O meu testemunho no ataque policial à democracia e ao Estado de Direito no Uíge – Ângelo Kapwatcha
O meu testemunho no ataque policial à democracia e ao Estado de Direito no Uíge - Ângelo Kapwatcha
PN unita

Eu estive no Uíge. Estive presente durante os bombardeamentos e disparos da Polícia contra os militantes da UNITA, na sede provincial da UNITA no Uíge. Chamo-me Ângelo Kapwatcha. No dia 6 de Agosto de 2026, integrei a caravana do Presidente da UNITA, de Luanda para o Uíge. O meu nome constava do programa do Uíge para, entre várias actividades, ser um dos palestrantes na actividade da JURA.

A minha palestra não foi cancelada. Ela teve lugar num belo anfiteatro, pequeno, mas aconchegante. O que veio a seguir à palestra foi, literalmente, a guerra que, de forma vil e despudorada, a mando do Governador do Uíge, Senhor José Carvalho da Rocha, e do seu Comandante Provincial da Polícia Nacional, Sr. Ernesto Hayamunhe, desencadearam contra o povo do Uíge, personificado nos militantes da UNITA, que ansiosamente aguardavam o comício que seria presidido pelo Presidente Adalberto Costa Júnior, a partir das 13 horas do dia 8 de Agosto de 2026.

Das crianças aos mais velhos, era visível nos rostos da população do Uíge a vergonha, o sentimento de culpa e o embaraço que o ataque da Polícia à UNITA causou. Mas a culpa não é do povo do Uíge, e sim do Governador do Uíge, que não sabe fazer as coisas. Pois a antiga cidade de Carmona, até hoje, tem 97% dos edifícios a apodrecer, conservando a única pintura que o colono deixou.

Eu odeio refrigerante, odeio Coca-Cola. Mas, durante a minha estadia no Uíge, só bebia mesmo Coca-Cola porque o Uíge não tem água potável. Nas torneiras do hotel de três estrelas saía um líquido parecido com maruvo ou quissarra, mas disseram-me que aquilo também se chama água.

Ao invés de explodirem os adversários políticos, deveriam governar, porque é apenas disso que o Uíge precisa. O capim no Uíge está a chegar ao palácio. No Uíge falta segurança alimentar. O Bengo está melhor que o Uíge.

O que aconteceu, então, no Uíge?

Vou partir da construção hipotética de duas premissas.

A primeira premissa hipotética instaura-se a partir de um primórdio insensato e irresponsável do Governador do Uíge, Sr. José Carvalho da Rocha, coadjuvado pelo seu vassalo, Ernesto Hayamunhe, nas vestes de Comandante Provincial da Polícia Nacional e Delegado do MININT no Uíge.

Como a guerra acabou há precisamente 24 anos, Hayamunhe procurou bravura, atacando de forma vil e covarde a UNITA, para que João Lourenço, Presidente do MPLA, o promova, talvez, a Comandante-Geral da Polícia Nacional ou a Ministro do Interior.

A UNITA, sendo um partido que tem 100% de integração social, está presente em todas as províncias de Angola. Não existe nenhuma aldeia, nenhuma comuna, nenhum município e nenhuma província que não tenha uma representação significativa da UNITA. A UNITA impulsionou todos os acordos de paz e esteve em todas as frentes de luta com o MPLA.

Com esse perfil da UNITA, só um Governador insensato e néscio poderia mandar a Polícia atacar a UNITA.

A segunda premissa hipotética é esperta, elegante, astuta, cavilosa e calculista: a do Presidente João Manuel Gonçalves Lourenço, coadjuvado pelo ambicioso e silencioso General Fernando Garcia Miala.

O Presidente João Lourenço, dormindo ou acordado, sempre sonhou governar Angola até à tumba e dizia, de viva-voz, que dez anos é pouco para ser Presidente. A partir desse momento, aventou hipóteses remotas de alterar a Constituição de Angola e tentar a sorte de impor um terceiro mandato.

