde o início do surto, em Janeiro, a Huíla registou 3.157 casos de cólera e 60 óbitos, dos quais 43 ocorreram fora das unidades hospitalares.
Nas últimas 24 horas, foram notificados 24 novos casos, 11 dos quais no município de Quipungo, associados a uma cerimónia tradicional de iniciação feminina, conhecida como “efiko”.
O responsável pela Saúde provincial lamentou que estes novos casos surjam num momento em que a doença já se encontrava controlada em várias zonas, atribuindo o recrudescimento à negligência e ao desrespeito pelas medidas de prevenção, como o consumo de água tratada e a lavagem regular das mãos.