
Diz a sabedoria popular que só damos verdadeiro valor às coisas quando as perdemos. Em Angola, infelizmente, essa máxima está condenada a repetir-se.
O dia em que João Lourenço deixar a Presidência, muitos dos seus críticos de hoje descobrirão, tarde demais, que uma parte substancial do que hoje existe no país foi construída precisamente sob a sua liderança.
Conforme digo sempre: “Vocês só vão reconhecer os feitos do JLo quando ele já não estiver lá”.
É legítimo reconhecer que Angola continua a enfrentar desafios profundos. Mas é intelectualmente desonesto sustentar que o país piorou após 2017.
Essa narrativa não resiste aos factos. Ela nasce mais da polarização extrema, do ressentimento de grupos que perderam privilégios, de “revús de ocasião” e de dadores de sangue podre, do que de uma análise séria da realidade nacional.
O mais grave é que essa retórica se aproveita da dor de um povo vulnerável e, através do comportamento de manada, transforma frustração legítima em discurso político vazio.
Quando analisamos o consulado de João Lourenço com honestidade histórica, o quadro é outro.
Antes de 2017, Angola encontrava-se asfixiada financeiramente. O país tinha perdido acesso aos bancos correspondentes internacionais e às divisas, situação dramática para uma economia fortemente dependente das importações.
Foi no consulado de João Lourenço que Angola reconstruiu a sua credibilidade externa, reabriu canais financeiros e recuperou gradualmente o acesso aos dólares, condição básica para o funcionamento de qualquer economia moderna.
A iminente saída da lista cinzenta do GAFI é mais um símbolo dessa reconstrução de confiança internacional, algo impensável sem reformas sérias na governação financeira.
Não se erradicou a corrupção, ninguém afirma isso, mas mudou-se profundamente o ambiente institucional. O tempo em que Angola funcionava como “casa da Mãe Joana” terminou.
Hoje, qualquer gestor público sabe que já não pode desviar recursos de forma descarada sem consequências. A simples mudança de comportamento já é, por si, uma conquista institucional relevante.
Nunca como hoje tantos angolanos falaram tão abertamente contra o Presidente e contra o governo sem sofrer represálias.
As redes sociais democratizaram o escrutínio público e reduziram o monopólio da comunicação. A crítica tornou-se quotidiana, visível, intensa, e isso é sinal inequívoco de maior abertura política.
O país viveu uma expansão notável de infra-estruturas sociais: novas unidades hospitalares e escolares; reforço da regulação e supervisão bancária; redução do crédito malparado; expansão da energia elétrica e acesso à água potável em regiões remotas, garantindo melhor qualidade de vida para comunidades até então negligenciadas; grandes obras estruturantes como o Aeroporto Internacional Dr. António Agostinho Neto e o Canal do Cunene, vital para o combate à seca no sul.
É inegável que se registou uma melhoria significativa nos serviços bancários, no cumprimento das regras de compliance e na redução do crédito mal-parado.
Antes de 2017, muitas pessoas tinham acesso ao crédito sem garantias adequadas e, posteriormente, os bancos não dispunham de mecanismos eficazes para proceder à cobrança, o que agravou os níveis de incumprimento e fragilizou o sistema financeiro.
O programa Kwenda tornou-se referência no combate à pobreza extrema. O apoio à agricultura familiar, os microcréditos e as subvenções aos combustíveis nos sectores pesqueiro e industrial visam romper com a dependência do petróleo e construir uma base produtiva nacional mais sólida.
Angola voltou a ocupar espaço relevante na diplomacia regional, com protagonismo em processos de mediação no Congo e no Ruanda. As relações com instituições internacionais foram reequilibradas, fortalecendo a posição do país no cenário global.
As reformas na administração pública, o reforço da transparência na gestão do Estado, a modernização institucional e os esforços de diversificação económica constituem pilares centrais de uma governação orientada para a sustentabilidade e para a construção de um Estado mais funcional, previsível e credível.
Estas transformações visam corrigir distorções estruturais acumuladas ao longo de décadas, aumentar a eficiência do sector público, atrair investimento produtivo e criar bases mais sólidas para o crescimento económico, a geração de emprego e a melhoria progressiva das condições de vida da população.
Neste quadro, destaca-se de forma particularmente relevante o reforço efectivo da independência do poder judicial verificado desde 2017, momento em que o Presidente João Lourenço assumiu a condução dos destinos do país.
Os sucessivos chumbos do Tribunal Constitucional a actos do Executivo e do Legislativo revelam uma ruptura significativa com práticas anteriores de subordinação política do sistema judicial.
Casos emblemáticos, como a declaração de inconstitucionalidade do acórdão no processo dos “500 milhões” por violação do direito de defesa e do julgamento justo; a invalidação de normas do Decreto Presidencial n.º 69/21 por ofensa à independência judicial e à reserva absoluta de lei; o afastamento de vários dispositivos da Lei n.º 13/2024 sobre crimes de vandalismo por violarem princípios de proporcionalidade, dignidade humana e direitos fundamentais; bem como o chumbo de norma central do Decreto da Assembleia Nacional n.º 18/XVII relativa à perda de nacionalidade, demonstram que o Tribunal Constitucional passou a exercer de forma firme e autónoma o controlo da constitucionalidade, sem subordinação política nem deferência automática ao poder executivo.
Este padrão de decisões não fragiliza o Estado; pelo contrário, consolida a separação de poderes e fortalece o Estado democrático e de direito em Angola, representando uma mudança estrutural no funcionamento das instituições públicas e no equilíbrio do sistema político nacional.
Apesar das conquistas, os setores social e econômico ainda enfrentam desafios estruturais. A pobreza, o desemprego e as desigualdades sociais continuam a ser questões urgentes, que exigem esforços contínuos.
O consulado de João Lourenço até agora reflete uma liderança focada em modernizar Angola, fortalecer as instituições democráticas e promover o desenvolvimento econômico e social.
Contudo, o sucesso desse legado dependerá da consolidação das políticas em curso e da superação dos desafios que ainda persistem. Mas negar o caminho percorrido é negar a própria realidade.
Conclusão
O legado de João Lourenço não é perfeito, nenhum é. Mas é profundamente transformador. Ele iniciou uma viragem estrutural na governação, no funcionamento das instituições e na forma como Angola se posiciona no mundo.
Quando ele já não estiver lá, muitos perceberão que o país de hoje é incomparavelmente mais sólido do que o país que herdou.
E então, talvez, já seja tarde para reconhecer com justiça aquilo que foi construído.
P.S. Tenho este texto escrito faz tempo, mas tenho estado a ponderar em publica lo, porque já sei o que vem daí: vão me chamar bajulador e todos os adjectivos feios possíveis.
Não ataquem o mensageiro. Ataquem a mensagem. Procuro sempre fazer análises objectivas, sem apelos emocionais, nem falaciosos. Desmintam os factos enunciados aqui, se é possivel. Desmontem os argumentos aqui apresentados com contra argumentos consistentes. Não caiam na tentação de chamar nomes e adejectivar, só porque não gostam do JLo.
Indivíduos sem argumentos partem para adjectivações e ataques pessoais, uma tática de desvio onde, em vez de refutar a ideia, atacam o caráter ou traços pessoais do interlocutor, usando adjetivos e ataques pessoais para desqualificar o argumento e a pessoa, em vez de se aterem à discussão lógica.
*Docente universitário