Não conseguiu e o tempo urge. Está a lutar na escuridão, procurando, às apalpadelas, onde irá segurar para manter o controlo da máquina do poder e, desta feita, ter sono tranquilo pós-2027.

Desta vez, no Uíge, tentaram protagonizar uma “carnificina atómica” igual ou superior àquela chacina de 1992, depois das fraudulentas eleições.

Permitam-se que recue nos anais de 1992. A UNITA participou de forma retumbante e triunfal nas eleições gerais de 1992. Admitamos que houve excessos de ambas as partes. Mas o MPLA fez uma fraude monumental e anunciou a vitória.

A UNITA inicialmente contestou os resultados e, depois, no interesse da paz e da reconciliação nacional, aceitou os resultados anunciados pela CNE, enquanto partido e nos termos da lei de então.

Os dois candidatos mais votados, nomeadamente o Engenheiro José Eduardo dos Santos e o Dr. Jonas Malheiro Savimbi, precisavam de um desempate em segunda volta das eleições presidenciais.

Como José Eduardo dos Santos era Presidente em funções, os assessores russos e brasileiros aconselharam-no de que, se houvesse uma segunda volta das presidenciais com o Dr. Jonas Malheiro Savimbi, não teria hipótese de ganhar. Por isso, deveria induzir a UNITA em erro e arrastá-la para retomar a guerra.

E a guerra seria a única sorte para continuar no poder sem mandatos, pois continuaria a evocar a guerra para adiar as eleições. A Constituição dizia que o Presidente em funções só cessava as suas funções com a tomada de posse do novo Presidente eleito e, se não houvesse eleições, então o Presidente em funções continuaria.

Assim sendo, fizeram todo o tipo de provocação contra a UNITA antes, durante e depois das eleições de 1992. Atacaram as suas instalações em todas as partes de Luanda e de Angola, e a UNITA não se deixou abalar e ripostou.

O MPLA, na altura, lançou a isca e a UNITA, na altura, mordeu a isca.

Em Outubro de 1992, o MPLA, usando a Polícia Nacional e as Forças Armadas, decapitou a Direcção da UNITA e quase conseguiu. Assassinou de forma hedionda Jeremias Kalandula Tchitunda, Elias Salupeto Pena, Alicerce Mango, entre outros dirigentes de topo.

É isto que João Lourenço, na hipotética premissa inteligente e cavilosa, queria reeditar no Uíge.

Ora, a Direcção toda da UNITA estava no Uíge. Seria toda apanhada numa só actividade e numa única tarde. A UNITA deveria ser parcialmente apagada do mapa de Angola.

Senão, vejamos:

Estavam no Uíge o Presidente da UNITA, Engenheiro Adalberto Costa Júnior, acompanhado pelos seus três Vice-Presidentes, nomeadamente o Sr. Álvaro Tchikwamanga, a Senhora Arlete Chimbili e o Sr. Simão Dembo.

Estava no Uíge o Secretário-Geral da UNITA, Sr. Liberty Tchiyaka; estava no Uíge o Secretário Nacional da JURA, Sr. Nelito Ekwikwi; estava no Uíge a Presidente do Grupo Parlamentar da UNITA, Senhora Navita Ngolo; estava no Uíge a Presidente da LIMA, Sra. Antonieta Kulanda; estava no Uíge o Secretário Provincial de Luanda da UNITA, Sr. Adriano Sapinhãla.

Estavam no Uíge os generais reformados da UNITA: General Abílio Kamalata Numa, General Paulo Lukamba Gato, General Carlos Kandanda, entre outros.

Estava ainda no Uíge o antigo e veterano Vice-Presidente da UNITA, o diplomata Ernesto Mulato.

Estavam no Uíge todas as direcções da JURA das 21 províncias de Angola, etc., etc.

Estava no Uíge toda a equipa administrativa da Presidência da UNITA, entre secretários e outros quadros.

O que significa que o núcleo duro da UNITA seria dizimado numa única tarde.

O ataque tinha sido preparado de forma visivelmente premeditada. O erro de cálculo fez com que a Polícia se precipitasse e atacasse os primeiros grupos da LIMA, do DAP (grupos de animação e recreação) e alguns elementos da JURA, pois o grosso da JURA de todas as províncias estava isolado no município do Negage.

Nessa hipotética premissa inteligente, se João Lourenço conseguisse eliminar total ou parcialmente a Direcção da UNITA, diria que morreram por teimosia deles, porque o Governador do Uíge não autorizou que a UNITA fizesse a actividade no pátio da sua própria delegação, na sua própria casa, que compraram desde 1992.

Assim, João Lourenço iria reeditar primeiro o massacre pós-eleitoral de 1992 em Luanda e depois faria a paz à maneira do Memorando do Luena, dialogando com os sobreviventes e apelando à irmandade e à concidadania.

Assim, a UNITA seria entregue a uma nova direcção, fragilizada e vulnerável e, por conseguinte, dócil de domar.

Assim, do massacre do Uíge nasceria um Presidente João Lourenço sem mandato por mais dez ou quinze anos, pois diria que, com a morte dos dirigentes da UNITA, tendo em conta a dimensão da UNITA, não haveria ambiente para eleições, pois os militantes da UNITA nas cidades e nas zonas rurais iriam vingar a sua direcção e inviabilizar as eleições.

E, assim sendo, vamos precisar de dez a quinze anos para o país atingir a paz de espírito.

Num estalar de dedos, o MPLA entregaria a UNITA a um dos seus militantes, talvez muito velhinho e quase aposentado, ou muito jovem e maleável. Provavelmente, seria ele o interlocutor de João Lourenço para instaurar um processo de paz que culminasse com a assinatura do “Memorando de Entendimento do Uíge”.

E, assim, João Lourenço estaria literalmente salvo dos embaraços quer das iminentes eleições de 2027 quer da briga actual com Higino Carneiro, pois continuaria confortável no poder pós-conflito do Uíge.

Para o Governador actual do Uíge, para o Secretário-Geral do MPLA, o actual, silencioso e amorfo Paulo Pombolo, seria uma ressurreição gloriosa, pois está politicamente num silêncio cadavérico.

Assim, todos os dirigentes do MPLA que são naturais do Uíge ou provenientes de lá seriam homenageados com cargos eternos em torno do JLO.

É crónica. São premissas hipotéticas.

Mas, na Itália, na ilha siciliana do Mediterrâneo, é assim: quando a máfia siciliana quer um grande negócio, tenta negociar com o forte, com o dono, com o proprietário. Se este não ceder às pressões da máfia, é tirado do caminho, é silenciado rapidamente.

E, para apagar as pegadas, negocia-se directamente com o filho dele, ingénuo, ou alguém muito próximo; simula-se solidariedade e comoção e, rapidamente, os herdeiros herdam o poder deixado livre. Aí, a máfia entra como sócia ou accionista, como mentora do inocente ou como nova dona do poder deixado órfão.

Em Angola, isto aconteceu no dia 22 de Fevereiro de 2002.

Só que a UNITA não se deixou cair e a surpresa foi total: “Oh, então não conseguimos ganhar tudo…”, pois, como uma fénix, a UNITA saiu das cinzas rápido demais.

O que é que no Uíge estragou essa segunda premissa hipotética?

A Direcção da UNITA e os seus convidados estavam no hotel quando os ataques começaram na delegação da UNITA. Seria exposição demais atacar no hotel.

A Polícia pensou que a Direcção estava dentro da delegação e o objectivo era amassá-la dentro do edifício do Secretariado. E não seria difícil fazê-lo, pois o edifício não é um palácio faraónico como aquele da Cidade Alta, em Luanda.

Voltemos ao título da crónica:

O MPLA premeditou e provocou tudo. A UNITA não cedeu às provocações. Por isso, todo o plano falhou.

  1. A propaganda do MPLA

A UNITA tinha agenda na cidade do Uíge e no município do Negage. Por lógica, seria a UNITA a colocar toda a sua propaganda nas ruas, porque era ela que estava a festejar os seus eventos.

Mas o MPLA ocupou todos os postes de luz com as suas bandeiras.

A cidade onde a UNITA iria celebrar as suas mais importantes efemérides, antes de a UNITA começar as suas actividades, foi preenchida com bandeiras do MPLA.

Nesta fotografia, aparece o núcleo provincial da Assembleia Nacional, mas colorido pelas bandeiras do MPLA.

A Assembleia é ou não é um órgão de soberania? E, fora da época eleitoral, o MPLA justifica com o quê essas bandeiras?

  1. O acampamento da JURA

A JURA, com as suas delegações que vieram de todas as províncias, avançou para o Uíge no final do mês de Julho para ir preparando os eventos e acampar.

Sabendo, de antemão, que o MPLA iria bloquear tudo, recorreram ao Mosteiro dos Padres Capuchinhos para pedir um espaço confortável para acolher o acampamento.

Os padres inicialmente deram sinal verde, mas, temendo perseguição e represálias do MPLA, fizeram algumas ligações.

Depois apareceram quatro senhores do MPLA que intimidaram os padres para não entregarem nenhum espaço à JURA para acampar.

Isto obrigou a JURA a alojar-se no meio do capim, num terreno baldio, não reclamado por ninguém.

Assim, de forma resiliente, a JURA desbravou o capim nos arredores do município do Negage, a 40 quilómetros da sede do Uíge.

Sem água potável, sem luz eléctrica e sem qualquer tipo de apoio por parte da Administração.

A Polícia que por lá passou apenas veio para espionar e intimidar, e não para proteger.

Confirmaram isto porque, ao longo dos dias do acampamento, elementos do MPLA, transportados em motorizadas, vinham fazer provocações no acampamento da JURA.

Ainda outros elementos do MPLA conseguiram infiltrar-se na JURA e chegaram a montar as suas tendas no meio do acampamento, fazendo-se passar por elementos da JURA. Foram detectados a tempo e aconselhados a retirar-se do recinto privado da JURA.

Isto aconteceu antes de a Direcção da UNITA chegar ao Uíge.

  1. As denúncias dos comerciantes

A administradora municipal do Negage, Delfina Henriques, segundo denúncias de comerciantes do Negage, ameaçou todos os comerciantes de que não poderiam vender quaisquer mercadorias aos jovens da JURA e aos membros da UNITA, sob pena de mandar fiscais encerrarem para sempre os seus estabelecimentos comerciais.

  1. A chegada da caravana da UNITA

A caravana da Direcção da UNITA partiu de Luanda para o Uíge, passando por municípios e comunas do Bengo e do Uíge, sendo saudada pelas populações de forma eufórica e recebendo muitas boas-vindas.

Porém, quando faltavam dois quilómetros para a sede municipal do Uíge, um carro da Polícia ofereceu-se para ser “batedor”, escoltando a caravana presidencial na entrada triunfal na cidade de “Carmona”, que era terra do “Bago Vermelho” no tempo colonial e actualmente é terra da fome, do capim e da água turva.

Os agentes da Polícia tinham uma orientação muito expressa: simular uma escolta, mas desviar a caravana presidencial da UNITA para que não cruzasse as principais avenidas do envelhecido Uíge.

Mesmo assim, entrou-se na cidade do Uíge no dia 6 de Agosto de 2026.

Na chegada, houve uma saudação em forma de briefing com os militantes da UNITA em frente ao Secretariado, apresentando a Direcção. Foi uma espécie de mini-comício muito concorrido.

Ainda no dia 6 de Agosto, pelas 19 horas, visitou-se o acampamento para se acender a Fogueira do Patriota.

A Polícia, sem aviso prévio, já a meio do caminho em direcção ao Negage, colocou um carro patrulheiro no meio da caravana, em forma de escolta não comunicada nem solicitada. Quase que aquilo assustou, mas apenas seguiram a caravana.

Houve, à noite, o aplaudido discurso de abertura da Fogueira do Patriota, proferido pelo Presidente Adalberto Costa Júnior.

Uma palestra pedagógica do Vice-Presidente Álvaro Tchikwamanga educou, instruiu e alimentou a juventude acampada.

Pai Banana cantou e encantou com o seu “Tchimbatata”, e o Turbo de Almeida arrebatou-nos a todos para o passado saudoso com o seu “Chingo”.

  1. O encontro com o governador

No dia 7 de Agosto de 2026, houve uma saudação de cortesia ao Governador Provincial do Uíge, que aproveitou a boa educação dos outros para impor as suas ideias preconcebidas.

Segundo as lamentações da Direcção da UNITA, o Governador do Uíge já tinha tudo agendado.

Procurou impor um lugar inapropriado para gerar animosidade entre ele e a Direcção da UNITA.

Depois de troca de ideias, a UNITA concluiu que preferiria realizar o acto de massas em frente à sua própria casa, o Secretariado Provincial.

O Governador, peremptoriamente, disse: “Vocês não podem nem devem realizar o acto na vossa própria casa e rua, pois é um recinto pequeno.”

Mas o recinto pequeno era o que estava disponível, pois o Governo Provincial não autorizou os dois lugares propostos pela UNITA.

Você não autoriza os lugares ideais e confortáveis, mas também proíbe a actividade no lugar disponível. Assim, quer o quê então, senão confusão?

Era provocar incerteza na Direcção da UNITA, desorganização do evento e gerar frustração prévia e ataque de nervos para justificar a próxima agenda.

No meio dessa turbulência, há uma luz muito rutilante: dos 100% da agenda da UNITA no Uíge, posso assegurar que 95% foram conseguidos com muito sucesso.

O Presidente Adalberto Costa Júnior fez o seu discurso oficial para a JURA e, no total, fez quatro comunicações públicas diante dos seus militantes provenientes de vários pontos. E a mensagem foi copiosamente difundida.

O Presidente Adalberto Costa Júnior participou em actividades internas da JURA e assistiu, na íntegra, a três palestras dirigidas à JURA, das quais uma foi facilitada por mim.

E só eram essas as palestras, o que significa que a agenda das palestras foi cumprida a 100%!

  1. O encerramento dos mercados e lojas

O Governo Provincial orientou a Polícia a encerrar praças (mercados informais) e a fechar as lojas.

Qual era o plano de evacuar quase toda a cidade do Uíge?

Era para nenhum popular vir ao comício ansiosamente aguardado e isolar o recinto da UNITA apenas com os seus membros?

Presumo que era para facilitar a carnificina apenas direccionada aos militantes da UNITA e à sua Direcção.

  1. O bloqueio da cidade

Da noite de 6 até 8 de Agosto de 2026, o MPLA mobilizou colunas de som alto para tocar nas traseiras e defronte dos hotéis onde as delegações da UNITA estavam alojadas, para perturbar o silêncio merecido.

Até ao dia 8 de Agosto de 2026, o MPLA espalhou material de propaganda em todas as ruas.

Por sua vez, a Polícia colocou cones e painéis plásticos de barreira literalmente em todas as ruas que dão acesso ao Secretariado Provincial da UNITA no Uíge.

De sorte que ninguém tinha acesso livre e todo o popular que tentasse aproximar-se do Secretariado da UNITA era impedido pela Polícia, num puro estado de sítio, muitas horas antes do momento previsto para o comício.

  1. O Hotel Bago Vermelho

No Hotel Bago Vermelho, onde a maior parte da delegação da UNITA estava alojada, o MPLA montou um palco com música, balões e propaganda precisamente no restaurante onde a UNITA tomava o pequeno-almoço, o almoço e o jantar.

Mais precisamente, o Hotel Bago Vermelho tem um restaurante vasto e um bar. O bar tem formato de cave, mas a porta de acesso é única com o restaurante.

Ora, o MPLA entrou no hotel, ocupou o bar com música e intoxicação visual com aquelas funestas e lutuosas cores vermelhas, amarelas e pretas. O desconforto para os membros da UNITA foi total.

Eu, pessoalmente, perguntei à Direcção do Hotel porque fizeram aquilo. A Direcção do Hotel respondeu-me que fomos obrigados e que os corredores do hotel estavam todos infestados de agentes da MINSE-DISA.

Os elementos da MINSE-DISA passaram a noite toda a circular pelos corredores dos quartos para conhecer os rostos de cada hóspede e chegaram a bater a algumas portas nas barulhentas e perturbadas noites do Uíge.

Alguns abriram as suas portas para saber o que se passava. Diziam que era engano de porta. Este foi o meu caso.

Bateram à minha porta umas dez vezes, às duas horas da manhã, e a justificação era sempre a mesma: “Desculpa, foi engano!”

  1. Os rumores sobre a presença do director-geral do SINSE

No dia 7 de Agosto de 2026, houve rumores de que o Director-Geral do SINSE, General Fernando Garcia Miala, chegou ao Uíge vindo de Luanda e hospedou-se no Hotel Salala, no quarto n.º 11, situado no centro da cidade do Uíge, precisamente na Rua do Comércio, n.º 33-A.

Esse hotel fica aproximadamente a 500 metros do Secretariado Provincial da UNITA.

Não posso questionar o que Fernando Garcia Miala foi fazer ao Uíge naqueles dois fatídicos dias. Ele está em pleno gozo dos seus direitos de livre circulação de pessoas e bens. É um direito civil e as coincidências em Angola são naturais.

Mas, se isto for verdade, então encaixa-se na minha segunda premissa.

  1. O bloqueio da JURA no Negage

A partir das 10 horas do dia 8 de Agosto de 2026, a Polícia dividiu-se em duas unidades.

Uma unidade espalhou-se por toda a cidade do Uíge, com ênfase no bloqueio total das ruas de acesso ao Secretariado da UNITA.

A outra unidade, da URP, foi ao Negage bloquear os autocarros da JURA para impedi-los de vir ao comício do seu Presidente.

Ou seja, como a JURA é brava e eram centenas de jovens ávidos por ouvir o seu líder, a Polícia fez-lhes uma ilha, tornou-os reféns, impedindo-os de sair do Negage com os seus autocarros e de se juntarem ao comício.

Isto é, separar a JURA da Direcção do partido para descoordenar a agenda.

Ainda havia dois carros carregados de soldados das FAA, para estarem em prontidão combativa, se fosse necessário.

  1. Os primeiros disparos

A Direcção da UNITA estava nos hotéis até sensivelmente às 11 horas, quando os disparos começaram, algum tempo antes das 11 horas.

Isto impediu que a Direcção, que queria marchar a pé, pudesse arriscar as suas vidas, introduzindo-se na barreira de agentes da Polícia psicologicamente alterados.

Mas, no Secretariado Provincial da UNITA, a tribuna já tinha sido montada, decorada e estava pronta para receber a Direcção.

Os grupos de animação, o DAP, a LIMA e alguns elementos da JURA já estavam no Secretariado a aguardar o início.

Quando começaram a cantar e dançar, a Polícia entendeu que, afinal, a Direcção já deveria estar dentro do Secretariado.

  1. O ataque policial

Assim, então, a Polícia, sem ser provocada pelos participantes, entendeu começar a lançar bombas de gás lacrimogéneo para justificar a sua presença na rua e dispersar as pessoas.

E, na busca de bravura para agradar aos patrões, a Polícia entendeu direccionar cartuchos, balas e bombas directamente contra as pessoas, resultando em mais de 34 pessoas feridas, desde ferimentos leves aos ferimentos mais graves.

Por tudo isto, já não havia condições psicológicas nem motivação para realizar o comício.

Mas o povo não fugiu. Queriam mesmo assistir ao comício e, por sua vez, a Polícia estava determinada a fazer banho de sangue de forma habitual.

  1. A escolta recusada

No dia 9, depois dos ataques, a Polícia, sem vergonha e como forma de branquear a sua encardida imagem, bem como para confundir as pessoas, ofereceu-se para escoltar a Direcção da UNITA do Uíge até à fronteira com a província do Bengo.

A UNITA recusou categoricamente, dizendo: “Temos Deus e o povo, por isso vamos sem a vossa escolta, como já viemos sem ela.”

Quer dizer: a Polícia atacou a UNITA, impediu a actividade, bloqueou ruas; tudo o que correu mal foi aquilo que a Polícia protagonizou e, no fim, quer oferecer escolta à Direcção da UNITA?

Estranho, no mínimo!

A caravana da UNITA despediu-se entre militantes, amigos e simpatizantes pelas 9 horas do dia 9 de Agosto de 2026, rumo a Luanda e a outras províncias.

O que se viu pelo caminho?

Na ida ao Uíge, no dia 6 de Agosto de 2026, os municípios não tinham nenhuma bandeira do MPLA hasteada.

Mas, já no regresso, no dia 9 de Agosto de 2026, mais propriamente três dias depois, todo o território do Uíge estava inundado de bandeiras do MPLA, da cidade do Uíge até ao rio Dange, quase no Bengo.

O que expressa a orientação do MPLA para semear intoxicação visual com a sua propaganda contra os militantes da UNITA.

O que é que a UNITA perdeu?

A UNITA apenas sofreu profunda dor por ver os seus militantes, simpatizantes e amigos feridos em nome da causa da democracia e do Estado de Direito.

O que é que a UNITA ganhou?

A UNITA ganhou solidariedade em todo o mundo. Ganhou uma visibilidade ainda rutilante. Ganhou maior simpatia do povo do Uíge.

O acto bárbaro do MPLA transformou-se numa grande campanha de mobilização a favor da UNITA.

O próprio Uíge revelou que, para o MPLA, só sobrou o governador, a Polícia e um milhão de bandeiras sem povo. Pois o uso da Polícia foi intensificado depois que o MPLA tentou mobilizar uma contramanifestação.

Essa tentativa saiu à rua no dia 7 de Agosto de 2026, pelas 10 horas, mas, dos membros do MPLA, apenas apareceram menos de 100 pessoas: eram 13 motorizadas, dois carros e perto de 70 bandeirinhas. Nada mais.

Esse fracasso de adesão é que mais obrigou o MPLA a encarnar na Polícia, na ausência de militantes.

Se o MPLA tivesse militantes a seu favor, inundaria as ruas com passeatas de militantes e não com a Polícia ou com bandeiras mortas.

Mas o povo do Uíge, muito mais maduro do que o seu incauto e néscio Governador, não aderiu em nada às provocações instruídas pelos seus lunáticos chefes.

Em suma: o MPLA socorreu-se da Polícia para violar a Lei dos Partidos Políticos, que proíbe os partidos de usarem forças militares e paramilitares para o seu trabalho partidário.

A Polícia mostrou uma postura nada republicana, mas sim marcial, serviçal e demasiado irresponsável.

O que é que o MPLA ganhou com esta situação do Uíge?

A reputação, já de si minguante, do MPLA saiu ainda mais destruída com este gesto totalmente reprovável e vergonhoso.

A recomendação viva e urgente seria João Lourenço exonerar o Governador do Uíge, José Carvalho da Rocha, e deixá-lo sem emprego; exonerar Ernesto Hayamunhe e mandá-lo para a reforma compulsiva; exonerar o delegado do SINSE do Uíge e outros.

Mas João Lourenço nunca irá fazer isto. Porquê? Porque, evidentemente, foi ele quem ordenou aquela desordem!

Lições para a UNITA

Estas provocações vão continuar e todo o cuidado é pouco.

Recomendam-se medidas de segurança e a manutenção da maturidade política demonstrada no Uíge, sobretudo neste ano pré-eleitoral.

*Activista dos Direitos Humanos

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